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Atletas são barrados no aeroporto, mas político leva família a torneio no Oriente

Demétrio Vecchioli

18/04/2017 12h00

(Francois Nel/Getty Images)

Vinicius Reis foi um dos campeões da seletiva brasileira para o Abu Dhabi World Championship de Jiu-Jítsu, que prometeu dar viagem com tudo pago para o torneio nos Emirados Árabes Unidos. No domingo à noite, ele foi até o Aeroporto de Guarulhos (SP) para embarcar com o restante da delegação, mas foi deixado para trás, sob a alegação de que o governo árabe não lhe concedeu visto. Isso, porém, não foi problema para a família do secretário de Esporte do Amazonas, Fabrício Lima, que levou a mulher e duas filhas. Também conseguiu levar a assessora de imprensa, que teria sido encaixada no grupo como fisioterapeuta. Até o deputado federal João Derly (Rede-RS), bicampeão mundial de judô, foi envolvido na história.

A viagem para o torneio de Jiu-Jítsu de Abu Dhabi é o primeiro convênio aprovado pelo Ministério do Esporte desde o encerramento dos Jogos Olímpicos do Rio. Nele, a Secretaria de Juventude, Esporte e Lazer do Amazonas (SEJEL-AM) conseguiu a liberação de R$ 1,5 milhão para levar 90 pessoas para a competição, das quais 66 deveriam ser atletas. Na documentação apresentada ao ministério, de fato consta o nome de Vinicius, campeão da categoria até 85kg na faixa-roxa.

A seletiva aconteceu em fevereiro, já com a promessa do Ministério do Esporte de bancar a viagem, mas só na segunda-feira passada a SEJEL-AM começou a procurar os atletas pedindo a documentação para tirar o visto de entrada nos Emirados Árabes. No sábado, uma das duas pessoas registradas como técnicos da seleção, Antônio Carlos Farias, enviou o voucher da passagem São Paulo/Abu Dhabi a Vinicius e, pelo WhatsApp, prometeu entregar o visto ao lutador no aeroporto.

Já em Cumbica, a secretaria avisou que o visto não havia sido aprovado e a delegação embarcou sem Vinicius. O torneio começou na madrugada de hoje.

Ele, porém, não é o único a reclamar. Rodrigo Feijão e os irmãos Erich e Alex Munis também publicaram textos nas redes sociais reclamando que não receberam as passagens. Mel Cueto, lutadora de Santa Maria (RS), chegou a ir ao aeroporto de Porto Alegre, mas a passagem enviada para ela pela secretaria não chegou a tempo. Ao jornal Diário de Santa Maria, disse que vai processar a SEJEL-AM.

Em meio a toda essa confusão, o Olhar Olímpico recebeu a informação de que o secretário Fabrício Lima também teria tentado incluir a mulher, Carolina, na viagem. Questionado, ele confirmou que ela está com ele em Abu Dhabi, assim como duas filhas, mas justificou que as passagens delas serão arcadas por ele. Fabrício afirmou que as passagens custaram em torno de R$ 4.000 – porém o orçamento que ele apresentou para o Ministério do Esporte cotava o trecho São Paulo/Abu Dhabi/São Paulo em mais de R$ 9.000.

Questionado pelo blog sobre o nome completo da sua assessora de imprensa da secretaria – Nathalia Fonseca Silveira -, ele já foi se desculpando pelo fato de ela constar na "relação de recursos humanos envolvidos" enviada ao Ministério do Esporte no setor de fisioterapeutas, junto com Francisco de Assis Batista Coelho, que de fato é fisioterapeuta. Na planilha, assinada pelo secretária, a SEJEL-AM explica que são necessários dois fisioterapeutas por causa da "quantidade de atletas e lutas simultâneas". Segundo Fabrício, houve um erro de digitação. Na sexta, quando questionado sobre quem viajaria com ele no sábado, citou Nathalia como sua assessora, mas não contou a respeito da sua mulher.

Nessa mesma "relação de recursos humanos envolvidos", a SEJEL-AM disse ao Ministério do Esporte que o outro técnico da equipe seria o deputado federal João Derly, ex-judoca, que sequer é mestre de jiu-jítsu. Procurado via assessoria de imprensa na noite de ontem, Derly se surpreendeu com o fato. Disse que foi convidado a viajar "com tudo pago" para Abu Dhabi por Walter Mattos, presidente da Federação Brasileira de Jiu-Jítsu, que foi quem realizou a seletiva. Só não sabia que tudo seria pago pelo governo federal. O deputado declinou do convite e, na noite de ontem, estava no Rio Grande do Sul.

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Sobre o autor

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Focado na cobertura olímpica, produziu o Giro Olímpico para o UOL e reportagens especiais para a revista IstoÉ 2016. Criador do Olimpílulas, foi colunista da Rádio Estadão e blogueiro do Estadão, pelo qual cobriu os Jogos do Rio-2016.

Está disponível para críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas no demetrio.prado@gmail.com.

Sobre o blog

Um espaço que olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. Aqui tem destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa.


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