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Presidente da AGLO se diz apunhalado e ataca general: 'covarde'

Demétrio Vecchioli

19/06/2019 16h00

Paulo Márcio Dias Mello, presidente da AGLO

A autarquia federal que administra o legado olímpico tem que ser extinta no próximo dia 30 de junho, conforme determina a lei que a criou, de 2017. Defendendo um instrumento jurídico que a prorrogue até o fim do governo Jair Bolsonaro (PSL), a Secretaria Especial do Esporte mudou radicalmente de postura. Antes elogiosa ao trabalho da Autoridade de Governança do Legado Olímpico (AGLO), passou a acusar o órgão de não ter cumprido seu papel. 

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Não é o que pensa o ainda presidente da entidade, Paulo Márcio Dias Mello. "A AGLO cumpriu completamente a função dela. Se ela for prorrogada é porque deu certo. É esse o caminho coerente. É pelas realizações, não é porque não foi cumprido.  Ela deveria provir a manutenção do legado, ela proveu a manutenção. Deveria prover a ocupação, ela proveu a ocupação. Ela deveria prover a ocupação, ela proveu a ocupação", alega Paulo Márcio.

Na terça-feira (18), a Comissão de Esporte da Câmara dos Deputados promoveu uma audiência pública para discutir o futuro da AGLO. Ele inicialmente foi convidado, mas depois desconvidado. No meio do caminho, recebeu uma ligação do secretário especial do Esporte, general Décio Brasil, o destituindo das suas funções. Até agora, porém, não foi exonerado, continuando o responsável legal pela AGLO e recebendo salário sem trabalhar.

Na audiência, Décio Brasil fez duras críticas à gestão da autarquia nos últimos dois anos. Defendeu que as confederações fossem chamadas para ocupar as arenas e disse que, se a existência da AGLO não for renovada, no dia 30 o governo tem que pegar a chave dos equipamentos e entregar à prefeitura.

Paulo Márcio assistiu a audiência pela internet e ficou irritado. "Eu me senti completamente estarrecido com as inverdades ditas pelo senhor secretário de esporte Décio Brasil. Tem que avançar nos estudos? Então por que não foi feito isso em janeiro? Eles tão lá desde janeiro. Eu ia toda semana a Brasília, era o maravilhoso, entendia de legado… Aí ele (general Brasil) me liga de forma vil, covarde, sem nem ter competência para isso, e me demite. Isso não é atitude de homem. Isso revolta. Sinto que fui apunhalado pelas costas."

O presidente da AGLO defende seu legado. Cita que os programas de inclusão social hoje atendem mil crianças, inclusive de projetos sociais da Secretaria do Esporte, e lembra que as quatro arenas administradas pela AGLO no Parque Olímpico da Barra recebem diversos eventos, desde competições infantis até campeonatos mundiais como de skate e de ciclismo paraolímpico.

O que mais o incomoda é que todas as críticas recaiam sobre sua cabeça. O Centro Olímpico de Tênis, por exemplo, nunca recebeu uma competição de tênis de alto rendimento. "Cabe à Secretaria Especial do Esporte resolver essa situação. Não dá dinheiro para a confederação? Porque não obriga a usar o centro de tênis? Eu abri minhas portas, mas eles não se interessam. Vira e fala: 'Opa, quem te dá dinheiro sou eu, você tem que fazer lá'. Por que o COB tá pagando R$ 200 mil (de aluguel) naquele prédio lindo na Avenida das Américas e não transfere (a sede) para o Parque Olímpico?", questiona. O COB aprovou ano passado uma mudança para o Parque Aquático Maria Lenk, seu centro de treinamento, mas só vai se mudar de fato em 2020.

O comitê olímpico, aliás, foi citado espontaneamente diversas vezes por Paulo Márcio em entrevista de cerca de meia hora ao blog, por telefone. "Sabe quando o COB foi lá dentro? 'Oi, Paulo, você precisa de alguma coisa?' Nunca. Você acha isso normal? Por que então a CBT (Confederação Brasileira de Tênis) não faz os campeonatos de tênis lá dentro? A culpa é minha? Por que o ministério não fala pro COB: 'Olha, tô passando por cima da lei para te deixar receber a Lei Piva sem cumprir 18 e 18-A (da Lei Pelé), então você vai fazer as coisas no Parque Olímpico?' Manda ele (general Brasil) resolver o primeiro o problema do COB, fazer com que cumpra a lei".

De acordo com o ainda presidente da AGLO, se a autarquia não for renovada, todos os direitos passam para o Ministério da Cidadania, herdeiro do Ministério do Esporte. Segundo ele, bastaria ao ministério criar uma secretaria ou diretoria para cuidar do legado, concedido da prefeitura à União por 25 anos.

Na Câmara, Décio Brasil defendeu que a autarquia, que atualmente tem 95 cargos, passe a ter apenas cerca de 38. Paulo Márcio concorda que a AGLO precisa de uma reforma administrativa, mas duvida que esse corte signifique menos despesas para os cofres públicos.

"Conversa fiada. Não adianta reduzir sem critério, sem estudo aprofundado. O legado olímpico vai andar para trás. Aquilo é problema todo dia. Tem que estar todo dia cuidando de problema. Acho sim que precisa de uma reforma administrativa, não vou ser hipócrita, mas estão tirando esses cargos de lá para transferir para o Ministério da Cidadania. Vai ter coronel pra c… lá dentro. Você não tem noção.  As nomeações deveriam ter caráter técnico, mas não vai ser. Eu vi a listinha. É coronel, coronel, coronel, coronel…"

Procurados, o COB a Secretaria do Esporte não quiseram comentar.

Sobre o autor

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Focado na cobertura olímpica, produziu o Giro Olímpico para o UOL e reportagens especiais para a revista IstoÉ 2016. Criador do Olimpílulas, foi colunista da Rádio Estadão e blogueiro do Estadão, pelo qual cobriu os Jogos do Rio-2016.

Está disponível para críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas no demetrio.prado@gmail.com.

Sobre o blog

Um espaço que olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. Aqui tem destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa.

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