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Atletas lançam campanha cifrada contra nomeações de Bolsonaro

Demétrio Vecchioli

2015-04-20T19:04:00

15/04/2019 04h00

Alguns dos principais atletas olímpicos do país lançaram, no domingo (14), uma campanha contra a postura adota pelo governo de Jair Bolsonaro (PSL) com relação ao esporte. Mas fizeram questão de não deixar isso claro em nenhum momento do texto que está sendo divulgado nas redes sociais acompanhado da hashtag #JuntosPeloEsporte.

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"Estamos vivendo um momento de profunda perplexidade diante das últimas notícias relacionadas ao esporte brasileiro e a forma como estão tratando o nosso maior patrimônio. Definitivamente não é isso que merecemos!! Queremos gente que faça pelo esporte, viva pelo esporte", escreveram dezenas de atletas em suas redes sociais desde o domingo à tarde.

Participam da campanha principalmente membros da Comissão Nacional de Atletas (CNA), um conselho consultivo ligado à Secretaria Especial de Esporte, do governo federal, e membros da Comissão de Atletas do Comitê Olímpico do Brasil (COB). Entre eles, Hortência, Xuxa, Hugo Hoyama, Tiago Camilo, Thiago Pereira, Poliana Okimoto e Maurren Maggi.

Muitos desses não só votaram em Bolsonaro como fizeram campanha expressa nas redes sociais durante a eleição. São atletas que estão incomodados com a postura do governo federal, mas que, ao mesmo tempo, não querem apontar o dedo contra uma gestão que acabou de ultrapassar 100 dias de trabalho. Aí, o recado ficou dúbio.

As "últimas notícias relacionadas ao esporte brasileiro" que causam "perplexidade" nos atletas são duas, especialmente. Uma, a nomeação do pastor evangélico João Manoel (MDB-MA), irmão de um deputado federal, filho de um ex-senador e indicado pelo ex-presidente José Sarney, para ser o secretário de esporte de Alto-Rendimento. O Olhar Olímpico noticiou a nomeação em primeira mão.

Outra é a decisão de Bolsonaro de acabar com centenas de conselhos que, nas palavras dele, eram "entidades aparelhadas politicamente usando nomes bonitos para impor suas vontades, ignorando a lei e atrapalhando propositalmente o desenvolvimento do Brasil, não se importando com as reais necessidades da população".

Ainda não está clara a lista definitiva de conselhos e comissões que têm que acabar até o final de maio, mas é certo que o Conselho Nacional de Atletas chega ao fim. O órgão tem, entre seus membros, diversos eleitores de Bolsonaro. Já o Conselho Nacional do Esporte em tese não acaba, mas sua composição deve ser revogada. Dos 22 membros do CNE, só quatro são representantes da sociedade civil. Um deles, Robson Grace, do jiu-jitsu, que teve briga pública com um irmão para defender Bolsonaro.

Há, porém, diversos outros focos de descontentamento. Bolsonaro, que prometeu em campanha fazer nomeações "técnicas", acabou com o Ministério do Esporte e aparelhou a Secretaria Especial de Esporte com indicações políticas. Washington Cerqueira é um ex-jogador de futebol (o "Coração Valente), mas só ficou com a Secretaria de Esporte, Lazer e Educação, a mais rica, porque foi deputado suplente do ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni.

A única escolha "técnica" feita para o esporte é Emanuel Rego, membro da Comissão de Atletas do COB. Mas o ex-jogador de vôlei de praia foi convidado desde janeiro, trabalha há mais de dois meses, e até agora não foi nomeado. Teme-se que ele não seja.

Até agora, o ministro da Cidadania, Osmar Terra (MDB-RS) não nomeou nenhum dos indicados pelo general Marco Aurélio Vieira, secretário de Esporte, para o alto escalão. Os dois travam queda de braço na qual a vontade de Terra, que é quem tem a caneta, tem prevalecido. O movimento dos atletas não diz claramente, mas está com o general.

Após 100 dias de governo, o governo Bolsonaro teve uma vitória importante no esporte: a recomposição do Bolsa Atleta. De resto, praticamente não há o que se apresentar, a não ser a inauguração de Centros de Iniciação ao Esporte (CIE) construídos nos governos Dilma e Temer. Único atleta olímpico na Câmara dos Deputados, Luiz Lima (PSL), filiado ao PSL pelo próprio Jair Bolsonaro, recentemente chamou a Secretaria de Esporte de "casa fantasma".

Sobre o autor

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Focado na cobertura olímpica, produziu o Giro Olímpico para o UOL e reportagens especiais para a revista IstoÉ 2016. Criador do Olimpílulas, foi colunista da Rádio Estadão e blogueiro do Estadão, pelo qual cobriu os Jogos do Rio-2016.

Está disponível para críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas no demetrio.prado@gmail.com.

Sobre o blog

Um espaço que olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. Aqui tem destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa.