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Calotes da Koch e risco à reputação fizeram Octagon cancelar Brasil Open

Demétrio Vecchioli

18/12/2019 04h00

Ibirapuera recebe o Brasil Open (Marcello Zambrana/ DGW Comunicação)

Foi o risco à sua imagem, diante dos muitos calotes aplicados pela Koch Tavares, que fez a Octagon Internacional cancelar o Brasil Open de Tênis, que era realizado em fevereiro em São Paulo, e levar a data do calendário internacional para o Chile. A informação consta em um carta enviada pela empresa britânica à Koch e à Associação de Tenistas Profissionais (ATP) no último dia 25 de novembro.

"A Octagon forneceu numerosos indícios de importantes violações do acordo, como indicado em cartas de março de 2016, fevereiro de 2017, março de 2018 e junho de 2019. Apesar das cartas, a Koch não conseguiu resolver essas importantes violações. Além disso, importantes violações adicionais parecem surgir todos os dias, pois a Octagon ficou ciente de que a Koch não pagou vários fornecedores e parceiros", diz a carta a qual o Olhar Olímpico teve acesso.

As dívidas da Koch Tavares não são novidade no mercado e vêm sendo noticiadas pelo blog desde 2018. No ano passado, o torneio ficou perto de não acontecer porque a promotora não só não tinha crédito como o evento sofria sem patrocinadores. Um único empresário levou calote de mais de R$ 200 mil depois de reservar quartos de hotel para os jogadores, despesa que a Koch deveria ter pago.

A promotora, que já foi a maior do país no mercado esportivo, vinha negando os problemas financeiros. Em novembro, um dia depois de o Olhar Olímpico escrever sobre as dívidas, a Koch convidou três jornalistas para entrevistas exclusivas com Luis Felipe Tavares, presidente da empresa, deixando o blog de fora. Nelas, a empresa alegou que a decisão de mudar o "formato" do Brasil Open foi estratégica, porque o torneio, no saibro, estava em data ruim no calendário.

Ao Estadão, por exemplo, o diretor comercial José Augusto Gonçalves disse que a dívida estava na casa de R$ 250 mil. "Fizemos acordos com os credores. E estes acordos já se encerraram e outros estão em fase final de encerramento. Sobrou muito pouco [de dívidas]. Não precisou chegar à Justiça. Foi tudo resolvido com conversas. Tudo está dentro da normalidade", disse. 

Os calotes são tantos, porém, que as reclamações chegaram à Octagon, que é a dona da data, e à ATP. "Esses fornecedores e parceiros contactaram a ATP diretamente. Além de deixar de pagar, as ações da Koch Tavares prejudicaram a reputação da Octagon e colocaram em risco a sanção do torneio", escreveu Paul J. Haase, conselheiro geral da Octagon para propriedades, em carta a Luis Felipe Tavares.

Diante disso, ele apontou, a Octagon estava rescindindo o contrato imediatamente. "Esta rescisão não isenta o Koch Tavares de, entre outras coisas, suas obrigações pendentes de pagamento em relação ao torneio", finalizou.

Ao longo dos últimos anos, a promotora vinha se sustentando em um modelo de negócios no qual ela discutia contratos com fornecedores e patrocinadores, mas quem assinava era sempre uma ONG, a Associação Brasileira para a Criação e Desenvolvimento de Modalidades Esportivas Praticadas em Areia (ASBRA), que se apresentava para o governo federal como realizadora do evento para captar recursos pela Lei de Incentivo ao Esporte.

A reportagem chegou a mostrar que a ATP não reconhecia como verdadeira uma carta juntada à documentação entregue ao então Ministério do Esporte e que reconhecia a ASBRA como a responsável pelo evento. Mesmo assim, este ano a Secretaria Especial do Esporte voltou a aprovar projeto de Lei de Incentivo para o ano que vem.

A Koch vem defendendo, na imprensa e no mercado, que o projeto segue em vigor e que, com o dinheiro arrecadado, vai realizar três torneios, de nível Challenger, em Olímpia (SP), Florianópolis (SC) e São Paulo, este no fim do ano que vem. Mas o projeto, de R$ 5,5 milhões, só passou pela primeira peneira da comissão da Lei de Incentivo, que avalia a documentação do proponente (a ASBRA). Só depois de o projeto arrecadar mais de 20% do seu valor total é que a comissão faz a avaliação de mérito. A própria ASBRA tem aprovados projetos para Challengers, nos quais pediu R$ 1 milhão para realizar cada um deles.

Procurada pela reportagem, a Octagon disse que não faria comentários no momento. Já a Koch Tavares, também procurada via assessoria de imprensa ao longo de dois dias, não teceu qualquer comentário.

 

Sobre o autor

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Focado na cobertura olímpica, produziu o Giro Olímpico para o UOL e reportagens especiais para a revista IstoÉ 2016. Criador do Olimpílulas, foi colunista da Rádio Estadão e blogueiro do Estadão, pelo qual cobriu os Jogos do Rio-2016.

Está disponível para críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas no demetrio.prado@gmail.com.

Sobre o blog

Um espaço que olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. Aqui tem destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa.

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