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Blog Olhar Olímpico

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Como prisão de um jogador na Tailândia gerou crise na Austrália

Demétrio Vecchioli

29/01/2019 16h49

Athit Perawongmetha/Reuters

A prisão de um ex-jogador da seleção do Bahrein pela polícia da Tailândia, em 27 de novembro do ano passado, vem gerando crise política na Austrália. Reconhecida como um dos países mais acolhedores para refugiados, a Austrália ainda não conseguiu explicar como que a Tailândia foi informada da viagem de férias que Hakeem al-Araibi faria em novembro. Enquanto isso, Comitê Olímpico Internacional (COI), a Organização das Nações Unidas (ONU) e a Federação Internacional de Futebol (Fifa) estão unidos para tentar tirar Al-Araibi da prisão. Já a Confederação Asiática de Futebol (AFC) vem sendo duramente criticada por não se meter no caso. 

Hakeem al-Araibi, de 27 anos, tem status de refugiado na Austrália, onde joga futebol profissionalmente. Em novembro, ele solicitou visto para a Tailândia, onde pretendia passar férias acompanhado da esposa. Ao desembarcar no aeroporto de Bangcoc, vindo de Melbourne, foi preso pela política tailandesa, que recebeu um alerta vermelho da Interpol.

Acontece que o protocolo da Interpol proíbe que alertas vermelhos sejam emitidos pelo país de onde o procurado saiu – no caso, da Austrália. E também alertas vermelhos para pessoas que têm status de refugiado. Mesmo assim, no mesmo dia em que o jogador obteve seu visto para viajar, a Tailândia foi alertada sobre quando Al-Araibi chegaria ao país, para prendê-lo. Também o Bahrein foi comunicado sobre a viagem. 

Preso há dois meses, Al-Araibi aguarda o processo de extradição para o Bahrein, de onde saiu em 2014 para jogar na Austrália. Opositor ao regime que comanda o pequeno país do Golfo Pérsico, ele foi condenado a dez anos de prisão por supostamente vandalizar uma delegacia de polícia. Segundo a Anistia Internacional, o jogador atuava em uma partida televisionada quando o vandalismo aconteceu, o que, para a entidade, demonstra que o julgamento foi injusto.

Na Austrália, Al-Araibi recebeu status de refugiado. Lá, revelou que, quando foi preso no Bahrein, foi torturado na prisão. Ele só teve a segurança de falar publicadamente sobre isso, entretanto, porque tinha sua situação regularizada em seu novo país. Agora, o temor expresso por companheiros, pela família e por diversas autoridades, é de que seja extraditado e tenha sua vida colocada em perigo. A Tailândia não é signatária da convenção de refugiados da ONU e, por enquanto, vem resistindo às pressões da comunidade internacional.

"É profundamente perturbador que nossas próprias autoridades ajudem um país a extraditar um residente australiano quando são acusados ​​de torturar essa pessoa", disse a presidente do Conselho Australiano de Sindicatos,  Michele O'Neil, em entrevista ao The Guardian australiano. "Estamos pedindo uma investigação parlamentar sobre as circunstâncias em torno da detenção e o papel que as autoridades australianas desempenharam nessa terrível situação. Não é aceitável que as autoridades do governo australiano ajudem regimes repressivos a colocar as mãos em pessoas que desejam torturar e deter injustamente, e precisamos garantir que isso nunca aconteça novamente".

O movimento de pressão sobre o governo australiano já chegou inclusive ao Legislativo, que vai abrir inquérito para investigar a ação da polícia federal local. "O tratamento do caso de Hakeem pelas autoridades australianas certamente garante o escrutínio do Senado. A vida e a liberdade de Hakeem estão em sério risco, e precisamos chegar ao fundo de como esta situação terrível aconteceu", comentou o senador Nick McKim, também ao The Guardian.

Enquanto isso, entidades internacionais unem força para tentar tirar Al-Araibi da prisão na Tailândia. Na semana passada, a secretária-geral da Fifa, a senegalesa Fatma Samoura, se reuniu com Craig Foster, líder dos jogadores australianos, e Brendan Schwab, representante da associação de jogadores. Depois do encontro, a Fifa fez um apelo para que a situação fosse resolvida com urgência e para que o jogador não fosse extraditado.

Em nota, o COI também pediu uma solução urgente, em nome dos "valores humanos básicos". Ainda de acordo com o comitê, o presidente Thomas Bach se reuniu com o alto comissário de direitos humanos da ONU, o italiano Filippo Grandi, para discutir a situação.

Quem poderia ter poder para resolver a situação é o presidente da Confederação Asiática de Futebol, o xeque bahremita Salman bin Ibrahim al-Khalifa, que também é vice-presidente da Fifa. Mas ele alega que há 18 meses perdeu o direito de supervisionar a região para evitar conflito de interesses. A desculpa não colou e a FIFPro, associação de jogadores, exige sua renúncia caso Al-Araibi seja extraditado. 

 

Sobre o autor

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Focado na cobertura olímpica, produziu o Giro Olímpico para o UOL e reportagens especiais para a revista IstoÉ 2016. Criador do Olimpílulas, foi colunista da Rádio Estadão e blogueiro do Estadão, pelo qual cobriu os Jogos do Rio-2016.

Está disponível para críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas no demetrio.prado@gmail.com.

Sobre o blog

Um espaço que olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. Aqui tem destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa.