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Suspensão de treinador liga Nike a suposto esquema de dopagem

Demétrio Vecchioli

02/10/2019 04h00

Desde que foi fundada, em 1964, a Nike tem relação umbilical com o atletismo. É dentro da sede da empresa que fica o principal programa de incentivo ao atletismo nos Estados Unidos e, graças ao dinheiro da Nike, é na cidade dela que vai acontecer o próximo Mundial da modalidade, em 2021. Agora, é um escândalo de doping que liga a gigante norte-americana ao pior que existe no atletismo: o doping.

Nesta terça-feira (1), a agência antidoping dos EUA, conhecida pela sigla USADA, anunciou a mais midiática punição aplicada por ela desde a histórica suspensão do ciclista Lance Armstrong. Após profundas investigações, a USADA entendeu que o treinador Alberto Salazar, cubano naturalizado norte-americano, comandou um esquema que visava burlar o controle antidoping dentro do Nike Oregon Project. E o suspendeu por quatro anos.

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Salazar não é um treinador qualquer. Antigo maratonista, ele é amigo pessoal de um dos co-fundadores da Nike, Phil Knight, que também foi aluno do programa de atletismo da Universidade de Oregon. A ponto de um dos prédios da sede da Nike ter o nome de Alberto Salazar. Seus feitos como treinador vão desde o fenômeno Mo Farah, que ganhou tudo pela Grã-Bretanha e pulou fora do barco quando o nome do técnico começou a ser associado a doping, passando pela etíope naturalizada holandesa Sifan Hassan, que no sábado (28) ganhou os 10.000m no Mundial de Doha e que tem tudo para levar os 1.500m e os 5.000m, suas especialidades.

Importante ressaltar que nenhum dos atletas de Salazar nunca teve resultado positivo para substâncias dopantes, assim como Armstrong, que foi banido do ciclismo por toda a vida e depois admitiu que se dopava.  

Salazar estava no Qatar quando foi anunciada a suspensão e logo teve retirada sua credencial do Mundial. A Nike não demorou para sair em defesa de Salazar. "Apoiamos Alberto em sua decisão de apelar e desejamos a ele toda a medida do devido processo legal exigido pelas regras", disse a empresa, em comunicado, reforçando que "não tolera o uso de substâncias proibidas de nenhuma maneira" e fazendo uma livre interpretação da punição para afirmar que "eles (membros do painel) ficaram impressionados com o alto cuidado que Alberto tomou para garantir que estava cumprindo o Código Mundial Antidopagem".

E-mails que embasaram a suspensão imposta pela USADA, porém, indicam que a preocupação de Salazar não era cumprir o código, mas não ser pego. Nas mensagens fica claro que o CEO da Nike, Mark Parker, tinha conhecimento dos testes que Salazar fazia para que seus atletas pudessem utilizar testosterona, substância que melhora o desempenho atlético, sem que fossem flagrados em exames antidoping.

Jeffrey Brown, que trabalhou como consultor endocrinologista pago pelo projeto da Nike e que serviu como médico para vários atletas no programa de treinamento da empresa, também recebeu uma proibição de quatro anos. Juntos, Brown e Salazar teriam "orquestrado e facilitado a conduta proibida de doping", realizando experimentos para descobrir se um creme de testosterona provocaria resultado positivo em exame.

Os relatórios citados pela USADA indicam que ao menos um desses experimentos foi realizado dentro de um laboratório na sede da Nike. E o CEO sabia disso, uma vez que era incluído em trocas de e-mail entre médico e treinador. Na decisão da USADA, que tem 140 páginas, Parker é citado em 12 oportunidades contra seis de Mo Farah, principal atleta treinado por Salazar à época dos fatos. 

Em uma troca de e-mail em julho de 2009, Brown informou ao CEO da Nike que realizou testes nos filhos de Salazar, que não são atletas profissionais. O CEO da Nike respondeu: "Jeff, obrigado pela atualização dos testes. Será interessante determinar a quantidade mínima de testosterona necessária para um teste dar positivo. Existem outros hormônios tópicos que criariam resultados mais dramáticos ou outras substâncias que acelerariam a taxa de absorção no corpo?".

A denúncia não é exatamente nova. A novidade, que vem associada à suspensão imposta pela USADA, é o fato de a Nike ter conhecimento das estratégias usadas por Salazar, que desde 2015 é acusado com evidências robustas de que ministrava doping a seus atletas.

Em 2015, reportagem da ProPublica, veículo de imprensa americano, e um documentário da prestigiada emissora inglesa BBC, ouviram pessoas que trabalharam com o treinador, incluindo Steve Magness, ex-assistente do cubano. O mundo do atletismo não fala de outra coisa desde então.

De acordo com as reportagens, o primeiro erro de Salazar ocorreu em 2002 e envolveu o hoje medalhista olímpico americano Galen Rupp. O atleta estava com 16 anos quando teria usado testosterona cedida pelo treinador cubano. A matéria também fala que os corredores eram submetidos a sucessivos testes até conseguirem laudos comprovando asma ou insuficiência de tireoide. O passo seguinte era obter liberação para ingerir medicamentos contra estes problemas de saúde.

Não existe certeza que as substâncias melhoram a performance, mas o treinador insistia na autorização afirmavam as reportagens. Já naquela ocasião foi denunciado que o próprio filho de Salazar, chamado Alex, foi usado como cobaia para medir como o organismo se comporta ao uso de drogas proibidas. A intenção seria calcular a quantidade que pode ser usada e não ser pego no doping.

 

Sobre o autor

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Focado na cobertura olímpica, produziu o Giro Olímpico para o UOL e reportagens especiais para a revista IstoÉ 2016. Criador do Olimpílulas, foi colunista da Rádio Estadão e blogueiro do Estadão, pelo qual cobriu os Jogos do Rio-2016.

Está disponível para críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas no demetrio.prado@gmail.com.

Sobre o blog

Um espaço que olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. Aqui tem destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa.

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