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Olhar Olímpico

Campeão olímpico abre o jogo sobre nova troca de dupla: 'parte mais chata'

Demétrio Vecchioli

18/02/2019 04h00

Bruno Schmidt (divulgação/FIVB)

"É a parte mais chata do vôlei de praia", reconhece Bruno Schmidt, mais uma vez envolvido em um desses momentos. Há uma semana, o campeão olímpico, que em julho passado se separara de Alison (não por vontade dele), decidiu romper a dupla que mantinha com Pedro Solberg. Pensando nos Jogos de Tóquio, "aos 48 do segundo tempo", como ele mesmo diz, se uniu ao campeão mundial Evandro.

"É chato tanto desfazer quanto receber a notícia de que vão estar desfazendo seu time. Mas teve que acontecer. Foi tudo visando um time competitivo, uma situação melhor para conseguir a vaga olímpica. É uma atitude ambiciosa. Esse é meu barato: tomar uma atitude ambiciosa, para ganhar. Não me arrependo das decisões que eu tomo, só daquelas que não tomei", diz Bruno.

Ele viveu os dois lados da moeda nos últimos meses. Em maio, foi informado que sua dupla campeã olímpica, com Alison, já longe da melhor fase técnica, seria rompida. Ficou a mágoa pelo fim de uma relação sempre estritamente profissional. Na semana passada, foi ele a informar Pedro Solberg, a quem considera um dos amigos que vez no vôlei de praia, que o "casamento" havia chegado ao fim.

Os dois fatos estão relacionados. Quando o time campeão olímpico se desfez, Bruno olhou o mercado e considerou que, entre as opções disponíveis, melhor seria retomar a parceria com Pedro Solberg, campeã mundial em 2013. Dois dias depois, levou um susto quando soube que Alison passaria a jogar com André Stein.

"Não imaginava que o Evandro e o André fossem abrir a dupla. Era a dupla número 1 do Brasil, tinham acabado de ser campeões mundiais. Eu jogar com o Evandro e o Alison com o André seria a troca óbvia, mas eu não imaginava nunca que eles fossem abrir. Quando o Ed (técnico de Evandro) me contou, eu falava: 'não estou acreditando!' Eu tinha acabado de fazer inscrição das etapas do circuito mundial com o Pedro. Preferi honrar minha palavra", conta.

A dupla com Pedro Solberg não deslanchou e o Bruno Schmidt, considerado um dos jogadores mais técnicos do mundo, temeu ficar fora da Olimpíada. No início do mês, veio o convite para, enfim jogar com Evandro, um dos melhores bloqueadores do mundo. Não havia como dizer não.

"Gosto muito do jogo do Evandro e vice-versa. Quando começou 2019, eu já tinha deletado essa possibilidade, achei que não ia acontecer. Mas quando recebi o convite fiquei muito feliz. Sou um cara que estou nesse esporte para vencer. Gosto desse sentimento. Gosto de tomar atitudes importantes. Gosto de ser cobrado, de assumir responsabilidades. Fechamos nos acréscimos, era o último instante para que isso acontecesse. Estou mega empolgado", diz.

Bruno e Evandro (divulgação/CT Leblon)

Profissionalismo

Durante cerca de meia-hora de conversa por telefone, Bruno repetiu ao menos cinco vezes que "as pessoas não entendem" o contexto que leva a um troca-troca tão intenso de duplas no vôlei de praia. De fato, é um cenário complexo. "Comparando com a Fórmula 1, é como se eu estivesse em uma escuderia e sentisse que poderia ter mais chances de resultados em outra", compara.

O grande público vê as duplas em quadra e, no máximo, sabe que elas têm um treinador. Mas, no nível que Bruno Schmidt joga, a coisa é muito mais profissional. Ele, Alison, Pedro Solberg e Evandro têm, todos, um centro de treinamento e uma equipe multidisciplinar. Trocar de parceiro significa, literalmente, trocar de equipe – CT, técnico, fisioterapeuta, médico, preparador físico…

"É o trade, que também ocorre o tempo todo. Nos outros esportes tem um clube, dá aquela aparência de profissionalismo, não parece algo pessoal. Não gosto de ver por esse lado. Trato como esporte profissional. Todo mundo fazendo as mudanças para se fortalecer o mais rápido possível", observa, reforçando que, no Brasil, o envolvimento emocional é maior. "Lá fora as equipes se desfazem e agem como se nada tivesse acontecido. O Brasil tem esse envolvimento pessoal. Você passa por muitos momentos juntos. Não é fácil romper."

Sobre o fim da dupla com Alison, ele reconhece que o pós-olímpico do time foi "muito mal trabalhado". "A gente tinha decidido pisar no freio e o carro morreu. O motor afogou", comenta, mais uma vez comparando com o automobilismo. "A gente acabou passando do ponto, não conseguiu levantar a casa, saber fazer tudo de novo, se cobrar, cobrar um ao outro, voltar a crescer. A gente entrou nessa situação e o mundo todo querendo ganhar dos  atuais campeões olímpicos."

Já sobre o novo casamento com Evandro, ele não esconde que tudo passa pela meta de chegar à Olimpíada e tentar mais uma medalha. "Chegando esse momento que estamos, na véspera da corrida olímpica, quanto mais você puder formar um time competitivo, mais chances você vai ter de fazer uma corrida competitiva. Eu tenho um objetivo muito grande, quero sempre ter um time mais competitivo possível".

Sobre o autor

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Focado na cobertura olímpica, produziu o Giro Olímpico para o UOL e reportagens especiais para a revista IstoÉ 2016. Criador do Olimpílulas, foi colunista da Rádio Estadão e blogueiro do Estadão, pelo qual cobriu os Jogos do Rio-2016.

Está disponível para críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas no demetrio.prado@gmail.com.

Sobre o blog

Um espaço que olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. Aqui tem destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa.