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Olhar Olímpico

COB desiste de dar prêmio de melhor do ano a sargento suspensa por doping

Demétrio Vecchioli

20/11/2019 04h00

Daniela Lionço (à direita) foi pega no doping. Na foto, ela está com sua parceira Wellyda Rodrigues (divulgação/Ministério da Defesa)

Como já virou costume, o ciclismo brasileiro foi atingido por mais um caso de doping. Desta vez de uma das duas atletas eleitas, como dupla, como o destaque do Brasil no ciclismo de pista no Prêmio Brasil Olímpico. Daniela Lionço testou positivo para EPO, um hormônio sintético, em teste feito fora do período de competição. À época do exame, no final de setembro, a ciclista da ABEC Rio Claro estava treinando para os Jogos Mundiais Militares, onde foi nona colocada na prova de estrada. Ela é 3º Sargento na Força Aérea Brasileira.

Com Wellyda Rodrigues, Daniela ganhou a medalha de bronze no Madison no Campeonato Pan-Americano deste ano, disputado na Bolívia. Era nelas que a Confederação Brasileira de Ciclismo (CBC) depositava todas as poucas chances de classificação da modalidade para os Jogos Olímpicos de Tóquio.

O EPO é um hormônio sintético que estimula a medula óssea a elevar a produção de células vermelhas do sangue. Ele entra no corpo por meio de transfusão de sangue, de forma que não é algo que se compra na farmácia. Há anos um dos grandes desafios do ciclismo é identificar atletas que fazem proveito do EPO fora do período de competição. Quando o ciclo é bem administrado, o doping faz efeito na competição, mas não é notado nos exames.

No Brasil, especialmente no ciclismo, o EPO é uma praga. Na nova atualização de atletas suspensos pela Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (ABCD) aparece outro novo caso de doping por EPO no ciclismo, de Henrique Schoenardie, do mountain bike, flagrado no evento primeiro dia do evento Tree Bike Race. Ele já nem apareceu para competir no dia seguinte.

Não é só o doping, mas também o medo do doping que trava o ciclismo brasileiro. A convocação para o Pan-Americano deixou de fora Kacio Freitas, bronze nos Jogos Pan-Americanos, também flagrado em exame antidoping, e a CBC optou por levar uma equipe pequena, temendo novos casos. Melhor brasileiro no ranking do Onmium, Joel Cândido Prado não foi convocado e chegou a recorrer à Justiça Desportiva, onde não obteve sucesso. Ele é marido de Daniela Lionço, agora pega no doping.

Como o doping de Kacio tirou do Brasil a medalha na prova de velocidade do Pan, o COB nem deu a opção de o trio formado por ele, João Victor e Flávio Cipriano, serem votados no Prêmio Brasil Olímpico – cada eleitor, como este repórter, recebe três opções de voto. O prêmio de melhor do ano no ciclismo de pista caiu então no colo de Daniela e Wellyda, que receberiam o troféu no próximo dia 10 de dezembro, no Rio. Depois que a suspensão se tornou pública, ontem (19), o COB informou que Daniela não será premiada e que a substituição será estudada internamente.

O caso é mais um em um longo histórico de doping no ciclismo brasileiro. Só no segundo semestre esse é o quarto caso importante, depois de Kacio, de Clemilda Fernandes e Rubinho Valeriano, recordistas de participações em Jogos Olímpicos no ciclismo de estrada e no mountain bike, respectivamente. Antes dos Jogos Mundiais Militares de 2015, também em exame surpresa, Uênia Fernandes, também foi flagrada no doping por EPO. Ela é prima de Clemilda.

Sobre o autor

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Focado na cobertura olímpica, produziu o Giro Olímpico para o UOL e reportagens especiais para a revista IstoÉ 2016. Criador do Olimpílulas, foi colunista da Rádio Estadão e blogueiro do Estadão, pelo qual cobriu os Jogos do Rio-2016.

Está disponível para críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas no demetrio.prado@gmail.com.

Sobre o blog

Um espaço que olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. Aqui tem destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa.