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Blog Olhar Olímpico

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Melhor do mundo em 2012, Alexandra volta à seleção aos 37 anos

Demétrio Vecchioli

20/02/2019 04h00

(Crédito: AFP PHOTO / ANDREJ ISAKOVIC)

A derrota para a Holanda nas quartas de final da Rio-2016 parecia o fim da linha para Alexandra. E de certa forma foi. Desde então, a protagonista do crescimento do handebol brasileiro nunca mais vestiu o uniforme da seleção. Não se via disputando mais uma Olimpíada, o que também fazia com que o técnico Jorge Dueñas não a considerasse mais para a equipe.

Mas essa história está perto de uma reviravolta. Na segunda-feira (18), Alexandra foi convocada para uma fase de treinamentos na Europa. No que diz ser o melhor momento da carreira, vai reencontrar algumas das companheiras do título mundial de 2013 e, enfim, conversar tete a tete com o treinador, que ainda não ouviu dela a promessa de que ela topa adiar a aposentadoria para depois de Tóquio-2020.

Em entrevista por telefone, Alexandra, eleita a melhor jogadora do mundo em 2012, fez questão de não dizer com todas as letras que, aos 37 anos, está à disposição para mais uma Olimpíada. Mas o riso gostoso que soltou cada vez que este repórter levantou o assunto é um forte indicativo de que a veterana está de volta.

Como você ficou sabendo da convocação?

Na verdade, a gente começou a conversar por WhatsApp e ele [o técnico Jorge Dueñas] começou a perguntar meus planos para o futuro. A gente foi encaixando algumas coisas. Ele perguntou se eu diria sim se ele me convocasse. Eu disse que sim, e que ficaria muito feliz.

Você ficou de fora do Mundial 2017. Como foi ver da TV?

Foi uma uma dor inexplicável, porque nenhum atleta quer s lesionar. Passei pela pior lesão que eu um atleta pode passar [Alexandra rompeu o ligamento cruzado do joelho no fim de 2016]. Tentei fazer a reabilitação para voltar antes do Mundial, mas o treinador optou por não me levar. Foi bem difícil acompanhar de longe. Sempre acompanhei a seleção, tenho muitas companheiras na seleção ainda. Ficava sempre esperando [convocação]. 'Ai, será? Será? Será?'. Eu sempre estive à disposição, essa é a verdade.

Vocês conversaram sobre essa decisão de não te convocar?

Sempre foi por WhatsApp. O que ele explicou foi que o projeto era de quatro anos. E eu falei que não podia prometer isso para ele. Eu entendo que é um projeto de quatro anos, você prepara a equipe para estar na próxima Olimpíada. E também teve a lesão. Entendo que a seleção tem que passar por renovações. A gente não pode jogar até 60, 70 anos.

Na conversa que vocês tiveram antes dessa convocação, você prometeu ir até Tóquio?

Não prometi nada. Eu não tenho como prometer nada. Tenho contrato até julho. Tem essa fase de treinamento agora, depois outra em julho, o Pan. Agora, eu vou para a seleção, vou ver os projetos, ver onde me encaixo. Estou há bastante tempo fora da seleção. Vai ser diferente para mim, para ele e para as meninas. Tem que estudar tudo com calma. Tô indo para tentar ajudar a seleção. Vamos ver se vai fazer bem para a seleção.

Você falava, nos últimos anos, do sonho de ser mãe. Esse sonho vai ser adiado mais um pouco. Vocês estão tentando engravidar?

Estou muito tranquila. Estou dando tempo ao tempo. Quero ser mãe, mas estou indo tranquila e vou conversar com o treinador e ver como as coisas vão se encaixando. Mas ainda não estou tentando engravidar. 

Você é artilheira do Campeonato Húngaro. Ainda que só tenha contrato até julho, não me parece difícil que vá faltar mercado para você. O que te move a continuar jogando é a seleção? É isso que vai determinar se você continua no handebol ou não? 

Sim. Se eu continuo na seleção eu não posso ficar sem time. 

Mas se não continuar na seleção, não tem porque renovar com o clube…

Isso.

Você sente que está em boa fase?

Nunca estive tão bem, essa é a verdade. O handebol é um esporte que conta muito a experiência. Com 37 anos, quatro Olimpíadas, tanto tempo na Europa… estou sabendo aproveitar isso.

Quantos gols você fez nessa temporada? [Alexandra está no Alba, time médio da Hungria]

Não sei, mas eu sou a artilheira do Campeonato Húngaro. São, acho, 120 gols em 16 partidas. No último jogo foram nove gols. Teve jogo em que fiz 14.

A eliminação na Olimpíada acabou forçando o fim da passagem da boa parte da equipe campeã mundial de 2013 pela seleção. Mas agora você está voltando, a Mayssa (goleira) também está falando em voltar…

Pra falar a verdade, todas as jogadoras que deixaram a seleção, cada um com seu motivo, não queriam que isso tivesse acontecido. Não depende só da gente. A gente é mulher, quer ser mãe, é um ciclo [olímpico] que a gente não sabe se vai conseguir cumprir. O esporte, no geral, não é justo. A decisão é do técnico. Ele está buscando as jogadoras na melhor forma, ver se elas se encaixam.

Como foi ver pela TV o Brasil ter uma campanha tão ruim no Mundial de 2017?

Foi doloroso. Foi de dor mesmo, a sensação. Mas, quando a gente passa a olhar com objetividade, havia muitas peças sendo trocadas. Jogadoras que já estavam na seleção, mas não começavam jogando. Não é fácil. Eu estava na seleção há muitos anos. Quando você passa a assumir responsabilidades, a mochila pesa. Mas o resultado não foi bom, com certeza.

Você viveu o handebol brasileiro que não tinha dinheiro ou espaço. Também viveu o auge, com dinheiro praticamente de sobra para treinamentos, estrutura. Agora a confederação perdeu patrocinadores e a grana está curta. Vocês estão preparadas para passar por dificuldades?

Acredito que sim, porque a gente entende que, assim como no elenco, a modalidade também está passando por uma renovação. A gente está vendo a crise que está passando. A gente não esquece que ama o que a gente faz. Ninguém é obrigado a estar na seleção. Quando é convocado, a gente vai porque a gente quer. Muitas coisas mudaram. Antes, eram vários apoios, agora não tem mais. Temos que estar preparados psicologicamente. Nosso trabalho é estar suportando todas as dificuldades. A gente faz parte desse processo, inclusive para dar visibilidade para a modalidade.

Essa crise financeira, política e de credibilidade é consequência de uma série de denúncias de supostas irregularidades na gestão que hoje está afastada. Você acha que os jogadores demoraram a se posicionar para evitar isso?

O atleta está sempre numa posição complicada. Vocês têm que ver que a maioria das jogadoras atua há muitos anos na Europa. A gente tem contato com a seleção e volta para a Europa. Como nós podemos falar alguma coisa? Quando você aponta o dedo, você tem que ter prova. A gente não tem contato com essas coisas [provas]. Essas coisas foram muito graves, mas nós não podemos provar nada porque a gente não viu nada. A gente quer melhorar o handebol brasileiro. Tanto que a gente não foi cobrar as denúncia. Nosso ponto é: pelo amor de Deus, a gente precisa continuar evoluindo. Com os escândalos, vários patrocinadores deixaram a gente. Quem pagou? Não foi a confederação, fomos nós, atletas.

Sobre o autor

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Focado na cobertura olímpica, produziu o Giro Olímpico para o UOL e reportagens especiais para a revista IstoÉ 2016. Criador do Olimpílulas, foi colunista da Rádio Estadão e blogueiro do Estadão, pelo qual cobriu os Jogos do Rio-2016.

Está disponível para críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas no demetrio.prado@gmail.com.

Sobre o blog

Um espaço que olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. Aqui tem destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa.