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COI ousa ao propor break dance como esporte olímpico

Demétrio Vecchioli

21/02/2019 09h41

O russo Sergei Chernyshyov, campeão olímpico da juventude de break dance (divulgação/COI)

"Era a escolha óbvia". Foi assim que os organizadores dos Jogos Olímpicos de Paris, em 2024, reagiram à proposta apresentada nesta quinta-feira (21), em conjunto com o Comitê Olímpico Internacional (COI), de incluir a dança como modalidade de Paris-2024. Mais especificamente, uma disciplina da dança esportiva, a batalha de break dance – dois atletas se apresentam um frente ao outro e ganha quem for mais votado.

A informação choca duas vezes. Como assim dança nos Jogos Olímpicos? Como assim uma escolha "óbvia"?

Nesta terça, o COI e Paris-2024 cumpriram a primeira etapa do processo de escolha das modalidades que serão disputadas daqui a cinco anos, apresentando uma "recomendação" que pode ou não ser aceita pela assembleia do COI. Normalmente, é aclamada.

Além do break dance, foram propostos o surfe, o skate e a escalada esportiva, três modalidades que estreiam em Tóquio-2020. Dezenove esportes apresentaram propostas, incluindo squash (mais popular entre os esportes que ficam de fora), sinuca, xadrez, beisebol/softbol e karatê – esses dois últimos serão disputados em Tóquio e depois deixam o programa.

A escolha segue uma lógica. O movimento olímpico está disposto a bater de frente com os puristas e se aproximar, cada vez mais, do público jovem, principalmente aquele conectado à cultura de rua. Exatamente aquele que não veste uma camisa polo, calça tênis branco, e vai para o clube jogar squash.

O programa olímpico já está saturado de esportes inconvenientes, que não são massificados, que não vendem ingressos, que não têm uma legião de fãs. Mas que continuam lá por tradição. Vide pentatlo moderno, nado sincronizado e tantos outros. Só as modalidades "fixas" usam mais de 10 mil da 10,5 mil credenciais de atletas, teto por edição.

Sobram 500 vagas, que o COI e os organizadores de Paris-2024 tentam otimizar. O breakdance terá 16 competidores em cada naipe. No total, é pouco menos que o tamanho de um único time de beisebol, formado por 24 atletas. Gasta-se expressivamente menos com estrutura, atraindo uma legião de fãs, seja com venda de ingressos, seja pela televisão/redes sociais. A Olimpíada sai ganhando.

Um teste já foi feito, muitíssimo bem sucedido. O break dance foi disputado na Olimpíada de Juventude de Buenos Aires, no ano passado. A competição aconteceu em uma estrutura montada no Parque Madero, um dos locais mais movimentados e de atmosfera jovem da capital argentina. Lá foram disputadas também as provas de escalada, basquete 3×3 e BMX freestyle – essas duas disciplinas vão estrear em Tóquio-2020.

Ao juntar quatro esportes urbanos, jovens e radicais em um mesmo local, o COI e os organizadores conseguiram transformar aquele no ponto de encontro de turistas e da garotada da cidade. Com esse público alvo reunido é muito mais fácil conversar com ele. Se você conhece o Rio, imagine o sucesso que teria sido essas quatro modalidades sendo disputadas no Aterro do Flamengo. Ou na região da renovada Praça Mauá.

Paris, referência mundial em turismo, sabe cuidar do visitante como ninguém. A candidatura já foi desenhada para que as competições ocorram em locais já de intenso fluxo de pessoas, integrando as competições com a cidade e seu entorno. Já escrevi sobre isso: a Olimpíada de Paris vai ser a mais legal da história.

Com skate, escalada e break dance, Paris dá mais um passo nesse sentido de integrar a Olimpíada com a cidade, representado, também, pela decisão anunciada mais cedo de realizar uma prova para cidadãos comuns no mesmo dia e no mesmo percurso da maratona olímpica. A maratona aquática vai ser no Sena. O Campo de Marte (o gramado em frente à Torre Eiffel) receberá o vôlei de praia. E por aí vai.

A competição de dança em Paris será organizada pela World Dance Sport Federation (WDSF), que é reconhecida pelo COI há mais de 20 anos como a entidade responsável pela dança esportiva mundial. Especialista principalmente na dança de salão, seja clássica ou em ritmos latinos, ela agora terá que se renovar para abraçar melhor o break dance.

Esse é o desafio dos próximos cinco anos, maior do que o vivido pelo skate, inclusive. Dar um caráter esportivo, organizado, para o que historicamente é arte, é cultura, é caótico. Nunca foi necessário submeter uma competição de break dance, em qualquer lugar do mundo, à chancela ou às regras impostas pela WDSF. Agora, ao menos parte do calendário precisará ser assim. Da mesma forma, os atletas que quiserem competir em Paris, terão que se federarem.

É um processo longo, mas de ganha-ganha. Ganha o movimento olímpico, cada vez menos careta. Ganha o break dance, com visibilidade e reconhecimento.

 

 

 

 

 

 

Sobre o autor

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Focado na cobertura olímpica, produziu o Giro Olímpico para o UOL e reportagens especiais para a revista IstoÉ 2016. Criador do Olimpílulas, foi colunista da Rádio Estadão e blogueiro do Estadão, pelo qual cobriu os Jogos do Rio-2016.

Está disponível para críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas no demetrio.prado@gmail.com.

Sobre o blog

Um espaço que olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. Aqui tem destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa.

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