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Blog Olhar Olímpico

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Governo paga para levar areia a cidade serrana em etapa do vôlei de praia

Demétrio Vecchioli

24/05/2018 04h00

Entorno do Lago do Javary vai receber a etapa em Miguel Pereira (divulgação)

Nos anos anteriores à Olimpíada do Rio, com os cofres cheios, a Secretaria Nacional de Esporte de Alto-Rendimento (SNEAR) financiou a preparação de equipes nacionais e a realização de diversos eventos esportivos internacionais no país. Há dois anos, porém, a fonte secou e os recursos saem a conta-gotas. Em 2018, até agora, só um convênio foi firmado. A partir de quinta-feira, graças a um repasse de R$ 400 mil, a cidade de Miguel Pereira (RJ) receberá uma etapa do Circuito Mundial de Vôlei de Praia.

O curioso é que a Miguel Pereira, cidade de 24,8 mil habitantes, não tem mar. Também não tem praia. Pelo contrário: fica na serra.  Assim, coube ao governo federal se responsabilizar por levar areia da praia do Recreio dos Bandeirantes, na zona Sul do Rio, até a cidade que se gaba de ser uma Estância Climática. O serviço custou R$ 68 mil aos cofres públicos.

Olhar Olímpico perguntou ao Ministério do Esporte qual o interesse estratégico do país em realizar uma etapa de vôlei de praia na serra e não numa cidade praiana. A pasta respondeu ressaltando que sua atuação "não está restrita aos grandes centros e alcança todas as localidades do país" e batendo na tecla de que "não é exclusividade de cidades litorâneas a prática de esportes de praia". Já a prefeitura de Miguel Pereira não respondeu a nenhum dos questionamentos da reportagem.

Leia também: Efeito cascata no vôlei de praia também acaba com dupla campeã mundial

Apesar de um orçamento de apenas R$ 70 mil para o esporte no ano passado (e outros R$ 350 mil para a cultura), Miguel Pereira se comprometeu com a Federação Internacional de Vôlei de Praia (FIVB) antes de sequer apresentar um projeto ao Ministério do Esporte. Quando isso foi feito, já haviam inclusive diversas duplas inscritas para o torneio, que tem como organizador, perante à FIVB, o fotógrafo Paulo Frank, que trabalhou muitos anos cobrindo eventos de vôlei de praia para a Confederação Brasileira de Vôlei (CBV).

O próprio Frank, proprietário da empresa Its Events, ofereceu um orçamento para prestar todos os serviços possíveis necessários para subcontratações, desde montagem de arquibancada até locação de macas para massagem, passando por hospedagem, alimentação, fornecimento de arbitragem e DJ. Ao blog ele disse que sua empresa só fará serviços de fotografia.

Investimento federal

Num momento de vacas magras no ministério e especialmente no Alto-Rendimento, que não firmava nenhum convênio há quase um ano, a verba federal foi liberada à prefeitura. O Olhar Olímpico perguntou ao Ministério do Esporte se o ex-ministro Leonardo Picciani (MDB/RJ) ou o atual, Leandro Cruz, se reuniram com o prefeito de Miguel Pereira, André Português (PR) para tratar sobre o convênio e se algum parlamentar participou do encontro, mas a pasta não respondeu.

Apesar do custo de R$ 400 mil, o evento é muito pouco relevante para o Circuito Mundial, fazendo parte de uma série de torneios de uma estrela (o máximo são cinco). O caderno de encargos para esse tipo de etapa não exige que seja oferecida hospedagem aos atletas e a premiação é mínima, de US$ 10 mil no total. Na ponta do lápis, quando muito só os times locais podem vir a ganhar algum dinheiro nesse tipo de torneio, e só se forem campeões – o prêmio é de US$ 1 mil. Para os demais, a competição só vale pelos pontos para o ranking.

Em Miguel Pereira, graças aos recursos federais, a etapa terá uma estrutura maior do que a exigida pela FIVB, inclusive oferecendo hospedagem. Ali poderia ser realizada uma etapa de nível superior, inclusive, não fosse a questão da premiação, que, para duas estrelas, sobe para US$ 75 mil. O governo federal não pode pagar esse tipo de despesa e o torneio não tem patrocinadores da iniciativa privada.

Apesar da promessa de hospedagem, o torneio não atraiu duplas relevantes no cenário internacional, nem mesmo as brasileiras. Tanto no masculino quanto no feminino, nenhuma das oito principais duplas do país se inscreveram. Os poucos estrangeiros vêm de países sem tradição como Colômbia, Uruguai e Eslovênia.

Na semana passada, Itapema (SC) recebeu a outra etapa brasileira no Circuito Mundial de Vôlei de Praia, essa de quatro estrelas e reunindo as principais duplas do país e do mundo. O evento foi organizado pela CBV, que no caso do evento em Miguel Pereira só ofereceu a chancela.

A entidade já realizou eventos internacionais em cidades distantes do mar, como São Paulo, Barueri (SP), Brasília e Campinas (SP), mas nunca em uma cidade tão pequena. De acordo com a CBV, "a intenção é levar a modalidade para locais diversos, não restringindo o vôlei de praia apenas às cidades litorâneas". A confederação lembra que "o evento uma estrela aparece como alternativa para que atletas brasileiros mais jovens possam participar de etapas internacionais, somando pontos no ranking e evoluindo para que possam disputar torneios maiores futuramente".

Sobre o autor

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Focado na cobertura olímpica, produziu o Giro Olímpico para o UOL e reportagens especiais para a revista IstoÉ 2016. Criador do Olimpílulas, foi colunista da Rádio Estadão e blogueiro do Estadão, pelo qual cobriu os Jogos do Rio-2016.

Está disponível para críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas no demetrio.prado@gmail.com.

Sobre o blog

Um espaço que olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. Aqui tem destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa.