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Blog Olhar Olímpico

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Diogo Soares: o futuro da ginástica treina sozinho em estrutura precária

Demétrio Vecchioli

23/10/2018 04h00

Diogo Soares em Buenos Aires (Jonne Roriz/Exemplus/COB)

Diogo Soares foi aos Jogos Olímpicos da Juventude sem treinar sua melhor série de solo. É que a estrutura do ginásio onde trabalha todos os dias não lhe permite. Também é impossível, para ele, treinar seu melhor salto, seus melhores movimentos nas paralelas ou nas argolas. Mesmo assim, aos 16 anos, saiu de Buenos Aires com duas medalhas no peito, uma delas no individual geral, e a sensação de que dava para fazer mais. Diogo é um exemplo do esporte brasileiro que só discute infraestrutura depois de o talento estar mais do que comprovado.

A nova promessa da ginástica brasileira é protagonista de um filme que se repete. Em 2013, Arthur Zanetti, já campeão olímpico, chegou a ameaçar mudar sua nacionalidade em forma de protesto pelo fato de o ginásio em que treina até hoje, em São Caetano do Sul (SP), não ter recebido melhorias. Na época, também treinava com equipamentos ultrapassados, de segunda linha.

Diogo agora vive situação parecida. Na ginástica desde os 4 anos, é treinado por Daniel Biscalchin, que desde 2006 mantém uma academia particular de ginástica artística em Piracicaba (SP), a Pira Olímpica. Diogo logo se destacou e passou a receber atenção especial. Hoje, treina praticamente sozinho, sem colegas de equipe, acompanhado apenas pelo técnico, em aparelhos de segunda linha e ultrapassados – o mais novo tem 10 anos de uso.

"O solo é muito duro. Tem elementos que eu não consigo fazer porque ele não 'joga' (serve de trampolim). O cavalo é normal, só precisa jogar um couro nele, mas às vezes escorrega a mão. A argola é dura, não tem amortecedor. Machuca muito o ombro. O salto que eu faço em competição eu não consigo treinar: o trampolim até é bom, mas a mesa não. Na paralela eu só treino apoio, não consigo treinar suspensão. E a barra fixa não tem como regular", relata Diogo.

É difícil apontar culpados. A academia é particular – o que impossibilitaria investimentos públicos – e até pouco tempo qualquer pedido por um centro de treinamento na região teria grande chances de ser ignorada. É que a ginástica artística não tem um Mundial Juvenil (a primeira edição será no ano que vem), de forma que o potencial internacional de um atleta brasileiro é difícil também de ser medido. Diogo era uma incógnita.

"Dois anos atrás, a chance de ir para Tóquio-2020 era zero", admite Daniel. O próprio Diogo foi aos Jogos Olímpicos da Juventude sonhando, quando muito, em fazer uma final. Chegou à final em cinco aparelhos, ganhando a prata na barra fixa, e também no individual geral, no qual se sagrou o terceiro jovem ginasta mais completo do mundo, atrás de um japonês e um russo.

O resultado colocou Diogo no radar do Comitê Olímpico do Brasil (COB). Na semana passada, o CEO da entidade, Rogério Sampaio, aproveitou a reunião do Conselho Nacional do Esporte (CNE) para pedir que o ministro Leandro Cruz recebesse o secretário municipal de esporte de Piracicaba, Pedro Mello. A pauta, claro, é um possível investimento para ajudar Diogo a treinar em equipamentos melhores.

O garoto até já teve propostas de outros clubes, mas não quer sair de Piracicaba.  "Se eu me mudar para um clube grande, minha história vai ser a partir daquele clube grande. Não vai ser Piracicaba que conseguiu chegar ao alto nível. É um sonho, sabe? Se eu sair, vai demorar uns 12 anos para tentar formar outro atleta em Piracicaba. Ia acabar com o sonho meu e do meu treinador."

Como fará 18 anos em 2020, Diogo terá idade para disputar a Olimpíada de Tóquio em seu primeiro ano como adulto. Talvez ainda não para brigar por medalhas – esse planejamento é para 2024 -, mas para ajudar a compor uma equipe que tem boas condições de obter resultados históricos. Até lá, a tendência é que ele treine com mais frequência com a seleção brasileira, que tem um centro de treinamento no Rio.

Sobre o autor

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Focado na cobertura olímpica, produziu o Giro Olímpico para o UOL e reportagens especiais para a revista IstoÉ 2016. Criador do Olimpílulas, foi colunista da Rádio Estadão e blogueiro do Estadão, pelo qual cobriu os Jogos do Rio-2016.

Está disponível para críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas no demetrio.prado@gmail.com.

Sobre o blog

Um espaço que olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. Aqui tem destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa.