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Blog Olhar Olímpico

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Como contrato sem DAZN no basquete azedou relação entre Flamengo e Botafogo

Demétrio Vecchioli

12/09/2019 04h00

Flamengo e Botafogo jogam pelo Carioca de Basquete (Marcelo Cortes/Flamengo)

A ideia parecia ótima: o marginalizado Campeonato Carioca de Basquete transmitido pelo DAZN, serviço de streaming esportivo que é a nova coqueluche do esporte brasileiro. Seria a oportunidade perfeita para Flamengo e Botafogo justificarem o investimento dos patrocinadores durante a pré-temporada do NBB e, de quebra, alavancarem o basquete do Rio, que perdeu os times profissionais de Vasco e Macaé.

Mas o modelo de negócio acabou por azedar as relações entre Flamengo e Botafogo, incomodou o DAZN a ponto de o negócio ser abortado e deixou o campeonato no escuro. O torcedor, que recebeu a promessa de assistir o torneio se assinasse o streaming, ficou sabendo minutos antes do clássico da última sexta-feira (6) que o acordo tinha ido para o vinagre.

Anunciado na quarta-feira (4) por release enviado à imprensa, o acordo havia chegado um dia antes às mãos do Botafogo. Com um detalhe que incomodou a cúpula alvinegra: o DAZN em nenhum momento era citado no contrato. Pelo documento, o clube de General Severiano deveria ceder os seus direitos de imagem no torneio ao Flamengo, sem receber dinheiro em troca. A contrapartida é que o Botafogo não precisaria mais pagar as taxas de arbitragem.

"Não ficava nem claro no contrato que recebemos que é o DAZN, quem seria o responsável pela transmissão, como seria feita a transmissão do evento. Corria o risco de ter um jogo dentro do meu ginásio com uma transmissão totalmente voltada para o Flamengo", reclama Gláucio Cruz, diretor geral de Esportes do Botafogo.

"Eu não sei quanto que tem de dinheiro envolvido. Se tem, se não tem. Eu entendo o interesse em exibir o campeonato, mas eu também não posso aceitar qualquer situação no momento em que não fica muito claro as coisas. Se o Flamengo chegasse e falasse: a gente já tem um contrato com a DAZN, é assim, assim, a gente poderia até analisar", continua.

 

Procurado, o Flamengo só aceitou responder perguntas por e-mail. O clube rubro-negro confirmou que partiu dele a iniciativa de procurar o DAZN e que propôs que o Botafogo cedesse seus direitos de imagem. O Fla não diz publicamente quanto receberia do serviço de streaming, mas assegura que mostrou esses números ao Botafogo.

"Não abrimos para a imprensa valores de contrato, pois temos cláusulas de confidencialidade. No entanto, a planilha chegou a ser aberta para total transparência do projeto. O objetivo do projeto não era obter lucro financeiro, mas dar visibilidade a um campeonato com pouca estrutura e quase nenhum retorno de mídia. A negociação originada do Flamengo para DAZN visava beneficiar Federação e clubes envolvidos, numa tentativa de melhorar a imagem de uma competição com apenas três clubes e eliminar custos através de uma transmissão em formato inédito para o Estadual", disse o clube, por e-mail.

 O Botafogo confirma que viu os números apresentados pelo Flamengo, mas avalia que perdeu a confiança no rival e, por isso, não poderia levar a negociação adiante naqueles termos. "Por mais que todo mundo tenha feito com a melhor das intenções, eles erraram em não botar todo mundo na mesa para negociar. A negociação já havia sido feita. O Botafogo tem interesse total, tem interesse que os jogos sejam transmitidos, mas a gente tem que sentar para conversar", aponta Gláucio Cruz.

Segundo ele, em nenhum momento houve contato entre Botafogo e DAZN, exceto nos minutos que antecederam o jogo de sexta-feira, que o serviço anunciou que transmitiria. O DAZN chegou a procurar a cúpula alvinegra para tentar um acordo de última hora, que não saiu.

Ainda de acordo com o dirigente botafoguense, o Flamengo chegou a oferecer que o Botafogo fizesse a alteração que quisesse no contrato. "Eu então falei: 'Onde tá escrito Flamengo escreve Botafogo. E onde tá Botafogo coloca Flamengo'. Inverte a ordem. Eles não toparam". O Flamengo disse, por e-mail, desconhecer essa proposta.

O DAZN foi procurado pela reportagem duas vezes desde o último sábado, mas não respondeu os contatos. Na sexta o serviço de streaming disse apenas que não aconteceria a transmissão "pois os clubes e a federação não chegaram a um acordo quanto à liberação dos direitos de transmissão da partida". Botafogo e Flamengo dão as negociações como encerradas.

Com apenas três times, o Estadual tem a previsão de até nove jogos – podem ser oito se a decisão terminar na segunda partida da série. Flamengo, Botafogo e Niterói jogam em turno e returno e os dois primeiros avançam à final. O primeiro turno já acabou com vitórias de Flamengo e Botafogo sobre o Niterói e do alvinego sobre o rubro-negro.

O segundo turno começou com vitória do Botafogo sobre o Niterói e continua hoje com Flamengo x Niterói. O clássico que fecha a primeira fase está programado para a próxima sexta, no ginásio do Tijuca. As finais, ao que tudo indica entre os dois rivais, estão programadas para os dias 1, 3 e 4 de outubro.

 

Sobre o autor

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Focado na cobertura olímpica, produziu o Giro Olímpico para o UOL e reportagens especiais para a revista IstoÉ 2016. Criador do Olimpílulas, foi colunista da Rádio Estadão e blogueiro do Estadão, pelo qual cobriu os Jogos do Rio-2016.

Está disponível para críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas no demetrio.prado@gmail.com.

Sobre o blog

Um espaço que olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. Aqui tem destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa.