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Suspensão de Clemilda volta a ligar 'clã Fernandes, do ciclismo, ao doping

Demétrio Vecchioli

09/09/2019 04h00

Clemilda Fernandes (Jonne Roriz/Exemplus/COB)

Quatro primas que agora colecionam quatro suspensões por doping. Referência do ciclismo feminino brasileiro, o 'clã Fernandes', de Goiás, voltou a ter sua imagem ligada à trapaça esportiva. Na sexta, a União Ciclística Internacional (UCI) anunciou a suspensão provisória da mais vitoriosa prima Fernandes, Clemilda, por supostamente adulterar um exame. Ela estava convocada para defender o Brasil no Mundial que acontece daqui a duas semanas.

A suspensão é a segunda da carreira de Clemilda, que tem 40 anos e representou o Brasil nas últimas três edições dos Jogos Olímpicos, em Pequim-2008, Londres-2012 e Rio-2016. O primeiro gancho ocorreu em agosto de 2009, quando ela foi flagrada em exame realizado durante o Giro Rosa (versão feminina do Giro D'Itália). Na ocasião, ela teria testado positivo para EPO, hormônio que aumenta a capacidade física em provas longas – o caso só se tornou público depois de uma denúncia do Estadão, que revelou que a Confederação Brasileira de Ciclismo (CBC) escondia casos para não perder patrocínio.

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Em 2014, foi a vez de uma irmã dela, Márcia, testar positivo para o mesmo hormônio sintético após ser campeã brasileira. Dois anos depois foi Uênia, prima de Márcia e Clemilda, a ser pega no doping, novamente para EPO, em exame surpresa. Ela foi suspensa por quatro anos, em gancho que acaba no final deste mês.

Naquela ocasião, a Autoridade Brasileira de Controle Antidoping (ABCD) ficou das 16h às 0h tentando colher exames da seleção brasileira militar, porque, de acordo com relato do então consultor Luis Horta, "muitos atletas propositadamente se hiperidrataram" – inclusive as primas. Clemilda não fez exame de sangue naquele dia, como este repórter contou então no Estadão, porque os agentes da ABCD não conseguiram encontrar suas veias.

Desta vez, Clemilda foi suspensa por "adulteração", artigo do código antidoping que inclui tentativa de adulterar o exame, fornecer informações fraudulentas ou intimidar ou tentar intimidar testemunha em potencial. Em uma série de comentários em redes sociais, ela indica que a punição está ligada à não-realização de exames de sangue, o que teria relação com suas supostas veias finas.

Pelo Facebook, a ciclista tentou se explicar em postagem confusa, acompanhada de um vídeo incompleto."Toda vez que vem fazer exame, vem sangue e urina. No Mundial e em outras ocasiões, (os agentes) tiveram dificuldade de encontrar minha veia. Eu exigi um médico ou uma enfermeira formada nessa área. A UCI me pergunta há um ano isso e meu advogador respondeu…", diz ela na gravação. No texto, cita que o caso é do ano passado.

Há cerca de três meses, outra integrante do clã Fernandes, Janildes (irmã de Clemilda, única sem histórico de doping) liderou um movimento contra a participação de Flávia Pararella no Campeonato Brasileiro. Como mostrou o Olhar Olímpico, o Tribunal de Justiça Desportiva Antidopagem (JTDAD) não levou em consideração, em seu julgamento, que ela era reincidente. Esse fato poderia ter ampliado a pena, a impedindo de participar do torneio. Flávia voltou muito bem da suspensão, subiu 106 posições só na última atualização e está em 108º lugar do ranking mundial, como melhor brasileira – Clemilda vem a seguir, em 220º lugar.

Em entrevista ao UOL Esporte durante os Jogos Pan-Americanos, o presidente da UCI citou o doping no ciclismo brasileiro como um dos desafios da entidade internacional. Em 2017, a única equipe profissional do país, a Funvic, perdeu sua inscrição devido ao excesso de casos de doping. A CBC chegou a desconvocar todos os atletas da Funvic que iam para o Campeonato Pan-Americano daquele ano como consequência da falta de confiança no trabalho da equipe. Em dois anos, ao menos sete atletas foram suspensos.

Nos Jogos Pan-Americanos deste ano, Kacio Freitas foi pego no doping por SARM, mas nenhuma suspensão foi anunciada até agora – isso deve ocorrer nos próximos dias. Mesmo assim, ele ficou fora da convocação para o Campeonato Pan-Americano, que valia vagas olímpicas. A CBC abriu mão de levar atletas que se ofereceram para pagar sua ida ao torneio, na Bolívia, temendo novos casos.

Somadas, as listas de atletas suspensos pela ABCD, pela CBC e pela UCI têm agora 29 brasileiros com ganchos definitivos e agora outros quatro com provisórios. E ainda falta sair oficialmente a suspensão de Kacio. A relação conta com diversos atletas campeões nacionais e até mesmo um atleta flagrado na Olimpíada do Rio: Kleber Ramos, o Bozó.

 

Sobre o autor

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Focado na cobertura olímpica, produziu o Giro Olímpico para o UOL e reportagens especiais para a revista IstoÉ 2016. Criador do Olimpílulas, foi colunista da Rádio Estadão e blogueiro do Estadão, pelo qual cobriu os Jogos do Rio-2016.

Está disponível para críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas no demetrio.prado@gmail.com.

Sobre o blog

Um espaço que olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. Aqui tem destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa.