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Olhar Olímpico

Efeito cascata no vôlei de praia também acaba com dupla campeã mundial

Demétrio Vecchioli

23/05/2018 18h43

Evandro (de boné) e André foram campeões no fim de semana em Itapema (SC). Agora, são ex-companheiros (divulgação)

De tempos em tempos o vôlei de praia passa por um efeito cascata, que mexe em toda a estrutura dos times. Uma dupla importante chega ao fim (a expressão usual é "a dupla abriu"), dois jogadores de renome vão ao mercado em busca de parceiros, desfazem outras duas duplas, e isso só acaba quando todo mundo se rearranjar de novo. Praticamente no meio do ciclo olímpico para Tóquio-2020, o vôlei de praia masculino do Brasil está meio a esse turbilhão. Em um dia, ao menos quatro duplas já acabaram.

Para entender esse movimento é preciso primeiro admitir o pressuposto de que esse é um mercado como outro qualquer, que naturalmente tem jogadores que tem maior ou menor oferta. E, também, que obviamente todos os envolvidos querem sair ganhando.

O estopim foi dado por Bruno Schmidt e Alison. Juntos desde 2013, eles foram campeões mundiais (2015) e olímpicos (2016) e, por dois anos, formaram a melhor dupla do mundo. Desde o início de 2017, porém, não era mais assim. Eles ainda tentaram salvar o casamento, mas não houve jeito. Separados, os dois foram ao mercado.

Considerado o atleta mais habilidoso do vôlei de praia, Bruno é o parceiro que qualquer jogador quer ter. Assim, quando recebeu o convite para retomar a dupla que fez uma grande temporada em 2013, Pedro Solberg não deve ter pensado duas vezes. Aceitou a oferta, se despediu do jovem George, de 21 anos, com quem vinha jogando desde o início do ano, e foi reencontrar o antigo parceiro.

Tido como o melhor bloqueador do mundo, Alison também estava em posição privilegiada. Até porque tem uma carta na manga: o treinador Leandro Brachola, tido como o melhor do país. O Mamute, que desde 2010 só teve dois companheiros (Emanuel e Bruno), foi cirúrgico. Convidou o talentosíssimo André Stein, 23 anos, que também é capixaba, já foi colega de treinos dele e de Bruno Schmidt, e que também conhece muito bem o trabalho de Brachola.

Aí entra mais uma vez a questão das ascendências. André vinha formando uma dupla de muito sucesso com Evandro. O time foi formado só no começo do ano passado, mas levou o título mundial de 2017, o título do Circuito Mundial e do Circuito Brasileiro. No fim de semana, André e Evandro ganharam a etapa de Itapema, em Santa Catarina e tudo parecia correr às mil maravilhas.

Jogar com Alison e ser treinado por Leandro Brachola, porém, é um cavalo selado que não passa duas vezes. André não perdeu a chance, ainda que tivesse que deixar o antigo parceiro chateadíssimo.

Só que também Evandro tem pedigree. Afinal de contas, é o atual campeão mundial, melhor sacador do mundo. Aos 27 anos, está na posição de escolher com quem vai jogar. De acordo com o GloboEsporte.com, ele voltará a atuar ao lado de Vitor Felipe, também de 27 anos, seu parceiro na temporada 2014.

Ou seja: também chega ao fim também a dupla Guto/Vitor Felipe, que foi vice-campeã do Circuito Brasileiro e chegou à semifinal em Itapema, no fim de semana passado. Agora quem fica sem parceiro é Guto, de 24 anos, que, se escolher o caminho mais óbvio, pode acabar abrindo a dupla Álvaro Filho/Saymon, que já viveu dias melhores, convidando Saymion para ser de novo seu parceiro.

Esse efeito cascata, que tende depois a atingir duplas de menor relevância, só deve acabar quando ele se tornar um círculo. Ou seja, quando alguém escolher George, um jovem que, aos 21 anos, parece ainda não estar na posição de escolher, mas de ser escolhido.

Vale até desenhar:

Antes                                            Depois

Alison/Bruno                              Alison/André
Pedro/George                             Pedro/Bruno
Evandro/André                          Evandro/Vitor Felipe
Vitor Felipe/Guto                      Guto/?
Saymon/Álvaro                          ?/George

No feminino, o último troca-troca desse tipo ocorreu depois da Olimpíada e as mudanças de duplas têm sido pontuais, para correção de rumo. Mas tudo pode mudar se Larissa ou Talita voltarem às quadras. Atualmente, Ágatha vem jogando bem com Duda, enquanto Bárbara Seixas forma dupla com Fernanda Berti. Ana Patrícia e Rebecca também vêm fazendo sucesso juntas, assim como Maria Elisa e Carol Solberg, campeãs do Circuito Brasileiro.

As veteranas Maria Clara, Taiana e Juliana é que não têm se firmado. Atualmente, Maria Clara está jogando com Elize Maia e Taiana com Carol Horta. Juliana disputou a última etapa do Circuito Brasileiro com Andressa. Mas qualquer troca envolvendo elas não deve afetar as duplas que hoje estão acima.

Sobre o autor

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Focado na cobertura olímpica, produziu o Giro Olímpico para o UOL e reportagens especiais para a revista IstoÉ 2016. Criador do Olimpílulas, foi colunista da Rádio Estadão e blogueiro do Estadão, pelo qual cobriu os Jogos do Rio-2016.

Está disponível para críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas no demetrio.prado@gmail.com.

Sobre o blog

Um espaço que olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. Aqui tem destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa.