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"Ex-Fadinha", de 10 anos, chega à seleção de skate e pode ir a Tóquio-2020

Demétrio Vecchioli

25/11/2018 04h00

Reprodução/Instagram

Rayssa Leal pode se considerar famosa: tem 188 mil seguidores no Instagram. Também talentosa, uma vez que é a segunda colocada do ranking nacional de uma modalidade olímpica, com possibilidades reais de ir aos Jogos de Tóquio. E bem-sucedida, afinal, com o dinheiro ganho em premiação e de patrocinadores, sustenta toda a família. Rayssa, porém, é diferente de qualquer outra atleta brasileira de altíssimo rendimento: ela tem apenas 10 anos. De idade mesmo, não de treinamento.

Talvez você conheça Rayssa como "Fadinha", apelido que pede para não ser mais usado, pois agora já está, diz ela, "grandinha". Depois de ficar famosa em 2015 por um vídeo no qual fazia manobras com uma dessas fantasias que levam as crianças a mundos mágicos, a menina participou de programas de TV e foi pauta de reportagens. Sempre cumprindo o papel de criança prodígio cujo único papel é divertir os adultos.

Mas isso virou coisa do passado. Rayssa agora é gente grande no esporte, aos 10 anos. Este mês, foi terceira colocada do STU Open do Rio no skate street, principal evento da temporada no Brasil. Ficou atrás da popstar Letícia Bufoni (25 anos, campeã mundial, 2 milhões de seguidores no Instagram) e de Pâmela Rosa (19 anos), respectivamente primeira e segunda colocada do ranking mundial da The Boardr, que leva em conta os resultados de diversos circuitos.

No ranking nacional da temporada 2018 da STU, o circuito brasileiro, Pâmela foi a primeira e Rayssa a segunda. Pelos critérios previamente adotados pela Confederação Brasileira de Skate (CBSk), as duas estão garantidas na seleção junto com a terceira colocada, Virgínia Fortes Águas, de 12 anos. Letícia, que mora nos EUA e só disputou duas etapas do circuito, vai ficar com a quarta vaga na seleção.

 

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Onde há fé há sonhos e uma força capaz de os concretizar @timebrasil @cbskskate @nikesb

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Tóquio-2020

No início do ciclo olímpico, cada federação internacional, em trabalho conjunto com o comitê organizador e com o Comitê Olímpico Internacional (COI), publica um documento com os critérios de classificação para os Jogos. Nele, não apenas relaciona sistemas de qualificação e eventos classificatórios como também impõe regras sobre quem pode e quem não pode disputar os Jogos.

Nos esportes de força, o critério de idade é natural. Nos esportes plásticos (cujos resultados são definidos por notas atribuídas por juízes), há regras da idade. A ginástica, por exemplo, não vai aceitar, em Tóquio, mulheres nascidas depois de 2005 em diante – para os homens, o limite é 31 de dezembro de 2002. Nos saltos ornamentais, ninguém nascido a partir de 1º de janeiro de 2007 pode competir.

Novata no mundo olímpico, a World Skate não impôs limite de idade. Por isso, nada impede que Rayssa, que nasceu em janeiro de 2008, esteja em Tóquio. E, como o Brasil pode conquistar até três vagas nos Jogos, há a possibilidade real de ela disputar uma Olimpíada aos 12 anos.

"Esse é um ponto abordado na World Skate, não é um ponto obscuro. Tacitamente não existe limite de idade. Ela se classificou para a seleção pelo critério técnico em um circuito nacional dos mais fortes. A gente como confederação vai dar todo o suporte possível, temos essa obrigação", diz Eduardo Musa, vice-presidente da CBSk.

Ele alega que, diferente da ginástica, onde há um treinamento exaustivo imposto às crianças, o skate exige uma rotina mais leve de treinamento – Ryssa treina 3 horas por dia, segundo os pais. Além disso, afirma Musa, o início precoce no alto rendimento é algo da cultura do skate. De fato, há outros registros. A japonesa Kokona Hiraki também tem 10 anos e, esta temporada, foi campeã asiática da modalidade park. Entre as 100 primeiras do ranking geral da The Boardr, 12 meninas têm 12 anos ou menos.

"Não quero dizer que é uma situação normal, claro que não é. Mas a gente entende que nesse momento, por tudo que está acontecendo, eu prefiro que ela desfrute de tudo que tem na seleção. É melhor do que que barrá-la e dizer: olha, você não vai ter esse benefício de psicóloga, preparador, fisioterapeuta", continua.

 

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De hoje… Heel flip#desfile7setembro #hardflipskateboard #skatefeminino #fadinha #foishow #vivaoskateboard

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Fadinha nunca mais

Conversar com Rayssa é, como de fato deveria ser, conversar com uma criança. Ao telefone, pergunto se o resultado da temporada foi acima do esperado. "Não, eu já esperava", ela diz, ainda tímida. Em seguida, uma resposta na ponta da língua: "Eu queria ser a mais nova a entrar na seleção e ir para a Olimpíada. Quero representar muito bem o estado e o país".

O estado é o Maranhão. Rayssa é da segunda maior cidade de lá: Imperatriz. Ganhou um skate de um amigo do pai, aos seis anos, e começou a andar numa pista que homenageia um jogador de futebol: a Mané Garrincha. Em 2015, disputou um campeonato brasileiro para crianças e ganhou. No ano passado, foi levada pelos pais para disputar, no Rio, o STU Open, contra as melhores do país. "Eu fiquei muito nervosa, mas eu consegui correr e fiquei em 16º lugar", lembra.

A ideia, dizem os pais, não era começar ali uma carreira de skatista profissional – o circuito paga premiação em dinheiro. Apenas mostrar a Rayssa o mundo de possibilidades que o skate poderia lhe proporcionar, incentivando-a a continuar treinando. Mas a então Fadinha foi além. Avisou as mais velhas que "Fadinha" nunca mais, que já era grandinha, e passou a andar de igual para igual com as melhores do país.

Hoje, os pais Haroldo e Lilian têm como único trabalho cuidar da carreira da filha. Já fazem planos, inclusive, de se mudarem para São Paulo, onde ela teria melhor estrutura para treinar. Parte da seleção, Rayssa tem direito a uma ajuda de custo da CBSk, acesso a todo o apoio oferecido pela confederação e pelo Comitê Olímpico do Brasil (COB), e a quatro viagens internacionais para somar pontos no ranking olímpico.

"Não é uma situação natural. Na prática, como a gente tem 16 atletas na seleção, a gente teve um plano bem claro para todos os 16. Mas agora vai ser um plano para 15 e um só para a Rassya. Tem todas as questões particulares dela, desde a logística de treinamento de uma criança de 10 anos até os exames. Tem exame que simplesmente não faz sentido ela faz", conta Musa.

Os pais dizem que não só incentivam a menina a estudar – atualmente ela está no 5º ano – como fazem questão de que ela continue tendo as responsabilidades de uma criança. "A gente quer que a pureza de criança tome conta dela. Ela nunca tem responsabilidade, até mesmo para não subir para a cabecinha dela. Ela brinca bastante. Claro que tem as responsabilidades, tem a escola, mas chega em casa só faz o dever e vira uma criança normal", conta o pai.

Especialização precoce

Enquanto a CBSk diz que, apesar de sua influência sobre a World Skate (fundada com respaldo político de Bob Burnquist, presidente da confederação), não foi convidada a opinar sobre a ausência de limite de idade nos critérios de classificação para Tóquio, a família afirma que entenderia um eventual veto. "A gente é muito consciente. Se o COI barrar, a gente vai ficar um pouco triste, mas vai entender", afirma Haroldo.

Especialistas no tema, porém, criticam a chegada precoce de crianças ao esporte de alto rendimento. "Do ponto de vista emocional, isso é altamente nocivo. A criança deveria ter na infância o desenvolvimento das habilidade motoras seguindo de perto o amadurecimento cognitivo e emocional para lidar com as questões que envolvem a competição, que é do mundo adulto. Quando você compete com alguém tem várias coisas em jogo, interesses comerciais, políticos, não é só uma competição", avalia Katia Rubio, psicóloga do esporte e principal pesquisadora sobre o movimento olímpico no país.

Mesmo nas competições escolares brasileiras a presença de crianças de menos de 12 anos é, quase sempre, vetada. Para Maria Alice Zimmermann, diretora de esportes da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, a especialização precoce é ruim para a criança.

"Ela deixar de brincar, de fazer coisa de criança. Você tá queimando etapas. O fato de ela de repente estar numa Olimpíada vai servir como modelo. Quantas crianças não vão querer fazer o que ela vai fazer? Esse imaginário olímpico é muito poderoso. Quantas crianças não vão se espelhar? Esse espelho é bastante preocupante", continua.

O blog procurou a World Skate, por meio de sua assessoria de imprensa, mas não obteve resposta.

Sobre o autor

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Focado na cobertura olímpica, produziu o Giro Olímpico para o UOL e reportagens especiais para a revista IstoÉ 2016. Criador do Olimpílulas, foi colunista da Rádio Estadão e blogueiro do Estadão, pelo qual cobriu os Jogos do Rio-2016.

Está disponível para críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas no demetrio.prado@gmail.com.

Sobre o blog

Um espaço que olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. Aqui tem destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa.

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