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A vez das mulheres chegou 66 anos depois de Eder Jofre

Demétrio Vecchioli

2009-01-20T19:04:00

09/01/2019 04h00

Atletas de Bauru se enfrentam em luta feminina (reprodução/Instagram)

Patrícia Rovarotto treina boxe há quatro anos e até já trabalhou como árbitra em competições oficiais. Mas nunca lutou, e não é por falta de vontade. Inexperiente, não quer subir no ringue para apanhar de alguém com rodagem muito maior. O mesmo pensam treinadores que já barraram que suas atletas, com menos tempo de treinamento, a enfrentassem. Sem oportunidades, um sem número de mulheres, ao longo das últimas pelo menos sete décadas, penduraram as luvas antes mesmo de calça-las.

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Nunca foi assim com os homens. Há 66 anos, outro jovem lutador estava começando no boxe. A Forja dos Campeões foi a segunda experiência de Eder Jofre, em 1953. O futuro Galo de Ouro venceu a primeira luta por nocaute aos 65 segundos, impressionou torcedores, técnicos e imprensa, e se credenciou para disputar a Olimpíada de Melbourne, em 1956, antes de migrar para o boxe profissional. Miguel de Oliveira, Maguila, Popó, Esquiva Falcão e tantos outros fizeram o mesmíssimo caminho que, agora, enfim, uma mulher poderá também percorrer.

Na última segunda-feira (8), Juliane Pinke Hanisch, de 18 anos, encarou quatro horas de estrada torcendo para que o ônibus cedido pela prefeitura de Bauru aguentasse chegar até o clube Pinheiros, em São Paulo. Estava ansiosa por entrar para a história do boxe brasileiro. Depois de tanto tempo, na 74ª edição do Forja, o mais emblemático torneio amador do país, enfim ela seria uma das participantes da primeira luta feminina do evento.

Mas não foi. O Forja tem como princípio básico ser a primeira oportunidade para boxeadores iniciantes. A equipe de Caraguatatuba, cidade do litoral norte de São Paulo, porém, não respeitou a regra número 1 do torneio e inscreveu atletas já rodados. Os organizadores perceberam e excluíram o time inteiro, incluindo as adversárias de Juliana, na categoria até 64 kg, e de Patrícia, na até 69 kg. As duas lutas femininas da noite acabaram canceladas, com direito a um "pito" do locutor do evento na equipe de Caraguatatuba. 

O episódio só reforçou o ciclo vicioso da falta de atletas e de oportunidades no boxe feminino, para o qual Patrícia é ótimo exemplo. No ano passado, ela até pensou em disputar os Jogos Abertos do Interior de São Paulo, mas desistiu porque não se sentia confiante para encarar atletas mais experientes. Na segunda, estava ansiosa pela estreia quando descobriu que sua adversária, exatamente uma daquelas que havia lutado nos Joguinhos, havia sido eliminada por já ser experiente. Vai ter que esperar mais umas semanas para lutar, já na final do Forja, dia 6 de fevereiro.

Contando as atletas de Caraguatatuba eliminadas, 38 mulheres se inscreveram no Forja dos Campeões. É exatamente o mesmo número de participantes dos Jogos Abertos e pouco menos do que as 40 que competiram no Brasileiro no ano passado. Um universo pequeno que fechava as portas para quem estava começando, como a hoje estrela da seleção brasileira Bia Ferreira, cotada para medalha em Tóquio-2020, que só lutou pela primeira vez aos 21 anos, por falta de oportunidades, como contou ao Olhar Olímpico em novembro.

Forja para Elas

Sarah Andrade vai ter que esperar até o ano que vem para realizar o sonho que ela proporcionou a tantas garotas. Foi a jovem de 18 anos que, no ano passado, lançou pelo Instagram a campanha "#2019ForjaParaElas", pedindo por espaço para o boxe feminino no torneio. A hashtag repercutiu, ganhando repercussão inclusive no Universa, e convenceu os organizadores, da Federação Paulista de Boxe.

Trabalhando em uma ótica e estudando, Sarah não teve tempo para treinar o suficiente para participar da competição que começou na segunda-feira e que vai se prolongar até meados de fevereiro. Está atuando, porém, como uma espécie de repórter oficial do evento.

"Publiquei no Instagram, todo mundo saiu compartilhando e achei incrível. Eu até já saída ótica, mas não me inscrevi porque eu não treinei. Ia vir aqui para apanhar? Não, né? Aí deixei para o ano que vem", diz Sarah, que só tem experiência nos chamados "sparrings", lutas entre atletas de duas academias diferentes.

Decidir não lutar é uma decisão tão ou mais difícil do que a oposta. "Por ser mulher, a gente tem que se provar corajosa o tempo todo. Os treinadores querem te empurrar para lugar: 'É muito mais experiente, dane-se. Você não é corajosa, em que ir lá'. A gente tem que se provar o tempo todo, que tem coragem. Quando fala que não quer lutar, perguntam se a gente está amarelando. Por ser mulher, a gente tem que estar sempre empoderada", desabafa Patrícia, que representa o São Paulo Futebol Clube.

O "empoderamento", aliás, é a tônica desse novo momento para o boxe feminino. Na segunda-feira, a reportagem conversou com seis atletas no Pinheiros. Todas tocaram espontaneamente no tema feminismo, dizendo-se feministas. Para elas, o boxe é uma identidade.

"Eu não escolhi o boxe, o boxe que me escolheu", diz Elhem Taynara, de 19 anos, de Osasco (SP). Ela treinava o boxe "fitness" (recreativo, que visa a modelação do corpo), quando foi convidada para treinar visando lutar. Não pensou duas vezes.

Como ela fez sua colega de equipe, Isabela Soares, também de 19 anos. "Eu acho que eu sempre gostei de luta, mas eu não conhecia bem o boxe. O que me incentivou mesmo foi ir treinando, ver mais de perto", conta. As duas têm cerca de um ano de treinamento e, ainda este mês, farão suas primeiras lutas na carreira. Uma oportunidade que outras incontáveis atletas ao longo dos últimos anos não tiveram.

Por pouco não aconteceu o mesmo com outra lutadora de Bauru, Gabriela, de 33 anos. No boxe há quatro anos, ela também nunca fez mais do que treinos de sparring contra a jovem Juliana, sua colega de equipe. Pelo regulamento do Forja, os boxeadores só são elegíveis até os 34 anos, o que significa que 2018 é a primeira e única oportunidade dela de experimentar o boxe. "O negocio é subir e descer a porrada. No tenho medo de me machucar. Nunca tive. Só não quero perder um dente", brinca, dizendo que, na hora de subir no ringue, porém, a adrenalina vai subir.

Nesta quarta-feira (9), duas atletas terão a oportunidade de "descer a porrada". Karen Kaailane, da Academia Zé da Conceição, e Vagnea Villar, da Equipe Villar Boxe, deverão ser as primeiras mulheres a participarem de uma luta do Forja, abrindo a programação no Pinheiros, às 18 horas. A entrada é franca, pela rua Tucumã, 36, quase na esquina com a avenida Faria Lima.

Sobre o autor

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Focado na cobertura olímpica, produziu o Giro Olímpico para o UOL e reportagens especiais para a revista IstoÉ 2016. Criador do Olimpílulas, foi colunista da Rádio Estadão e blogueiro do Estadão, pelo qual cobriu os Jogos do Rio-2016.

Está disponível para críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas no demetrio.prado@gmail.com.

Sobre o blog

Um espaço que olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. Aqui tem destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa.