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Narrativa ajuda Rafaela a tentar comprovar que não teve culpa em doping

Demétrio Vecchioli

20/09/2019 15h37

Rafaela Silva lamenta derrota

O semblante de Flávio Canto expunha o desconforto do medalhista olímpico e apresentador de televisão em estar na frente das câmeras para tentar justificar o caso de doping de alguém que trata como filha. Justo ele, que sempre foi da turma dos intransigentes quando o assunto é antidoping, agora tem que convencer a opinião pública de que nem todo atleta pego com substância proibida, é um trapaceiro, alguém que, nas palavras dele, "não entendeu o que é esporte".

Porque se há um atleta que entendeu o que é o esporte esse alguém é Rafaela Silva, uma judoca que saiu da Cidade de Deus e que mostrou para o Brasil que o esporte transforma, constrói, ensina, combate o bom combate. Agora, essa imagem que parecia inabalável é atingida por um resultado analítico adverso para Fenoterol, substância presente em remédios para asma.

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Ao lado de Flávio Canto, do advogado Bichara Neto e do bioquímico L.C. Cameron, Rafaela passou segurança na entrevista coletiva convocada antes mesmo de o doping ser publicado pela imprensa ou por órgãos de controle. Falou que estava ali diante das câmeras para "dar a cara a tapa". Que vai competir no Grand Prix Interclubes normalmente no fim de semana e que vai provar a inocência. Em nenhum momento baixou a cabeça, transparecendo tranquilidade.

Canto, que a tem como filha, ofereceu apoio incondicional. E quem o conhece sabe que isso não é pouco. Uma coisa é quando o pai que oferece o braço por ser sua responsabilidade. "Estou com você porque sou teu pai". Outra é quando o faz por acreditar: "Estou com você porque sei que você é inocente". Flávio tem certeza que Rafaela é inocente.

Na entrevista coletiva, Flávio revelou que ficou sabendo do então "boato" por uma ligação minha. Foi na noite de 27 de agosto, dia em que Rafaela ganhou medalha de bronze no Mundial. A conversa foi em off, não lembro exatamente as palavras dele, mas foi algo como: "Não existe a menor possibilidade. A Rafaela toma todo o cuidado do mundo, não bebe nem cerveja, só consome o que é prescrito pelo meu nutricionista. Ela come o que eu como".

Pela sua trajetória como atleta e criador de um muitíssimo bem sucedido projeto social, Flávio Canto tem credibilidade e a oferece por completo a Rafaela. A própria judoca também tem uma história até hoje irretocável e se comporta como quem não tem medo da verdade. Juntos, eles ainda têm o respaldo expresso do Comitê Olímpico do Brasil (COB) e da Confederação Brasileira de Judô (CBJ).

Se pudessem, as duas entidades diriam que põem a mão no fogo por Rafaela. E não parece ser por interesse – ninguém quer deixar de ter a campeã olímpica em Tóquio, claro. Joga ainda a favor dela o fato de outro exame, feito no Mundial, 20 dias depois, ter dado negativo, e o fato de que não faria o menor sentido Rafaela consumir de forma proposital um medicamento que dá ganho de performance no curto prazo para lutar os Jogos Pan-Americanos, evento irrelevante no seu calendário.

Toda essa narrativa é até mais importante do que a história apresentada por Rafaela para justificar como a substância proibida entrou em seu organismo. Ela diz que sempre teve a "mania" de dar o nariz para bebês chuparem. Um desses bebês, Lara, filha de sete meses da judoca Flávia Rodrigues, teria recebido medicação contra asma antes de "brincar" com Rafaela em uma visita da campeã olímpica à sua casa.

A desculpa vai colar? É difícil saber. Antes da Rio-2016, o canadense Shawnacy Barber escapou de suspensão por consumo de cocaína alegando que beijou uma prostituta sem saber que ela havia cheirado a droga. Mas Henrique Rodrigues, brasileiro da natação, levou um ano de suspensão apesar de provar que seu doping era causado pela pomada cicatrizante usada pela esposa, que havia feito cirurgia plástica. 

Como o Fenoterol é uma substância especificada (que sem dúvida dá ganho de performance), o código antidoping não exige uma suspensão preventiva. Rafaela foi ouvida nesta sexta-feira pela manhã, depois de a contraprova também dar positivo, e agora vai decidir se Rafaela perde ou não a medalha de ouro conquistada em Lima.

Também é a partir de agora que a entidade notifica a Federação Internacional de Judô (IJF), que é quem define se Rafaela será ou não suspensa, o que pode inclusive tirar ela as duas medalhas de bronze conquistadas no Mundial de Tóquio, que aconteceu logo depois do Pan. 

Este é o quarto (e, ao que tudo indica, último) caso de doping do Brasil no Pan. Além de Andressa de Morais (prata no lançamento do disco) e Kacio Freitas (bronze no ciclismo de pista), também foi pego o ponteiro Rodriguinho, da seleção masculina de vôlei, medalhista de bronze. Em toda a história dos Jogos Pan-Americanos o Brasil tinha dois casos de doping.

No judô, o caso de Rafaela é o segundo da seleção brasileira só neste ano. Em janeiro foi anunciada a suspensão de Jéssica Pereira, principal revelação do país até então no ciclo olímpico, e também atleta do Reação. Julgada em primeira instância ela pegou 18 meses de suspensão, mas recorre para tentar voltar antes e poder brigar por vaga na Olimpíada.

Sobre o autor

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Focado na cobertura olímpica, produziu o Giro Olímpico para o UOL e reportagens especiais para a revista IstoÉ 2016. Criador do Olimpílulas, foi colunista da Rádio Estadão e blogueiro do Estadão, pelo qual cobriu os Jogos do Rio-2016.

Está disponível para críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas no demetrio.prado@gmail.com.

Sobre o blog

Um espaço que olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. Aqui tem destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa.