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Blog Olhar Olímpico

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Dois anos após brilho no Rio, canoagem perde apoio e tem futuro incerto

Demétrio Vecchioli

10/08/2018 04h00

Isaquias Queiroz, astro da canoagem (Matt York/AP)

Parecia um caminho sem volta. Com três medalhas na Rio-2016, a canoagem virou um dos "carros-chefes" do esporte olímpico brasileiro, fortemente apoiada por uma estatal que demonstrava disposição para criar uma relação de longo prazo com a modalidade. Mas, dois anos depois, o que se vê é um apoio cada vez menor do BNDES à Confederação Brasileira de Canoagem (CBCa) – hoje não há contrato entre o banco de desenvolvimento e a confederação – e um futuro incerto.

O Mundial de Canoagem Slalom é o grande exemplo. Ainda no início de 2015 ficou decidido que a edição de 2018 da competição seria no canal olímpico de Deodoro, construído para a Olimpíada. Mas, faltando 45 dias para o evento, ninguém tem certeza se ele vai mesmo acontecer. O BNDES já avisou que não vai patrociná-lo e o governo federal não dá garantias de que irá firmar um convênio para bancar a competição.

Os números são preocupantes. Em 2016, por exemplo, o BNDES repassou R$ 22,7 milhões à canoagem. Todo o dinheiro foi aplicado via Lei de Incentivo ao Esporte, não apenas na CBCa, mas também na Academia Brasileira de Canoagem (ABraCan), proponente que, diferente da confederação, não tem ou tinha restrições legais para receber recursos públicos.

No ano passado, o BNDES chegou a afirmar ao Olhar Olímpico, em maio, que tinha previsão de apoiar a canoagem com mais R$ 15 milhões. Mas só executou, de fato, pouco mais do que a metade disso: R$ 8,2 milhões. Para 2018, inicialmente o BNDES disse ao blog que "previsão" era de um repasse de R$ 6 milhões – ou seja: um pouco mais de terço do que repassou em 2016. Depois, deixou claro que esse valor corre risco.

"A contratação dos projetos de 2018 está em fase de tramitação interna que engloba análise técnica e aprovação de alçadas decisórias ainda em execução", informou o BNDES, que explicou que o corte se explica por 2018 ser um ano eleitoral. "Por isso o orçamento disponível para verbas de marketing (publicidade, patrocínios) sofre redução", detalhou o banco.

Quem olha a área dedicada à Lei de Incentivo ao Esporte no site do Ministério do Esporte vê que nenhum dos projetos da canoagem recebeu qualquer doação este ano. O que significa que eles não começaram a ser executados. São esses recursos que bancam centros de treinamentos, eventos e participações em competições internacionais. Para 2019 as conversas ainda nem começaram.

Impacto

A CBCa não dá números, mas diz que com a diminuição dos recursos o número de atletas atendidos também foi reduzido. A confederação diz que espera retornar aos patamares de atendimento anteriores "assim que os contratos forem restabelecidos", mas também não tem prazo para tanto.

Enquanto isso, os resultados regridem. Na canoagem slalom, já rolou o Campeonato Mundial Júnior e Sub-23 e o Brasil não conquistou nenhuma medalha em provas olímpicas. Mesmo Ana Sátila, prata nas duas edições anteriores (quando tinha 18 e 20 anos, respectivamente) e bronze no último Mundial adulto, desta vez não foi além de um sexto lugar. No Mundial de Canoagem Velocidade na mesma categoria, ninguém chegou nem perto de disputar finais.

Mundial no Rio

Sem o BNDES, a CBCa não tem recursos para fazer valer o compromisso de realizar o Mundial de Canoagem Slalom no Parque Radical de Deodoro, hoje gerido pela prefeitura do Rio. O banco já deixou claro que não vai participar da organização.

 

A confederação, então, correu pedir socorro ao Ministério do Esporte. A CBCa diz que "está firmando convênio com o Ministério do Esporte na ordem de R$ 1,5 milhão", mas não há, no sistema online de convênios do governo federal, qualquer proposta feita pela confederação. O Mundial está previsto para começar no dia 25 de setembro.

Sem essa formalização da proposta, o Ministério do Esporte não assegura que vai assumir a conta. Diz que "a avaliação e a definição do apoio para o Mundial de Canoagem, no Rio de Janeiro, serão realizados após o cadastramento da proposta no Sistema de Gestão de Convênios e Contratos de Repasse (Siconv)". Ao O Globo, no mês passado, a CBCa disse que o Mundial custaria cerca de R$ 2 milhões.

O convênio poderá ser firmado, diz o ME, apesar de a próprio ministério ter determinado que a CBCa devolvesse cerca de R$ 250 mil de um convênio firmado em 2010. Essa determinação, "sob pena de a entidade ser cadastrada como inadimplente", data de 2014, mas nunca foi cumprida. "A confederação não está inadimplente junto ao ministério e solicitou prorrogação do prazo para execução de dívida, período ainda em vigor", explicou o governo ao blog, sem responder qual seria esse período.

Caso de fato o governo assuma a responsabilidade por bancar o Mundial, seria a primeira vez desde 2013 que isso aconteceria. Nos anos que antecederam a Olimpíada, o Ministério do Esporte solicitou às confederações que não se comprometessem em organizar eventos internacionais no Brasil, para que os recursos fossem concentrados nos treinamentos para a Olimpíada. E deixou claro que quem pleiteasse eventos o fazia por conta e risco.

Passada a Rio-2016, o orçamento para apoio ao esporte de alto-rendimento sofreu uma redução drástica. Internamente, o Ministério do Esporte já informou diversas vezes às confederações que não tem dinheiro. Tanto que elas sequer têm apresentado propostas no Siconv.

Este ano, o único convênio firmado pela secretaria de alto-rendimento do Ministério do Esporte foi para a realização de um torneio de pouca relevância do Circuito Mundial de Vôlei de Praia em uma cidadezinha serrana do Rio. O Olhar Olímpico contou essa história, mostrando que boa parte do dinheiro seria usado para levar areia da praia até a serra.

No ano passado, o então ministro Leonardo Picciani (MDB-RJ) chegou a anunciar que o Ministério do Esporte apoiaria financeiramente a organização do Mundial de Stand-Up Paddle em Búzios. Mas a cidade do litoral do Rio não chegou a apresentar proposta e desistiu do torneio, que não mais será realizado no Brasil.

 

Sobre o autor

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Focado na cobertura olímpica, produziu o Giro Olímpico para o UOL e reportagens especiais para a revista IstoÉ 2016. Criador do Olimpílulas, foi colunista da Rádio Estadão e blogueiro do Estadão, pelo qual cobriu os Jogos do Rio-2016.

Está disponível para críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas no demetrio.prado@gmail.com.

Sobre o blog

Um espaço que olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. Aqui tem destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa.