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Blog Olhar Olímpico

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Regras diferentes barram Tifanny no Pré-Olímpico, mas não no Pan

Demétrio Vecchioli

2016-04-20T19:04:00

16/04/2019 04h00

Tifanny (Foto: Ayrton Vignola/Fiesp)

Se o técnico José Roberto Guimarães quiser, ele pode convocar a oposto Tifanny Abreu para disputar os Jogos Pan-Americanos de Lima. Mas a jogadora do Sesi/Bauru segue vetada para jogar outras competições internacionais pela seleção brasileira, como a Nations League e o Pré-Olímpico. Depois, se a vaga vier, ela poderia estar nos Jogos Olímpicos de Tóquio.

Isso porque não há padronização nos critérios adotados internacionalmente para jogadoras como ela, que é biologicamente homem, passou por tratamento hormonal e se reconhece (e é reconhecida) como mulher.

A única entidade que realizou estudos para chegar a um critério foi o Comitê Olímpico Internacional (COI), que criou um guia de diretrizes para a participação de mulheres trans em competições femininas. Neste documento, o COI aponta que, para serem elegíveis, elas devem ficar pelo menos 12 meses em tratamento hormonal apresentando no máximo 10 nmol/L de nível de testosterona. Esse nível, depois, precisa ser sempre mantido.

Mas essa é uma regra que o COI só pode estabelecer para seus próprios eventos. Ou seja: para os Jogos Olímpicos, seja de Verão, de Inverno ou da Juventude. Com relação às entidades a ele associadas, o COI só pode recomendar que o mesmo critério seja adotado.

Não foi o que fez a Federação Internacional de Vôlei (FIVB), que, depois que Tifanny começou a jogar bem em Bauru, há um ano, determinou que estipularia seus próprios critérios. Para tanto, foi montado um grupo de trabalho que deveria estudar o tema. Até agora, não há nenhuma conclusão.

"Não há nada de novo a ser comunicado. Esses temas complexos requerem mesmo muito tempo porque há vários ângulos possíveis e às vezes dependência de decisões externas", explicou a assessoria de imprensa da FIVB. Alguns membros aguardam a decisão da Corte Arbitral do Esporte (CAS) no caso Caster Semenya x IAAF, uma vez que a decisão da CAS, definitiva, pode conter elementos que ajudem a orientar os critérios da FIVB.

Desta forma, os torneios da temporada internacional da FIVB de 2019 não aceitariam a inscrição de Tifanny. A Nations League vai de 21 de maio a 7 de julho, servindo de preparação para o Pré-Olímpico, de 2 a 4 de agosto, que o Brasil vai jogar em casa, em Belo Horizonte (MG).

Como a competição feminina de vôlei dos Jogos Pan-Americanos vai acontecer de 7 a 11 de agosto, Zé Roberto poderá levar o mesmo time a Lima (Peru). E, aí, contando com Tifanny. Isso porque a Panam Sports (antiga Odepa), o equivalente ao COI para as Américas, decidiu adotar os critérios do comitê internacional para "este e para outros casos", explicou a entidade ao blog.

A situação é peculiar, mas encontra paralelo em questões de nacionalidade. Diversas federações internacionais têm critérios diferentes dos do COI para elegibilidade de atletas que mudaram a nacionalidade esportiva, o que faz com que eles compitam em Mundiais, mas não em Olimpíadas. Além disso, há diferenças no reconhecimento de nações. A Groenlândia, por exemplo, pode disputar um Mundial de Handebol, mas não é reconhecida como país e, por isso, não estar numa Olimpíada.

Sobre o autor

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Focado na cobertura olímpica, produziu o Giro Olímpico para o UOL e reportagens especiais para a revista IstoÉ 2016. Criador do Olimpílulas, foi colunista da Rádio Estadão e blogueiro do Estadão, pelo qual cobriu os Jogos do Rio-2016.

Está disponível para críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas no demetrio.prado@gmail.com.

Sobre o blog

Um espaço que olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. Aqui tem destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa.