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Pressão por cargos derruba secretário de Esporte, general Marco Aurélio

Demétrio Vecchioli

18/04/2019 00h31

General Marco Aurélio Vieira (Breno Barros/Ministério da Cidadania)

A queda de braço entre a ala política que comanda o Ministério da Cidadania e a ala militar que comandava o esporte tem um vencedor. O Diário Oficial da União desta quinta-feira (18) traz a exoneração do secretário especial de Esporte, general Marco Aurélio Vieira. Ele vinha travando uma guerra não declarada com o ministro da Cidadania, Osmar Terra (MDB-RS).

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Marco Aurélio é um general três estrelas que, depois de ir para a reserva, foi indicado pelos militares para trabalhar como diretor do Comitê Organizador dos Jogos Rio-2016. Acabou cuidando do revezamento da tocha olímpica. Chegou ao governo Jair Bolsonaro (PSL) novamente indicado pela ala militar, recomendado pelos generais Hamilton Mourão, vice-presidente, Fernando Azevedo e Silva, ministro da Defesa, e Augusto Heleno, ministro do Gabinete de Segurança Institucional.

Mas, com o Ministério do Esporte rebaixado a uma secretaria especial do Ministério da Cidadania, Marco Aurélio não conseguiu trabalhar. Desde janeiro ele trava uma queda de braço com Osmar Terra. O general apontou os quatro secretários com quem queria trabalhar, mas só um deles foi de fato nomeado – o coronel Ronaldo Lima, na secretaria de futebol, porque foi colega de Jair Bolsonaro no Exército.

Raimundo Neto chegou a ser nomeado para o Alto-Rendimento, mas não assumiu. Foi trocado pelo pastor evangélico João Manoel (MDB-MA), apadrinhado do ex-presidente José Sarney (MDB-AP) e irmão de um deputado federal. Na Secretaria de Esporte, Lazer e Juventude, Carla Ribeiro Testa chegou a começar a trabalhar, mas nunca foi nomeada. Perdeu o posto para o ex-jogador de futebol Washington (PDT-RS), gaúcho como Terra. Na Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (ABCD), Emanuel Rêgo trabalha desde fevereiro sem nunca ter sido nomeado.

De acordo com funcionários do Ministério do Esporte, a disputa política entre o general e ministro chegou ao seu ponto máximo nesta semana. Terra está empenhado em ajudar o presidente Jair Bolsonaro a conseguir votos para aprovar a reforma da previdência e fazia questão de controlar cargos chaves na secretaria, encontrando resistência na vontade do general, que no fim de semana foi defendido por campanha dos atletas da Comissão Nacional de Atletas (CNA) e da Comissão de Atletas do COB.

Esse foi um dos motivos da demissão, de acordo com fonte ligada ao ministro. O general teria jogado os atletas contra Terra. Além disso, durante a semana, Marco Aurélio teve uma audiência com Bolsonaro, solicitada sem o conhecimento do ministro, seu superior. "Houve perda de confiança", diz essa fonte, que critica ainda um trabalho de Marco Aurélio nos bastidores para a volta do Ministério do Esporte.

Durante os pouco mais de 100 dias que ficou no cargo, Marco Aurélio precisou lidar com duas crises. A primeira, os cortes no Bolsa Atleta feitos no governo Michel Temer (MDB). Conseguiu recuperar o orçamento do programa e entregou um novo projeto de lei ao Congresso nesta quarta. A segunda, a falta de certificação do COB, que poderia impedir o comitê de receber recursos da Lei Agnelo/Piva e asfixiar o esporte olímpico a 100 dias dos Jogos Pan-Americanos. Conforme contou a interlocutores, o general "matou o problema no peito" e solicitou que os repasses não fossem suspensos.

 

Sobre o autor

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Focado na cobertura olímpica, produziu o Giro Olímpico para o UOL e reportagens especiais para a revista IstoÉ 2016. Criador do Olimpílulas, foi colunista da Rádio Estadão e blogueiro do Estadão, pelo qual cobriu os Jogos do Rio-2016.

Está disponível para críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas no demetrio.prado@gmail.com.

Sobre o blog

Um espaço que olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. Aqui tem destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa.