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Blog Olhar Olímpico

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Recordista em medalhas, Scheidt deixa aposentadoria e tentará 7ª Olimpíada

Demétrio Vecchioli

05/02/2019 04h00

(William Lucas/inovafoto)

Durou quinze meses e alguns dias a aposentadoria de Robert Scheidt. Como tantos outros grandes atletas olímpicos, do Brasil e do exterior, o astro da vela brasileira não conseguiu ficar muito tempo longe. Nesta terça-feira (5), ele concede entrevista coletiva em São Paulo para anunciar que vai tentar vaga nos Jogos Olímpicos de Tóquio na classe Laser e tentar se isolar como maior medalhista brasileiro – ele e Torben Grael, técnico da seleção, têm cinco cada. Será também a chance de disputar sua sétima Olimpíada, outro recorde.

Relembre: Maior da história, Scheidt sai de cena sem deixar herdeiros na vela

O anúncio, porém, não causará surpresa. Em outubro de 2017, quando também reuniu a imprensa no Yacht Club Santo Amaro, na beira da represa de Guarapiranga, para anunciar que estava se aposentando como velejador olímpico, o debate entre os jornalistas presentes não era se ele mudaria de ideia, mas quando.

Aos 45 anos, Scheidt não é do tipo que se contenta com pouco. Há quinze meses, disse que iria se dedicar à classe Star, que não faz parte do programa olímpico mas tem um calendário internacional agitado e de ótimo nível. E que, enfim, estaria à disposição da vela de oceano, considerada um desafio para os melhores velejadores do mundo. "Agora podemos começar a dizer 'sim' para algumas categorias que sempre vinham me chamando e eu dizia 'não'. Neguei muitos convites interessantes", disse na ocasião.

Mas os convites, se vieram, não foram aceitos. Scheidt não participou da Volvo Ocean Race, no ano passado, e ao que tudo indica também não estará na fase nas fases preliminares da America's Cup. Nesses 15 meses, o brasileiro foi campeão sul-americano de Star e, com Henry Raul Boening, faturou a prata no Star Sailors League Finals, em dezembro. Foi superado por Jorge Zarif, velejador da Finn a quem treinou no Mundial do ano passado, sem grande sucesso.

O evento que mudou o curso da história para Scheidt, porém, foi a Copa Brasil de Vela, em Florianópolis (SC). O multicampeão se inscreveu, segundo ele, para se divertir. "Estou indo pelo prazer do esporte. Não quer dizer que eu tenha voltado definitivamente à classe ou tenha aspiração olímpica. Não estou pensando nisso. Quero ir para curtir a minha velejada", disse antes da competição, na qual foi medalhista de prata na Laser – terminou empatado em pontos com Bruno Fontes, atrás nos critérios de desempate.

Ali o velejador que se aposentou em 2017 porque dizia não se sentir competitivo viu que, na verdade, ainda é bastante competitivo. E que o sonho de conquistar a sexta medalha olímpica, que escapou por pouco na Rio-2016, quando foi quarto colocado, não está tão distante assim. 

Em busca da vaga olímpica, será fundamental para Scheidt o Troféu Princesa Sofia, em Palma de Mallorca (Espanha), entre 29 de março e 6 de abril. Se ele ficar entre os 20 primeiros da Laser, será custeado pela CBVela para disputar a etapa de Hyères (França) da Copa do Mundo e para disputar o evento teste olímpico da vela, no Japão. Já a competição em Hyères vale vaga na equipe da CBVela no Mundial de Vela, que por sua vez é classificatório para a Olimpíada. 

Esta será a quinta corrida olímpica de Scheidt na Laser, classe que o projetou internacionalmente com um título mundial júnior em 1991 e com o ouro em sua primeira participação olímpica, em Atlanta-1996. Depois ele ainda foi prata em Sydney-2000 e ouro em Atenas-2004. Em 2006, migrou para a Star, desafiando a hegemonia de Torben Grael e Marcelo Ferreira, donos de dois ouros e um bronze nas três Olimpíadas anteriores.

Com Bruno Prada, conseguiu o que parecia impossível. Quando já era favorito à vaga olímpica em Pequim-2008, viu Torben desistir da corrida para fazer sucesso na vela de oceano. Passou, então, a ser o cara do Brasil na Star, faturando a prata em Pequim e o bronze em Londres-2012, quando já havia sido anunciado que a classe mais tradicional da vela sairia do programa olímpico para o Rio.

No pódio das cinco edições olímpicas anteriores, o Brasil tentou convencer a federação internacional a voltar atrás da decisão, mas não teve jeito. Seria uma forma de estender as conquistas de Scheidt, numa classe em que idade não é um problema: Torben foi medalhista pela última vez aos 44, o norte-americano Mark Reynolds foi ouro em 2000 aos 45 e o sueco Fredrik Lööf venceu em 2012 aos 43.

Restou a Scheidt voltar para a Laser, classe que exige mais da parte física. Ele até foi campeão mundial em 2013, no seu retorno à classe, mas não fez uma campanha olímpica brilhante. Mesmo assim, chegou bem cotado à Olimpíada, quando o bronze lhe escapou pelas mãos, ficando em quarto. Depois da Rio-2016, arriscou velejar de 49er, com Gabriel Borges, mas teve um primeiro ano, de 2017, sem resultados relevantes, e optou por parar.

 

 

Sobre o autor

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Focado na cobertura olímpica, produziu o Giro Olímpico para o UOL e reportagens especiais para a revista IstoÉ 2016. Criador do Olimpílulas, foi colunista da Rádio Estadão e blogueiro do Estadão, pelo qual cobriu os Jogos do Rio-2016.

Está disponível para críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas no demetrio.prado@gmail.com.

Sobre o blog

Um espaço que olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. Aqui tem destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa.