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Olhar Olímpico

Aurélio Miguel revela infarto e admite reputação "assassinada"

Demétrio Vecchioli

06/06/2019 04h00

Aurélio em 2013, falando na Câmara sobre a quebra em seu sigilo bancário (Crédito: Marcelo D. Sants/Futura Press)

Medalha de ouro do judô nos Jogos Olímpicos de Seul, em 1988, Aurélio Miguel teve atuação decisiva para derrubar a dinastia Mamede da comando da Confederação Brasileira de Judô (CBJ), em 2001, abrindo caminho para a ascensão de Paulo Wanderley, hoje presidente do COB. Era o início de uma história política que só chegou ao fim em 2016, quando o ídolo do esporte decidiu não concorrer ao quarto mandato de vereador na cidade de São Paulo.

Em 12 anos na Câmara, colecionou inimigos e acusações. Em 2013, teve seus sigilos bancário e fiscal quebrados pela Justiça, quando era investigado por suposta cobrança de propina para fazer vistas grossas, na condição de presidente de uma CPI, sobre a irregularidades na construção de seis shoppings da capital paulista. Naquele mesmo ano, teve seu nome envolvido como beneficiário de um esquema que desviava ISS (Imposto Sobre Serviços) em São Paulo.

Mesmo no esporte sua atuação foi polêmica. Em 2015, este repórter, então no Estadão, mostrou que uma rede de entidades ligadas ao chefe de gabinete de Aurélio recebia um volume alto de repasses das secretarias estadual e municipal de esportes de São Paulo para organizar eventos que muitas vezes não saíam do papel.

Fragilizado politicamente, Aurélio não concorreu à reeleição em 2016 e se afastou da política eleitoral, mantendo apenas o cargo de presidente de Federação Paulista Universitária (FUPE). Desde então, não falava com a imprensa. Ao Olhar Olímpico, rebateu as acusações, falou sobre seu reconhecimento entre os judocas, e revelou que chegou a sofrer um infarto.

Aurélio conquista a medalha de bronze nos Jogos Olímpicos de Atlanta-1996 (Crédito: Arquivo/Folhapress)

Olhar Olímpico: Por que o senhor saiu da política?

Aurélio Miguel: Eu não saí candidato [em 2016] porque, primeiro, eu dei uma contribuição grande e estava um pouco cansado. Eu tive problema de saúde por conta da política; eu infartei em 2014. Então vi que sou o tipo de pessoa que quando começa a fazer alguma coisa, eu me empenho. Não tinha horário para chegar em casa. Então comprometi toda a minha família, acabei não vendo meus filhos crescerem, fiquei um pouco afastado. E depois houve uma denúncia contra a minha pessoa.

Como foi o infarto?

Estava em atividade em um galpão industrial meu e senti mal estar. O meu batimento cardíaco estava muito baixo e sabia que tinha algo errado. Fui para a emergência, me examinaram e viram que eu estava infartando.

As denúncias tiveram a ver com o infarto?

Quando vi que me colocaram como sócio do Aref (Hussain Aref Saab, ex-diretor da prefeitura acusado de liberar obras irregulares em troca de propina) e a Folha de S. Paulo ainda foi e quis fotografar todos os meus patrimônios. Todos os meus patrimônios são de origem. Houve maldade na informação, fui muito questionado, apontaram o dedo. Lógico que mexeu comigo. Tinha vergonha de sair na rua. Hoje não, mas na época fui entendendo que aquilo era da política.

Como o senhor rebate as acusações feitas pelo Ministério Público?

É um engodo, uma vergonha. Já saíram decisões e eu vou fazer uma [entrevista] coletiva na hora certa. Contestaram em relação até ao meu patrimônio e o da minha esposa, que sempre foi superintendente do banco com bom salário. Sempre tive os meus negócios. A denúncia foi arquivada porque depois de sete anos me investigando viram que tudo que tenho é condizente com o patrimônio e negócios que sempre tive.

Eu não dependo da política e nunca dependi. Eu não queria fazer o que todos os políticos fazem. São denunciados, muitas vezes politicamente, o que foi meu caso, porque eu estava pegando algo muito grande… Foi justamente no dia em que eu estava na Secretaria da Habitação pedindo vistas de vários processos que parecem que era uma coisa muito grande. Eu nem sei a dimensão do que seria. E coincidentemente, naquele dia, surgiu uma denúncia contra a minha pessoa. Uma denúncia de 'ouviu dizer'. O Ministério Público inclusive abriu mão dessa testemunha de acusação e não recorreu.

(Crédito: Luiz Carlos Murauskas/ Folhapress)

O senhor sente que agora tem a ficha limpa?

Sempre tive a ficha limpa. Eu fui denunciado. Eu tinha certeza que na Justiça eu ia mostrar o absurdo da denúncia. Inclusive sempre disse que minha defesa estava no Ministério Público. Eu estou fazendo uma coisa muito bem pensada. Eu acho que o Ministério Público é importantíssimo, senão eu não teria feito mais de 70 denúncias, representações minhas contra o município, contra o Kassab, falei do Itaquerão, dos monotrilhos, da Água Espraiada…

Com quem o senhor acha que mexeu?

Eu só sei que mexi com gente poderosa. O que a Folha de S. Paulo fez, de forma unilateral, colocando eu de sócio do Aref todo dia em manchete, eles agora vão ter que reparar isso. Eu denunciei o Aref no Ministério Público. É uma coisa muito pesada. Eu não estava acostumado com isso porque nunca fui homem da política. Eu sempre tive retidão, sempre fui tranquilo, sempre defendi os meus pontos de vista, por isso brigava muito.

Alguém deve ter dito "mexe na moral dele que você derruba ele". E realmente mexeram com a minha pessoa. Inclusive fui na Folha de S. Paulo na época e falei que estavam escutando uma pessoa que  eu desconhecia, que tem que tomar muito cuidado porque tinha trabalho com crianças e tenho até hoje.

E senhor sente que foi derrubado?

Isso mexe com a gente. Até hoje tenho que escutar várias coisas. Sou enquadrado por conta de algo que não aconteceu. Então por que vou ficar na política? Eu dei a minha contribuição e achei que podia ser maior e melhor. Mas aí você vê que ao mudar governo, muda secretário, muda tudo… Eu não tenho estômago pra isso, eu gosto de construir algo.

Hoje o senhor continua se defendendo?

Não tem mais nada. Tem o [processo] criminal que eu fui inocentado. Também fui inocentado da lavagem de dinheiro e enriquecimento ilícito. Foram sete anos me investigando. Minha vida é limpa e sempre foi. É muito triste porque tudo isso mexe com a gente, sempre fui orgulhoso. Meu pai estava vivo quando surgiu a denúncia. Para a nossa família é uma vergonha. Assassinam a reputação de uma pessoa e quem repara isso?

Sua reputação foi assassinada?

Minha reputação foi comprometida. Quando você entra em suspensão, denúncia… Principalmente a imprensa, como a Folha de S. Paulo, que foi leviana. Fizemos carta direcionada ao Ombudsman para que tomasse uma postura. Eu fiquei muito frustrado com várias coisas e foi uma das situações que fez com que eu saísse da política, porque eu não preciso e nem vivo disso. Tenho vergonha na cara. Acho que a partir do momento que tem uma denúncia, eu não poderia [continuar na política]. Nem pela minha formação. Nós que somos do judô, que prega respeito, hierarquia, dignidade, disciplina, não poderíamos postular qualquer coisa sendo suspeitos de alguma coisa.

O senhor pretende voltar à política?

Não tenho vontade em voltar a ser candidato agora, mas não sei se volto algum dia porque acredito que só se transforma um país através da política. Então não adianta reclamar sem participar, ficar alienado do processo político e não cobrar dos seus candidatos.

O senhor chegou à política para atuar no esporte. Esses anos todos como vereador compensaram para o esporte?

Não somente para o esporte, mas também para a cidade de São Paulo. O esporte tinha um orçamento de R$30 milhões e quando saí tinha um orçamento de R$800 milhões. Eu contribuí convencendo os parlamentares e os Executivos sobre a importância do esporte, fazer programas pra tentar universalizar o esporte. A CPI que presidi trouxe para a cidade pouco mais de R$ 1 bilhão por ano. Incomodei muita gente. Trouxe arrecadação para cidade, o esporte ajudava. O que eu recebia de emenda eu mandava pro esporte e para a região do Butantã. Fiz a ciclovia da Eliseu de Almeida até o Morumbi.

O senhor destinou muitas emendas para o esporte. Não só o senhor, mas também outros vereadores e deputados estaduais, todos beneficiando um mesmo grupo de entidades, muitas delas ligadas ao seu então funcionário de gabinete Mauzler Paulinetti, vice-presidente da FUPE. Inclusive eu mostrei isso em reportagem para o Estadão, em 2015. As atléticas do Mackenzie, que levaram o senhor à presidência da FUPE, por exemplo, receberam R$ 2,3 milhões para eventos como um jogo entre uma atlética e outra…

Isso também me magoou muito. Eu me surpreendi quando vi aquilo. Outros vereadores também destinaram emendas, e você me colocou como ligado de uma série de entidades que eu não tinha nada a ver, como ligado ao Campos Machado (deputado estadual do PTB). Além disso, a eleição da FUPE teve o apoio de diversas outras atléticas, de outras faculdades.

Como o pessoal do judô reagiu às denúncias contra o senhor?

O mundo do judô me conhece. Um cara que larga medalha de ouro olímpica para brigar e transformar para eles… Quem é que faz isso?

O que o senhor tem feito pelo esporte através da FUPE?

A FUPE fomenta o esporte no estado de São Paulo. Eu peguei a FUPE com muitas dívidas, pessoas irresponsáveis deixaram tudo no negativo, não prestaram conta ao Estado. E devagar fomos melhorando. A gente não tem sede e agora vamos para um imóvel meu. Eu achei por bem não ter um local por questões de gastos com aluguel e funcionário. Ela é deficitária, eu tive que colocar recursos meus. E é um questionamento que estou fazendo com os jovens, que a gente tem que fazer ser autossuficiente e buscar parcerias pra isso.

Agora estamos atrás do Governo do Estado para que oficialize o campeonato estadual universitário, para que o governo realize, e fortalecer a entidade. E a ideia é fomentar o esporte, crescer. Está sendo um desafio.

Hoje qual é seu papel na sociedade? Um ex-político, um ex-judoca, um treinador, um cartola?

O judô é a minha vida. Comecei com 4 anos e meio. Fui várias vezes ao Japão e sou muito respeitado lá pela minha conduta, disciplina e coerência. E meu sonho sempre foi montar um Instituto Kodokan igual ao do Japão para fomentar e desenvolver o judô aqui no Brasil. Acho importante dentro do esporte que me projetou e participei a vida inteira. Eu continuo afiliado ao PR. Mas não quero nenhum envolvimento mais e não aceitaria cargos sem ter independência para fazer aquilo que acredito. Quero algo que eu possa transformar pois sou idealista no esporte.

A CBJ agora tem um treino obrigatório para os judocas de elite das categorias mais pesadas em São Paulo. E o senhor está lá praticamente em todos os treinos.

Eu que pedi para fazer esse treinamento dos atletas da seleção. Lá em São Paulo tem que ter a obrigatoriedade de fazer o tratamento da seleção. Eles implementaram e como eu que sugeri, fiquei moralmente comprometido. Vou toda terça e quinta.

O senhor se sente reconhecido quando está no tatame?

Eu tinha parado porque não tinha tempo. Sou responsável. Quando estava na política, deixei de fazer palestras e algumas coisas que seriam para benefício próprio, para não me ausentar dos meus compromissos como vereador. E hoje também não quero mais fazer [as palestras]. Eu me reavivei ao voltar aqui no tatame. Me machuquei um pouco porque eu tomo Rosuvastatina [um remédio para colesterol] e ele interfere um pouco na questão muscular.

O esporte em São Paul está parado?

Em relação ao esporte municipal, por exemplo, eu lamento que entrou anteriormente o antigo secretário [Jorge] Damião. Fazíamos eventos universitários lá [na sede da secretaria, no bairro do Ibirapuera] e falaram que agora era Centro Olímpico. Mas na minha opinião era algo que ficava sem utilização aos finais de semana, falava que era da população, para ser utilizado.  Falei que foi Centro Olímpico no projeto, mas hoje não é. E se colocar per capita o custo desse Centro Olímpico, é muito caro. Isso aqui é uma escolinha que custa muito. A ideia era os centros educacionais terem várias atividades esportivas para universalizar o esporte e as crianças que se destacassem nas diversas modalidades seriam levadas para o Centro Olímpico. O secretário tem que fomentar o esporte na cidade de São Paulo, principalmente nas comunidades menos favorecidas onde as crianças têm menos acesso a tudo. E eu sempre lutei para isso.

Estamos em uma onda de privatização de equipamentos esportivos. Ibirapuera, Pacaembu, Autódromo… O senhor apoia?

Ibirapuera é um complexo esportivo. Vai privatizar e continuar a ter atividades esportivas ou vai privatizar para ter iniciativas privadas? O esporte vai parar aonde? E o recurso que vai entrar nisso vai ajudar o esporte? O Estado tem que entender que ele precisa fazer a sua parte também: cobrar impostos e saber administrar isso, que é a educação, a saúde, fomentar o esporte, que faz parte também da educação e beneficia a saúde da criança, do jovem e da terceira idade. Não pode privatizar tudo, se for privatizar tem que ter orientação positiva para a cidade e o estado.

O Pacaembu, se o Estado deixar de gastar, por exemplo R$ 8 milhões por ano e pegar esse recurso que era gastado e fomentar o esporte, ok. Com o Ibirapuera é a mesma forma.

A política hoje tem uma clara polarização. O senhor se identifica com qual dos lados?

Eu gostaria que tivesse bom senso todos os lados. E administrasse para o nosso país, pois isso é o mais importante. O Legislativo é a maior força, mas eles ainda não entenderam isso ainda. Poderiam ser as pessoas mais queridas do país transformando a sociedade.

Sobre o autor

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Focado na cobertura olímpica, produziu o Giro Olímpico para o UOL e reportagens especiais para a revista IstoÉ 2016. Criador do Olimpílulas, foi colunista da Rádio Estadão e blogueiro do Estadão, pelo qual cobriu os Jogos do Rio-2016.

Está disponível para críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas no demetrio.prado@gmail.com.

Sobre o blog

Um espaço que olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. Aqui tem destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa.