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Talisca Reis, a última musa

Demétrio Vecchioli

12/07/2019 04h00

Talisca Reis (Fausto Roim/Divulgação)

Com início oficial daqui a três semanas, os Jogos Pan-Americanos de Lima tendem a ser um marco para o esporte brasileiro, não só pelos resultados. Talisca Reis, Ingrid Oliveira, Amanda Simeão e tantas outras brasileiras vão disputar suas competições, ganhar ou perder, e ter suas históricas contadas pelos principais órgãos de imprensa sem que seus atributos físicos sejam destacados. O Pan de Lima tende a ser o primeiro sem uma "musa".

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O movimento é recente no Brasil – e parece ainda não ter chegado a tantos outros países da América Latina, infelizmente. A cobertura do último Pan, de Toronto, em 2015, foi marcada por uma "musa": Ingrid Oliveira. Então desconhecida, a saltadora postou uma foto no Instagram com seu uniforme de treino (um maiô, naturalmente) e um grande portal a apresentou como "a musa do Pan". Outros veículos surfaram na onda, inclusive o UOL.

Ingrid não escolheu ser musa, foi pega de surpresa com a novidade, e sofreu na pele com a objetificação, como contou também neste UOL Esporte. Como ela, outras atletas querem se desprender de vez do rótulo colocado sobre o corpo delas pela imprensa ou por empresários. É o caso de Talisca Reis.

Musa do taekwondo

Natural do Rondônia e morando hoje em Rio Claro (SP), Talisca já tinha uma medalha em Campeonato Pan-Americano e caminhava para disputar seu primeiro Mundial em 2014. Como tantos atletas que hoje estão nesse estágio de carreira, era uma completa desconhecida para o público que não acompanha o dia a dia da taekwondo. Foi quando um assessor de imprensa teve a ideia:

"Ele propôs de eu fazer algumas fotos um pouco sensuais. Umas fotos com dobok (uniforme de luta), mas algumas fora do padrão, de shorts, biquíni, mas nada que mostrasse alguma coisa. E aí ele colocou esse rótulo de musa para ver se conseguisse algum apoio. De 2012 para 2013 eu precisava de apoio que até fiz a vaquinha online. Para fazer as fotos eu até empolguei, mas quando quando começou a expandir eu não queria minha imagem associada a isso", conta Talisca. Mas aí já era tarde.

O assessor, que trabalhou com Talisca até 2015, apostou em uma fórmula então consagrada no meio das sub-celebridades. Uma mulher considerada bonita faz fotos "sensuais", ganha um rótulo ("musa do taekwondo") e passa a ter seus movimentos divulgados por uma assessoria. A imprensa, interessada nos cliques que uma série de novidades sobre a "musa" podem render, compra a ideia sem questionar.

Foi assim que Talisca, então uma lutadora de futuro, virou, por autoproclamação, a musa do taekwondo. Por dois anos, a imprensa esportiva recebeu releases contando as últimas novidades esportivas da rondoniense. Diversos lutadores disputavam um torneio internacional, mas era a "musa" que aparecia no título da notícia, ganhando ou perdendo.

E isso passou a incomodá-la. "No início meu assessor falou: fica tranquila, é só o começo, logo eles falam dos resultados e esquecem. Mas nunca esqueceram. Aí eu via reportagem: 'musa Talisca' e falava: 'nossa, que merda!". No meio do taekwondo também teve isso. Fizeram uma lista das 10 mais belas do mundo. No Brasil fizeram um concurso da musa do taekwondo e colocaram a minha foto em destaque", lembra.

Talisca diz que não se arrepende da postura adotada há mais de seis anos, que a permitiu arrecadar dinheiro para competir e subir no ranking mundial. Mas não quer continuar a ser tratada assim. "Não é aquela coisa que eu me orgulho. Não é algo que eu gosto. E futuramente? Vou ser musa eterna? Não foi contra minha vontade, aceitei como ele (assessor) me expôs na mídia, mas não é algo que eu gostei."

Em 2016, às vésperas da Olimpíada do Rio, quando foi reserva da seleção brasileira, Talisca chegou a receber um convite da revista Playboy para um ensaio sensual. Assim como a esgrimista Amanda Simeão, recusou. "Eu tinha feito fotos sensuais, mas não seminua. Sempre com coisa por baixo. Quando recebi o convite percebi que não queria chegar àquele ponto."

Não foi só para Talisca que a Olimpíada do Rio significou uma ruptura. O UOL Esporte, que em 2014 chegou a publicar um álbum com as fotos sensuais da lutadora de taekwondo, se afastou de reportagens e álbuns de "musas" (e "musos") entre 2015 e 2016, abandonando-os completamente depois da publicação do especial Quero Treinar em Paz, em julho de 2016. Nele, ouviu 21 atletas, ex-atletas e técnicas de ponta do esporte nacional para mapear as barreiras impostas pelo machismo no esporte brasileiro.

 

Sobre o autor

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Focado na cobertura olímpica, produziu o Giro Olímpico para o UOL e reportagens especiais para a revista IstoÉ 2016. Criador do Olimpílulas, foi colunista da Rádio Estadão e blogueiro do Estadão, pelo qual cobriu os Jogos do Rio-2016.

Está disponível para críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas no demetrio.prado@gmail.com.

Sobre o blog

Um espaço que olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. Aqui tem destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa.