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Campeonatos entre seleções estaduais: a obsessão do presidente da CBB

Demétrio Vecchioli

19/02/2019 04h00

Guy Peixoto (divulgação)

Jogando pela seleção paraense de basquete, Guy Peixoto chamou a atenção do Corinthians e foi convocado para a seleção brasileira. Quase quatro décadas depois, o agora presidente da Confederação Brasileira de Basquete (CBB) tem uma obsessão: dar a jovens de todo o Brasil a mesma oportunidade que ele teve na juventude. Em um momento em que o basquete brasileiro vive sua pior crise técnica, com o time masculino fora do Pan e o feminino fora do Mundial, nada motiva mais o cartola do que organizar um Campeonato Brasileiro de Seleções Estaduais nas categorias de base.

Em entrevista exclusiva ao Olhar Olímpico, de declarações curtas e respostas evasivas, Guy Peixoto falou sobre essa obsessão, mas também sobre a falta de apoio ao basquete feminino, a situação financeira da confederação, a dificuldade em encontrar patrocinadores e as promessas de campanha ainda não cumpridas.

Olhar Olímpico: O senhor tem dado poucas entrevistas desde que chegou à CBB. A última vez que falou com o UOL foi ainda durante a campanha eleitoral, há quase dois anos. Em entrevista ao Blog do Bala, o senhor colocou as seguintes metas para os 100 primeiros dias de gestão: trazer de volta o campeonato de seleções estaduais, um centro de treinamento de excelência, universidade do basquete, um conselho de notáveis, a retirada suspensão da Fiba e a realização da Copa Brasil de Clubes de base, que era algo já decidido. De sete promessas, uma foi entregue, com atraso… 

Guy Peixoto – As promessas não eram minhas, eram do meu grupo, da minha chapa. CT nós temos, já está há um ano e meio funcionando. Você precisa entender que tínhamos algumas promessas de patrocinadores que não ocorreram. Não podemos fazer nada sem patrocínio. Tivemos também alguns problemas com o COB: nosso dinheiro fica preso por prestação de contas da gestão passada. Com relação ao campeonato de base, tínhamos a promessa do COB de fazer, mas por conta dessas pendências não conseguimos fazer.

O COB fez essa promessa a você enquanto você era candidato? Porque essa era uma promessa de candidatura.

Não, a conversa veio depois. A liberação da Fiba não me lembro se foram 100 dias, mas nós conseguimos. Quando a gente assumiu, o cenário era diferente do que a gente imaginava. O balanço falava em dívida de R$ 17 milhões, mas quando fomos apurar chegamos a R$ 46 milhões. Era uma situação bem pior do que a gente imaginava.

Essa dívida de R$ 46 milhões consta em uma auditoria contratada pelo senhor, que nunca foi publicada, porque tem uma cláusula de confidencialidade. O senhor diz que existia essa dívida, mas no balanço financeiro do final de 2017 aparece lá que a dívida no fim de 2017 era só de R$ 10 milhões. Como ela foi reduzida se praticamente CBB não tem fonte de receita que não verba carimbada?

Durante o ano [de 2017, o primeiro da gestão] a gente foi discutindo e negociando algumas dívidas.

Mas que dívidas eram essas? Porque a dívida era de R$ 17 milhões, foi para R$ 46 milhões, e caiu para R$ 10 milhões. 

Tínhamos uma divida com a Champion, de R$ 10 a 11 milhões. Numa negociação, ela resolveu tirar. Tínhamos uma divida com a empresa do Brunoro, também de R$ 10 milhões, mas ele resolveu também tirar a causa.

Mas o que leva uma empresa a retirar assim facilmente um processo de R$ 10 milhões? Se ela retirou, ela não confiava que ia ganhar. Por sua vez, se a CBB provavelmente não ia perder o processo, não poderia ser contabilizado como dívida. Certo?

Na Justiça os interessados pedem o valor que querem. Mas aí a gente negocia. A gente ofereceu não dar continuidade no processo, só isso. Acho que ela retirou porque ficaria mal para elas ficar brigando com a CBB, com uma gestão que quer o bem do basquete. 

Voltando à primeira pergunta. A confederação diz que tem um CT em Campinas. Por que as seleções não treinam lá.

Precisa pagar alimentação, transporte, hospedagem… 

Então o CT é uma quadra?

Sim, é uma quadra. Mas a proposta é que seja um futuro CT.

Dá para chamar uma quadra de "CT"?

Eu chamo de CT, mas você pode chamar de quadra.

Ainda que tenha havido abertura para atletas, o COB ainda tem muito forte o corporativismo dos cartolas. Em maior número, são eles que tomam as decisões. O senhor tem se envolvido nessa política? 

Eu tenho pessoas minhas que discutem os assuntos com o COB. Mas eu não me envolvo em questões políticas. Até converso com alguns dirigentes, mas não me envolvo. Não me considero um cartola. Estou preocupado com coisas mais importantes para o basquete. Arranjar patrocinador, fazer campeonato de base….

O vôlei ultrapassou o basquete como o segundo esporte brasileiro graças também a uma participação pesada na política esportiva do país, com o Nuzman na presidência do COB, por exemplo. O judô agora também ganha força, ocupando diversos cargos de alto escalão. A falta de um lobby forte do basquete no COB não atrapalha o crescimento da modalidade?

Tem bastante gente me ajudando. Não quero ser político. Sou administrador. Tenho tentado administrar como uma empresa. Tenho outras pessoas fazendo política, tem os ex-jogadores falando do trabalho que está sendo feito…

Hoje a confederação recebe um recurso enxuto do COB, na distribuição dos recursos da Lei Piva…

O critério do COB é técnico. O esporte que ganha mais medalha ganha mais dinheiro. Eu discordo. O basquete vem de anos sem títulos, mas a gente tem trabalhado junto ao COB para tentar ajudar nos campeonatos de base mesmo. Vai demorar o resultado. Assim, o basquete vai continuar sendo penalizado. Precisamos voltar, estamos voltando a ter resultados na base. Estamos sendo punidos há mais de 12 anos.

Na sua primeira resposta o senhor fez questão de frisar que o senhor representa um grupo. Boa parte dos representantes desse grupo foi conivente, elegeu e aprovou as contas das gestões passadas. A responsabilidade não é de muitos dos seus aliados?

Com certeza.

A CBB sentou para negociar patrocínio com a Caixa Econômica Federal, mas as negociações não foram concluídas porque há uma cobrança judicial por parte de outra estatal, a Eletrobras. Quanto e como a CBB vai pagar, se ela tem poucos recursos privados?

Eu não tenho os valores. Vou assumir dentro do que vai entrar de dinheiro na confederação. Não vou assumir pagar mais do que eu posso.  É para parcelar. A confederação vai ter condições de honrar.

Por que até agora a confederação não conseguiu um patrocinador master?

Primeiro a situação do país. A gente vive numa recessão, com mudança de governo, ano político. A gente bateu em várias portas. Aprovamos quase R$ 5 milhões em Lei de Incentivo. Tudo para campeonato de categoria de base. Queremos fazer o sub-14 e o sub-15.

Sobre esse Campeonato Brasileiro de Seleções Estaduais: a CBB vai colocar R$ 5 milhões em um campeonato voltado a times de regiões onde o basquete não é tão desenvolvido. É uma política para agradar os presidentes de federações?

Eu fui campeão pelo Pará. Agora mesmo o Remo ganhou do Bauru no sub-16 no Brasileiro de Clubes.

Ou seja: os bons jogadores do Pará no sub-14, sub-15, sub-16, já estão tendo visibilidade no Brasileiro de Clubes, organizado pelo Comitê Brasileiro de Clubes (CBC), que é exatamente para essas idades, e na Olimpíada Escolar. Em um momento de crise financeira, deve ser prioridade dar mais uma oportunidade para o mesmo atleta chamar atenção de um grande clube?

O torneio de seleção foi onde eu pareci. Tem categorias que o CBC não está fazendo. A gente vai tentar fazer.

Não existe no Brasil nenhum campeonato nacional feminino sub-17, sub-18, sub-19, sub-20, sub-21, sub-22, sub-23… A menina que tem 16 anos já joga o Brasileiro de Clubes, do CBC. Mas a menina de 17 não tem nenhum campeonato para jogar. Por que a prioridade é mais um campeonato sub-16?

Todas as decisões são tomadas em conjunto com os presidentes e os atletas que fazem parte da confederação.

Mas isso foi decidido em assembleia? Não consta em ata essa decisão.

Não. Foi decidido pela área técnica.

Na sua gestão, a CBB apresentou um "missão, valores e visão". Na missão, consta "Liderar o processo de desenvolvimento do basquete junto a federações e clubes". No papel de liderança, a confederação está fazendo um bom papel no desenvolvimento do basquete feminino brasileiro? O que foi feito na sua gestão?

O CBC já é um grande exemplo do que foi feito. Pelo nosso acordo com o CBC, nós colocamos 1.500 atletas para jogar no primeiro ano e 1.500 no segundo. O CBC faz competição de base no masculino e feminino.

Mas o edital do CBC que criou as competições é anterior a sua gestão. Além disso, como o senhor disse, quem faz a competição é o CBC. Reforço a questão: O que a CBB tem feito para liderar o processo de desenvolvimento do basquete feminino?

Eu não faço discriminação de masculino e feminino.

O senhor fez questão de assumir a responsabilidade de organizar uma terceira divisão do basquete masculino. Enquanto isso, o feminino não tem nem segunda divisão. Por que essa decisão?

Existem negociações para isso. O feminino está muito mais difícil de recuperar. Nossa proposta é que o clube para poder votar na assembleia da federação tenha no mínimo duas categorias de feminino.

A seleção feminina vem adiando a renovação, sempre com o argumento de que a próxima competição é importante e que precisa das veteranas. Quando vai acontecer a renovação?

O momento de renovar é agora. Temos 40 meninas jogando só nos Estados Unidos. Minha opinião é que já era para ter renovado, inclusive.

Será um fracasso se o basquete feminino não for à Olimpíada, depois de não ir ao Mundial?

Eu penso lá na frente, em 2024. O que eu falei desde o início é trabalhar na base. Os nossos jogadores são uns heróis por chegarem onde chegaram.

O senhor é candidato à reeleição?

Não sou candidato à reeleição.

O senhor terá um candidato?

Eu gosto de indicar. Principalmente se atingir os objetivos que eu me pus a concretizar nesses quatro anos.

Quais são os objetivos?

O principal objetivo é ter os campeonatos de base. Que o Brasil volte a ser a grande potência que foi.

Isso do campeonato de base é porque o senhor foi revelado em um?

Também. Não só eu, mas outros ídolos que passaram pela seleção.

Sobre o autor

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Focado na cobertura olímpica, produziu o Giro Olímpico para o UOL e reportagens especiais para a revista IstoÉ 2016. Criador do Olimpílulas, foi colunista da Rádio Estadão e blogueiro do Estadão, pelo qual cobriu os Jogos do Rio-2016.

Está disponível para críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas no demetrio.prado@gmail.com.

Sobre o blog

Um espaço que olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. Aqui tem destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa.

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