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Bia Ferreira atropela chinesa e é campeã mundial de boxe

Demétrio Vecchioli

13/10/2019 06h54

Bia Ferreira campeã mundial de boxe (reprodução/Youtube)

Grande aposta da Confederação Brasileira de Boxe (CBBoxe) para o atual ciclo olímpico, Bia Ferreira mostrou neste domingo (13) que a aposta não é em vão. Em Ulan-Ude, na Rússia, ela atropelou a chinesa Cong Wang e, por decisão unânime dos árbitros, faturou o título mundial da categoria até 60kg. É a primeira vez que uma brasileira é campeã mundial em uma categoria olímpica -Roseli Feitosa foi campeã em 2010 em subdivisão que não estaria no programa de Londres-2012.

Para chegar à medalha de ouro, Bia precisou passar por cinco lutas. Ela estreou contra  Keamogetse Kenosi, de Botsuana, a quem venceu por nocaute técnico. Depois, superou Omailyn Alcala, da Venezuela, a russa Natalia Shadrina e norte-americana Rashida Ellis, cabeça de chave.

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O boxe, diferente de outras modalidades individuais, tem Mundiais exclusivos para homens e mulheres. O torneio dos homens deste ano aconteceu também na Rússia, em Ecaterimburgo, onde Hebert Conceição ganhou o bronze na categoria até 75kg. Diferente do masculino, o boxe feminino amador ainda preserva os capacetes.

O Mundial de Ulan-Ude não valeu vaga na Olimpíada porque a Associação Internacional de Boxe Amador (Aiba) está suspensa pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) por uma série de fatos ligados a má-gestão. Quem vai organizar a competição de boxe de Tóquio será uma comissão liderada pelo presidente da federação de ginástica. O torneio terá cinco categorias de peso, metade das 10 disputadas no Mundial, entre elas a até 60kg.

As primeiras vagas olímpicas serão distribuídas por pré-olímpicos continentais a serem realizados no ano que vem – o das Américas é no final de março, em Buenos Aires. Na categoria de Bia estarão em jogo três vagas. Depois, outras três ou quatro vagas serão disputadas no Pré-Olímpico Mundial, a ser disputado em maio, em Paris.

A CBBoxe só enviou três atletas para o Mundial. Jucielen Romeu (57kg), que foi prata no Pan, perdeu logo na estreia para Nesthy Petecio, das Filipinas. Graziele de Jesus (51kg) passou da primeira rodada e depois caiu para a russa Lilya Aetbaeva. Flávia Figueiredo (75kg), bronze no Pan, completa a seleção brasileira. 

Bia acerta golpe em chinesa (reprodução/Youtube)

Conheça Bia Ferreira

Bia é filha de Raimundo Ferreira, o Sergipe, antigo sparring de Popó. Quando pequena, era chamada ao colo do pai para comemorar vitórias. Aos 4 anos, começou a ser treinada por ele na periferia de Salvador, onde Sergipe mantinha uma academia que formou boxeadores que depois chegariam também à seleção. A filha, que depois o acompanharia até Juiz de Fora, foi mais uma.

Então professora de boxe na academia do pai, Bia impressionou quando enfim chegou às competições de boxe, aos 21 anos. Naquele ano, no seu primeiro Campeonato Brasileiro, levou 30 segundos para mandar a primeira rival para a lona. Não teve chance de fazer a segunda luta, porque chegou à Confederação Brasileira de Boxe (CBBoxe) uma denúncia de que a atleta que competia por Minas já havia lutado profissionalmente em outra modalidade, o muay thai.

Ela sempre negou, alegando que as fotos de uma luta sem capacete (o que diferente o muay thai profissional do amador) eram de um torneio amistoso entre academias. Mesmo assim, recebeu uma suspensão dura: dois anos de quarentena, sem poder competir no boxe.

A CBBoxe decidiu esperar e a chamou para a seleção. Em 2016, foi sparring de Adriana Araújo na Olimpíada do Rio. Depois do fim da suspensão – e da ida da medalhista olímpica para o boxe profissional -, Bia ficou como titular da categoria até 60kg na seleção brasileira. E o sucesso foi instantâneo.

Logo na primeira temporada, ganhou o Prêmio Brasil Olímpico como melhor nome do boxe amador brasileiro de 2017. Também se tornou campeã pan-americana, depois bicampeã, e faturou dois torneios importantes em Belgrado (Sérvia) e Sófia (Bulgária). Em 2018, levou a medalha de ouro nos Jogos Sul-Americanos de Cochabamba (Bolívia).

Seu grande momento tinha tudo para ser o Mundial do ano passado, na Índia, mas ela acabou eliminada logo na segunda rodada por uma sul-coreana. Adiou em um ano o sonho de ganhar sua primeira medalha em Mundiais. Nesse meio tempo, conseguiu mais feitos relevantes, como a medalha de ouro dos Jogos Pan-Americanos.

Sobre o autor

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Focado na cobertura olímpica, produziu o Giro Olímpico para o UOL e reportagens especiais para a revista IstoÉ 2016. Criador do Olimpílulas, foi colunista da Rádio Estadão e blogueiro do Estadão, pelo qual cobriu os Jogos do Rio-2016.

Está disponível para críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas no demetrio.prado@gmail.com.

Sobre o blog

Um espaço que olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. Aqui tem destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa.

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