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Olhar Olímpico

Elite do ciclismo nacional se rebela contra confederação brasileira

Demétrio Vecchioli

11/03/2019 04h00

Emerson Silva, técnico da seleção brasileira de ciclismo (Luis Cláudio Antunes/CBC)

Acabou a paciência da maior parte da elite do ciclismo nacional contra a gestão da Confederação Brasileira de Ciclismo (CBC). Em movimento liderado pela veterana Janildes Fernandes, os ciclistas pedem a imediata demissão do casal Ana Cláudia Stipanich Rodrigues e Emerson Silva, respectivamente diretora de alto-rendimento e treinador-chefe. Os dois são acusados de deixarem as seleções brasileiras à deriva e de ameaçarem atletas.

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A principal reclamação é de que não há planejamento para o ciclismo brasileiro. No ciclo olímpico para a Rio-2016, a seleção feminina de ciclismo de estrada, por exemplo, não participou de nenhuma volta ciclística classificatória para os Jogos. Faltando três meses para o início de um calendário de provas sul-americanas que valem pontos importantes na corrida por Tóquio, novamente não há nenhum indício de que a confederação pense em levar atletas para competir.

"A gente já demonstrou que a modalidade tem capacidade, que a gente tem atleta, tem matéria prima, só falta planejamento. Isso infelizmente a gente não tem. Não queremos reunião, argumento, queremos mudança. Acredito que nem tudo é dinheiro. Se o país está passando por momento difícil, tudo bem. Mas fala qual é o critério de classificação, para quais competições vai, qual não vai", critica Janildes.

As críticas são direcionadas ao casal Emerson e Ana Cláudia. Próximo ao presidente José Luiz Vasconcelos, Emerson começou na CBC como office boy e recebeu diversas oportunidades de se capacitar, incluindo estágio na Suíça. Desde 2014 é oficialmente o técnico-chefe do ciclismo brasileiro. Já sua esposa é também sua superiora, diretora de alto-rendimento da CBC.

As reclamações contra o trabalho dos dois não surgiram agora, nem são restritas ao ciclismo de estrada. Emerson é originário da pista e, desde sua chegada ao posto, a equipe de pista tem ganhado espaço na CBC, com direito a planejamento conjunto com o COB. Enquanto isso, atletas reclamam da falta de critérios e de transparência nas convocações nas outras disciplinas.

Janildes diz que diversos atletas a procuraram para que ela tomasse iniciativa de iniciar um movimento exigindo a demissão do casal. Foi ela quem criou uma petição online que já recebeu mais de 100 assinaturas e que vem gerando polêmica no meio. Há casos de atletas que, depois de assinarem, pediram para terem seus nomes retirados. Clubes e outras organizações também teriam exigido que seus atletas não assinassem.

A veterana acusa Emerson de fazer pressão sobre os atletas, ameaçando não mais convocar quem se juntar ao grupo dos descontentes. "Somos formiguinha lutando contra eles. Ele (Emerson) é sempre muito irônico, trata os atletas como se fossem um lixo qualquer. Com nós do feminino não existe diálogo, não existe planejamento", continua Janildes, que poupa o presidente Vasconcellos de críticas porque, segundo ela, ele alega que não sabia das reclamações.

Agora, a confederação afirma que criou uma ouvidoria, onde a reclamação já foi formalizada, e que o departamento jurídico solicitou respostas dos acusados para depois repassá-las ao comitê de integridade. A entidade afirma que "não vê problema" no fato de o departamento ser comandado por marido e mulher, porque "as contratações são sempre feitas por meritocracia".

O ciclismo brasileiro vive momento histórico, graças principalmente a investimentos privados. Rodando o circuito mundial graças à sua equipe, Henrique Avancini é o terceiro do ranking mundial do mountain bike, com o Brasil ocupando uma ótima quarta colocação no ranking de países. No BMX, Andinho (Anderson Ezequiel) conquistou a primeira medalha da história do Brasil em Mundiais – um bronze no ano passado – e é 20º do ranking. Priscila Carnaval é a 12ª. Ambos têm treinado e competido no exterior com recursos próprios.

Ao mesmo tempo, o ciclismo de estrada vive uma contínua crise, influenciada muito pela falta de uma política antidoping, que nos últimos anos colocou o Brasil como país com mais casos de doping na modalidade. Boa parte dos últimos campeões nacionais foi suspensa por doping, tanto no masculino quanto no feminino. Isso naturalmente afastou investimentos privados e os resultados despencaram. Entre os homens, o Brasil é atualmente o 53º no ranking mundial. Individualmente, não há nenhum brasileiro entre os 600 melhores do mundo.

Sobre o autor

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Focado na cobertura olímpica, produziu o Giro Olímpico para o UOL e reportagens especiais para a revista IstoÉ 2016. Criador do Olimpílulas, foi colunista da Rádio Estadão e blogueiro do Estadão, pelo qual cobriu os Jogos do Rio-2016.

Está disponível para críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas no demetrio.prado@gmail.com.

Sobre o blog

Um espaço que olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. Aqui tem destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa.