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Olhar Olímpico

Patrocínio ao atletismo paga R$ 1,2 milhão a Thiago Braz

Demétrio Vecchioli

14/01/2019 19h15

Thiago Braz (Phil Noble/Reuters)

A Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) ainda não lançou oficialmente, mas já colocou no ar um novo site. E ali, disponibilizou detalhes antes sigilosos da forma como utiliza os recursos do patrocínio da Caixa Econômica Federal, em um contrato de R$ 60 milhões por quatro anos e cerca de R$ 15 milhões ao ano. Vem causando rebuliço entre treinadores a informação de que só Thiago Braz receberá R$ 1,2 milhão da entidade até 2020.

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Isso significa que, por mês, Thiago Braz recebe da confederação cerca de R$ 28 mil – os pagamentos são quadrimestrais. Também dos cofres públicos, do antigo Ministério do Esporte, sai o pagamento da Bolsa Pódio, que atualmente paga a Thiago outros R$ 11 mil. O saltador também contratado pelo Esporte Clube Pinheiros, de quem recebe salário.

A informação sobre o salário de Thiago tornou-se viral entre atletas e treinadores de atletismo nesta segunda-feira (14), gerando contestações. Outros atletas de destaque ganham expressivamente menos pelo mesmo tipo de contrato de "cessão e direito de imagem, uso de nome, apelido desportivo e voz para promoção, divulgação e publicidade" da Caixa.

Bronze no Mundial de 2017, por exemplo, Caio Bonfim ganhou um contrato de R$ 45 mil por 24 meses. Ou seja: R$ 1,8 mil por mês. Almir Gomes Junior, prata no Mundial Indoor do ano passado, tem um contrato de R$ 60 mil também por 24 meses. Ele ganha R$ 2,5 mil por mês.

Presidente da CBAt, Warlindo Carneiro lembra que o contrato foi assinado por seu antecessor, Toninho Fernandes, em um momento em que Thiago Braz cobrava por reconhecimento depois do ouro olímpico, no início de 2017. "Ele queria muito mais do que isso", relatou o cartola ao Olhar Olímpico, lembrando que o saltador é agenciado pelos pais de Neymar. "Isso foi uma exigência da assessoria dele, do pai do Neymar, foi uma discussão muito grande. Foi um contrato em cima da medalha olímpica de 2016".

Ainda de acordo com Warlindo, o contrato de Thiago é diferente dos demais porque, tendo duração até 2020, com três pagamentos de R$ 100 mil por ano, é um contrato exclusivamente de associação de imagem. Os pagamentos aos demais atletas e treinadores são premiações, os chamados "bichos".

Além de Thiago, também foi beneficiado pelo contrato de imagem o antigo treinador de Thiago, o ucraniano Vitaly Petrov, que agora é apenas consultor da confederação. Mesmo estando baseado na Ucrânia, ele tem um contrato de R$ 200 mil com a CBAt. Outros treinadores brasileiros, desempregados depois do fechamento da equipe da B3, não faturam mais do que R$ 5 mil para cederem suas imagens por dois anos. O próprio técnico de Caio, seu pai, tem um contrato de R$ 22 mil, apenas.

A leva de documentos tornados públicos pela CBAt também inclui o pagamento aos chamados "heróis olímpicos". Medalhistas e embaixadores da parceria entre Caixa e confederação, eles recebem um salário de R$ 6,2 mil pagos pela entidade. Ao mesmo tempo, têm todos direito a voto na confederação, incluindo a aprovação de contas.

Outro lado

 

Em nota, a assessoria de imprensa de Thiago Braz disse que os seus contratos foram assinados "sem qualquer participação de bancos ou outros órgão do governo em qualquer nível". "Todos os contratos foram reajustados ou assinados após Thiago Braz ter conquistado o inédito ouro olímpico no salto com vara, modalidade não popular em nosso país, nos Jogos do Rio de Janeiro. São valores que consideramos justos para um atleta de alto rendimento e que apresenta excelentes resultados em competições internacionais e que até alguns dias atrás mantinha seus treinamentos fora do país e agora está no Brasil tentando manter sua qualidade de preparação", continuou a assessoria.

"Entendemos e gostaríamos que todos os atletas e treinadores tivessem uma remuneração adequada para permitir que eles se dedicassem inteiramente a sua atividade. Um atleta que alcança o patamar de Thiago Braz, com a exposição pública que a medalha de ouro olímpica lhe impõem, deve treinar ainda mais e melhor para manter-se no nível mais alto. E deve ser reconhecido nessa proporção. Esta preocupação com o sustento do atleta deveria ser regra em nosso país. Infelizmente o reconhecimento só aparece após conquistas consagradoras como a do Thiago. É flagrante a falta de apoio ser a regra, o que torna a notícia publicada 'espantosa'. Lamentavelmente, principalmente em razão do esporte olímpico não ser profissionalizado, nossos atletas têm dificuldade, por falta de remuneração adequada e apoio estrutural, em alcançar (e manter) bons resultados em nível internacional. Thiago Braz foi o único medalhista olímpico brasileiro no atletismo na Rio 2016. Tem 25 anos (23 quando conquistou o ouro) e no mínimo mais duas Olimpíadas pela frente para defender o título. Temos orgulho em ter garantido a ele condições para continuar se dedicando integralmente ao esporte. Não podemos nos manifestar sobre outros atletas e treinadores, gostaríamos muito de poder apoiar a todos e ajudar para que cada um deles pudessem se dedicar apenas a treinamentos e resultados, mas ainda não é possível", completou.

Sobre o autor

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Focado na cobertura olímpica, produziu o Giro Olímpico para o UOL e reportagens especiais para a revista IstoÉ 2016. Criador do Olimpílulas, foi colunista da Rádio Estadão e blogueiro do Estadão, pelo qual cobriu os Jogos do Rio-2016.

Está disponível para críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas no demetrio.prado@gmail.com.

Sobre o blog

Um espaço que olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. Aqui tem destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa.