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Técnico pega pena três vezes maior que jogador por ser "cúmplice" em doping

Demétrio Vecchioli

01/03/2019 04h00

(Crédito: Divulgação/LNB)

O Tribunal de Justiça Desportiva Antidopagem (TJDAD) vem sendo criticado nas redes sociais por uma decisão no mínimo peculiar. Técnico vice-campeão brasileiro de basquete, Guerrinha foi suspenso por seis meses, junto com um de seus auxiliares. O motivo: eles assinaram a súmula de uma partida na qual o ala Shamell foi pego em exame antidoping, mesmo sem ter jogado. Chama atenção o fato de que o jogador norte-americano recebeu apenas dois meses de suspensão, já cumpridos, e está livre para jogar.

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Guerrinha e o auxiliar Danilo Padovani foram punidos em primeira instância com base no artigo 17 do Código Brasileiro Antidoping, que trata de "cumplicidade", descrita como o ato de "assistir, alentar, ajudar, incitar, colaborar, conspirar, encobrir, ou qualquer outro tipo de cumplicidade intencional". De acordo com depoimento do médico do Mogi, Marcus Vinicius Porcelli, Guerrinha e Danilo não sabiam da medicação com substância proibida.

O caso é inédito no Brasil, onde dez jogadores de futebol, por exemplo, estão suspensos por doping ocorridos em partidas nas quais atuaram ou foram relacionados. Nenhum dos técnicos responsáveis pelas escalações desses atletas, porém, foi sequer denunciado. Também não se tem notícia que algum desses treinadores tivesse conhecimento de que os jogadores haviam consumido substância proibida.

O que então torna diferente o caso do treinador do Mogi?

O fato de que, na partida em que foi pego no doping, contra o Joinville, em 18 de fevereiro do ano passado, Shamell não tinha condições de jogo. Ele havia lesionado o cotovelo, que estava tão inchado que foi necessário um tratamento com um medicamento que reduzisse o edema para enfim o ala poder passar por exames de imagem. O norte-americano foi para o banco de reservas sem uniforme de jogo e com uma tipoia no braço.

O regulamento do NBB permite que sentem no banco os sete reservas e outros dois jogadores que não estão na súmula e, portanto, não podem entrar no jogo. Shamell seria um desses, mas teve seu nome adicionado à súmula, assinada por Guerrinha e Danilo. No fim do jogo, foi escolhido para fazer exame antidoping, que acusou a presença da substância proibida.

No entender dos auditores do TJDAD, Guerrinha e Danilo foram diretamente responsáveis pelo doping. A conclusão parte do princípio de que o doping é a soma do consumo da substância proibida com a prática esportiva. Como Shamell, machucado, só foi inscrito na partida por decisão – ou erro – de Guerrinha e Danilo, eles teriam sido os responsáveis pelo doping. Se o norte-americano não estivesse na súmula, não haveria doping.

Uma fonte ligada à Autoridade Brasileira de Controle de Dopagem (ABCD), que falou com o Olhar Olímpico na condição de anonimato, explicou que a punição a técnico e auxiliar se deveu à "falta de zelo" dos dois, que "viabilizou"o doping. "Faltou cuidado da parte deles", reforçou. Essa "imprudência" para com o atleta seria mais grave do que a imprudência do próprio Shamell, que foi para o banco para assistir ao jogo, não interferiu no resultado da partida porque nem vestiu uniforme, e acabou recebendo dois meses de suspensão.

"Isso é punir o doping burocrático, porque não houve interferência no resultado da partida. Inclusive o relator da época revogou a suspensão provisória com base nisso. Tem que se discutir qual é o bem que está sendo protegido neste momento", critica o advogado do Mogi, Cezar Lombardi, que aponta que a punição, que teria pego de surpresa inclusive membros da ABCD e outros auditores, pode criar um precedente que ele vê como preocupante.

Além disso, Lombardi questiona quais os critérios que definem que um técnico está ou não sendo imprudente em relacionar um atleta. "Pelo regulamento, se houver interrupção da partida, os atletas que estiverem na súmula podem participar do outro jogo. O regulamento permite", reforça.

O acórdão da suspensão ainda não foi publicado, de forma que ainda não se iniciou nem a aplicação da pena nem o período para se pedir o efeito suspensivo. Caso a punição seja mantida em segunda instância, o gancho a Guerrinha começaria a valer da data do primeiro julgamento: 21 de fevereiro. Assim, ele ficaria de fora do restante do NBB. Já a suspensão de Shamell, de dois meses, retroage à data em que se iniciou a suspensão provisória, em abril. Assim, ele cumpriu a suspensão durante as férias. 

Sobre o autor

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Focado na cobertura olímpica, produziu o Giro Olímpico para o UOL e reportagens especiais para a revista IstoÉ 2016. Criador do Olimpílulas, foi colunista da Rádio Estadão e blogueiro do Estadão, pelo qual cobriu os Jogos do Rio-2016.

Está disponível para críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas no demetrio.prado@gmail.com.

Sobre o blog

Um espaço que olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. Aqui tem destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa.