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Por que feito na maratona não é recorde, mas entra para a história humana

Demétrio Vecchioli

13/10/2019 04h00

(Guo Chen/Xinhua)

Eliud Kipchoge entrou para a história ontem (12) porque, entre muitas coisas, seu feito de correr uma maratona abaixo de 2 horas é uma vitória de milhões de corredores amadores e profissionais, de todos os rincões do planeta. Ao "vencer" um desafio proposto por um bilionário, o queniano mostrou que homem pode ganhar de seu adversário mais cruel: o tempo.

Troque um dedo de prosa com um corredor amador, seja de provas de 5km ou um ultramaratonista, e se prepare para ouvir diversas vezes a palavra "pace", que pode ser traduzida por "ritmo", ou "cadência". Quantos minutos aquele corredor leva para completar um quilômetro.

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Esse corredor imaginário já não precisa calcular mentalmente seu próprio pace. O aplicativo de celular – ou um relógio moderninho – faz as contas e diz sem erro. Aquele número, medido em min/km, é a glória e, também, o pesadelo do corredor, independente da distância. É sua superação e também a prova cabal de que seu corpo tem um limite, medido pelo tempo.

O que Kipchoge fez em Viena (Áustria) foi entrar para a história como o homem cujo limite é o mais alto de todos. Ninguém nunca, em tempo algum, ficou duas horas (ou quase isso, 1h59min40s) correndo um quilômetro a cada 2min50s. Estar sob chuva ou não, acompanhado ou não, recebendo uma bolada para isso ou não, tudo isso é pouco relevante quando o objetivo era fazer o que nenhum homem nunca fez.

Outras provas e modalidades também têm seus recordes, mas nenhum pode ser comparado, em escala, a um "recorde" na maratona, a prova que é o esporte em essência. Uma competição entre pessoas que saem correndo para ver quem chega na frente dali a muitos quilômetros – desde 1908 ficou estabelecido, como padrão, que essa distância é de exatos 42.195 metros.

Considere também que números inteiros sempre serviram como barreiras físicas e psicológicas para os atletas. Uma forma de nivelá-los. O grupo de pessoas que correram os 100 metros na casa de 9 segundos tem exatamente 144 homens. Entre as mulheres são 109 na turma das sub11. Cerca de 2% dos homens que já completaram uma maratona o fizeram abaixo de 3 horas.

O que fez Kipchoge hoje foi combinar um feito histórico ("recorde" na prova mais nobre do esporte) com a quebra de uma barreira que até outro dia parecia intransponível. De 1988 a 2011 – por um quarto de século, portanto – o recorde da maratona evoluiu apenas 3min12s, chegando a 2h03min23s quando Kipchoge perdeu a primeira (e por enquanto única) prova da carreira, em 2013, em Berlim, para o compatriota Wilson Kipsang.

Junte a esse tempero todo uma dose cavalar de marketing. Kipchoge já era, antes de ontem, um dos grandes nomes do esporte na atualidade, campeão olímpico e de tudo que correu – tetra em Londres, tricampeão em Berlim. Em 2017, foi a estrela de uma campanha global da Nike, a Breaking2, que tinha como intuito colocar três grandes atletas para tentar quebrar a barreira das 2 horas. Kipchoge ganhou, por chegar na frente, mas perdeu, porque não atingiu a meta, por 25 segundos.

Dois anos depois, o queniano foi convidado para voltar a tentar. Desta vez, bancado pelo bilionário Jim Ratcliffe, número 110 da lista dos mais ricos do mundo da Forbes em 2018 e número 1 entre os britânicos. Deu à empreitada o nome de sua empresa da área de química, a Ineos, e a chamou Ineos 1:59.

Tudo foi milimetricamente pensado para o o feito ser alcançado. A começar pela escolha pelo homem mais capaz de fazê-lo, Kipchoge, que terminou a prova com gás para correr mais uma maratona. E do tênis Vaporfly, da Nike, que parece ter cumprido a promessa de melhorar em 2% a performance dos atletas – no futuro, talvez, o esporte discuta se o ganho oferecido pelo tênis não é tão desleal quanto os trajes tecnológicos depois proibidos na natação.

Kipchoge não precisou se preocupar com nenhum fato externo que não completar a maratona abaixo de 2 horas. Tinha 41 coelhos (pacemarks) para marcar o exato pace necessário e um laser verde mostrando onde ele deveria estar para atingir o feito. Tudo para que ele não forçasse demais, nem de menos. Não precisou marcar adversários, perder segundos valiosos olhando para o relógio, nem lidar com vento – os coelhos fizeram uma barreira humana à sua frente. O trajeto era plano, em meio a um parque, e a temperatura, ideal, de 9ºC. Ao seu lado, milhares de pessoas a motivá-lo. Também não houve controle de doping – um detalhe, porque Kipchoge é altamente controlado e pode ser testado a qualquer dia e qualquer hora pelas agências internacionais. 

Por tudo isso, o feito não vale como recorde. No esporte, uma maratona é mais do que correr 42,195 metros. É fazer isso ganhando dos adversários e tendo que lidar com tudo que aparecer pelo caminho – até um padre irlandês. Por enquanto, vai ficar a dúvida se Kipchoge quebraria a barreira das 2 horas em condições perfeitas, teste ao qual ele será submetido cada vez que largar para uma prova daqui em diante. No mais importante deles, porém, ele já passou. E levou com ele a humanidade. 

Sobre o autor

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Focado na cobertura olímpica, produziu o Giro Olímpico para o UOL e reportagens especiais para a revista IstoÉ 2016. Criador do Olimpílulas, foi colunista da Rádio Estadão e blogueiro do Estadão, pelo qual cobriu os Jogos do Rio-2016.

Está disponível para críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas no demetrio.prado@gmail.com.

Sobre o blog

Um espaço que olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. Aqui tem destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa.

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