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Tiro esportivo leva ao Pan jovem de 17 anos que atira desde os 9

Demétrio Vecchioli

2025-06-20T19:04:00

25/06/2019 04h00

Geovana Meyer (arquivo pessoal)

No momento em que se discute o afrouxamento nas regras para posse e porte de armas por aqui, o Brasil vai levar aos Jogos Pan-Americanos de Lima, no Peru, uma atiradora que pega em armas desde criança. Geovana Meyer ainda é menor de idade, tem só 17 anos, e vai fazer sua estreia em uma competição desse porte no Peru. Em caso de ouro, ela se classifica para os Jogos Olímpicos de Tóquio.

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Promessa da carabina de ar, Geovana vem de uma família de atiradores. "Meus avós atiravam, meus pais também. Para mim, atirar é uma coisa de família. Eu atiro desde os 9 anos e, quando eu tinha 14, uma amiga e o pai dela me chamaram para treinar no tiro esportivo", conta a garota.

Quando criança, Geovana atirava em uma modalidade que não é abrigada pela Confederação Brasileira de Tiro Esportivo (CBTE), que cuida do tiro "olímpico" no país. Ela, assim como os pais, praticavam o tiro seta, que praticamente só existe na comunidade de origem alemã de Santa Catarina. A carabina, também de ar comprimido, é parecida com a utilizada no esporte olímpico, mas o que sai dela é um dardo, mais fino.

A similaridade entre as duas modalidades permitiu a Geovana uma mudança relativamente fácil para o tiro esportivo tradicional. A barreira, financeira, foi superada com a ajuda da amiga, que emprestou seu próprio equipamento – só a roupa apropriada custa cerca de R$ 8 mil. O mesmo valor foi recentemente investido pela família da atiradora em um equipamento que permite a ela treinar no corredor de casa, sem chumbinho.

Esse é um dos fatores que faz com que poucas meninas atirem no Brasil. No Campeonato Brasileiro do ano passado, só três atletas participaram do júnior feminino em alguma das três provas de carabina (10 metros, deitada e três posições). Geovana era uma delas.

"São poucos os novos atiradores que começam. Mesmo os que começam, desistem. É um esporte caro, não é barato. Tudo que envolve arma custa caro. Nem todo mundo tem esse recurso ou a possibilidade de quem te empreste, como eu tive", diz.

Exército

Ela chegou à seleção no ano passado, quando esteve nos Jogos Sul-Americanos e terminou em oitavo lugar na carabina feminina. No Campeonato das Américas, ela não foi bem, ficando em 21º. As duas competições valiam vaga olímpica para os campeões.

As coisas podem melhorar quando ela puder entrar para o Exército, algo que só pode ocorrer depois dos 18 anos. As Forças Armadas precisam, também, abrir novo edital, que costuma ser direcionado para quem já está na seleção. Geovana espera isso para poder começar a treinar com arma de fogo.

As normas vigentes antes do decreto do presidente Jair Bolsonaro exigiam autorização judicial para que menores de idade treinassem com armas de fogo, mas essa regra não vale para as carabinas de ar, segundo Geovana. "É uma arma que já é permitida há muito tempo, então não precisou de autorização para treinar. A autorização que eu tenho é para poder viajar sozinha com a minha arma", conta. Essa autorização, por sua vez, a permite tirar a guia de tráfego.

Questionada sobre a polêmica em torno do decreto, Geovana preferiu não responder. Mas ressaltou que sabe da responsabilidade que tem como atiradora. "Quem está nesse meio do tiro com certeza tem noção do que é, dos perigos que tu corre, dos perigos que você pode proporcionar para outra pessoa. Essa consciência é muito importante, porque muitas pessoas querem ter arma mas não têm a noção do quanto perigoso é."

Sobre o autor

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Focado na cobertura olímpica, produziu o Giro Olímpico para o UOL e reportagens especiais para a revista IstoÉ 2016. Criador do Olimpílulas, foi colunista da Rádio Estadão e blogueiro do Estadão, pelo qual cobriu os Jogos do Rio-2016.

Está disponível para críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas no demetrio.prado@gmail.com.

Sobre o blog

Um espaço que olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. Aqui tem destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa.