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CBF não precisa de proteção na Câmara, diz Feldman após derrota de aliados

Demétrio Vecchioli

22/10/2018 04h00

 

Walter Feldman (Divulgação/Rede)

Ao longo dos anos, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) construiu uma rede de proteção no Congresso, especialmente na Câmara. Mas quando a nova legislatura começar, em 2019, a entidade estará desguarnecida. É que a maior parte dos parlamentares historicamente ligados a ela não conseguiu se reeleger – ou nem tentou. Entre os derrotados estão os vice-presidentes Marcus Vicente, que não se reelegeu deputado pelo Espírito Santo, e Fernando Sarney, que viu seus irmãos Roseana Sarney e Sarney Filho serem derrotados ao governo e ao Senado no Maranhão.

Também antigo deputado federal, afastado da política partidária desde 2014, o secretário-geral Walter Feldman diz que a "nova CBF", comandada desde já pelo presidente eleito Rogério Caboclo, não precisa dessa proteção. "A gente não precisa de nada disso. Hoje a gente tem tudo transparente, contas claras, está ampliando o processo de participação, tem sistema de governança, prestação de contas. É um processo feito por um grupo jovem, moderno, que está lá por mérito, que não tem que ser protegido pelo jogo do poder. Estamos muito tranquilos do que estamos fazendo", disse Feldman, em entrevista ao Olhar Olímpico.

O ex-deputado pelo PSDB de São Paulo, que também coordenou a campanha de Marina Silva pelo PSB em 2014, até argumenta que a "rede de proteção" da Bancada da Bola " é "uma visão do Juca (Kfouri, blogueiro do UOL), que influenciou muito a imprensa". Mas ele não nega que a CBF tinha relações próximas com um grupo de deputados: "agora isso não vem ao caso", alega.

A ideia é olhar para frente. "A gente agradece todos que de uma forma ou de outra contribuíram para elevar o debate sobre esses temas (de interesse da CBF), mas a gente precisa ter um sintonia com o Congresso como um todo. Com gente de todos os partidos, do Senado, da Câmara… Precisamos ter uma boa relação institucional, que não dependa só de quem se esforçou para defender as coisas que são adequadas", completa.

Vicente Cândido, sócio de Marco Pelo Del Nero, ex-diretor de assuntos internacionais da CBF e deputado pelo PT de São Paulo, nem tentou a reeleição. Irmão de Fernando Sarney, Zequinha teve só 13,20% dos votos para o Senado pelo PV do Maranhão e não se elegeu. Vice-presidente da CBF, Marcus Vicente (PP-ES) recebeu 44.283 votos e deixa a Câmara após um mandato, apenas, ficando como suplente.

Pai do diretor de desenvolvimento e projetos Gustavo Perrella, Zezé Perrella (MDB-MG) não tentou a reeleição ao Senado – ele era suplente de Itamar Franco, que faleceu após sete meses de mandato. Darcísio Perondi (MDB-RS), que no passado teve campanhas financiadas pela CBF (o que passou a ser proibido em 2009), deixa a Câmara após cinco legislaturas. Há um ano, Juca Kfouri revelou que Perondi tentava obter passaporte diplomático para Marco Polo del Nero ir à Copa da Rússia. Com a candidatura cassada pelo TSE, o presidente da Federação Amapaense, Roberto Góes (PDT-AP) também não se reelegeu.

Na diretoria da CBF, a exceção é Marcelo Aro (PHS-MG), que comanda as relações institucionais da confederação e se reelegeu deputado federal. Presidente do PHS e irmão do presidente da Federação Mineira, ele ainda comemorou a vitória de Carlos Viana para o Senado por Minas, tendo como suplente Castellar Neto, que é vice-presidente eleito da CBF.

Ao mesmo tempo, uma extensa rede ligada a clubes de futebol perdeu força. Não conseguiram se reeleger os deputados federais Jovair Arantes (PTB-GO, ex-presidente do Atlético-GO), Rogério Marinho (PSDB-RN, ex-presidente do ABC), Guilherme Campos (PSD-SP, ex-vice da Ponte Preta), e Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP, ex-presidente da Portuguesa). Este último tentava seu nono mandato. Presidente do Corinthians, Andrés Sanchez (PT-SP) nem tentou a reeleição.

Entre os poucos cartolas que tiveram sucesso eleitoral estão José Rocha (PR-BA), ex-presidente do Vitória, e principalmente Luciano Bivar (PSL-PE), ex-presidente do Sport, que é presidente licenciado do PSL de Jair Bolsonaro e deve ter papel central na Câmara na próxima legislatura.

Defesa do Ministério

Ex-militante do PCdoB, ex-deputado e ex-secretário pelo PSDB e um dos ideólogos da Rede junto com Marina Silva, Walter Feldman prefere não dizer publicamente sua preferência eleitoral neste segundo turno presidencial. Após 42 anos de política, resolveu se afastar.

"Eu não tenho saudade das coisas da política porque penso a vida como ciclos. Foram 52 anos como militante, voluntário, revolucionário, partidário, parlamentar. Não posso reclamar. Foi um ciclo muito longo, tive muitas oportunidades, não posso ter saudade do que acho que completei naquilo que era possível. Eu estou muito feliz na CBF. A gestão sob o comando do Caboclo é uma que vai deixar uma marca profunda no futebol brasileiro."

Em fala durante a reunião do Conselho Nacional do Esporte (CNE), na sexta-feira, em São Paulo, Feldman defendeu que um representante do presidente eleito seja convidado para a próxima reunião do órgão consultivo, daqui a um mês, para ouvir um apelo a favor do esporte. Feldman é um dos que se posiciona contra a fusão dos ministérios da Cultura, Esporte e Educação em torno do MEC, tendência no caso de uma vitória de Jair Bolsonaro (PSL).

"A questão esportiva tem uma fortíssima conexão educacional, mas não só. Ela deve ser muito forte na escola, mas ela tem outras dimensões. Como secretário (na prefeitura de São Paulo) nós fizemos milhares de atividades nos bairros, não ligado à educação. Tem que haver uma integração com a saúde, com a prática esportiva regular. É uma coisa maior. O Ministério do Esporte precisa existir e cada vez mais forte", cobra.

"Eu acho que o esporte brasileiro ele ainda carece de um maior entendimento de sua função. O Brasil nunca deu um tratamento ao esporte que é dado pelos grandes países, que tiveram pleno desenvolvimento, como EUA, Japão e a Europa. Lá, é matéria prioritária", completa.

Bancada da Bola

Além dos políticos já citados, próximos à CBF, o futebol também perdeu outros dois deputados na Câmara: o ex-árbitro Evandro Rogério Roman (PSD-PR) e o ex-jogador Deley (PTB-RJ). O ex-goleiro Danrlei (PSD-RS) foi o único a conseguir a reeleição, enquanto que ex-jogadores como Marcelinho Carioca, Ademir da Guia e Galatto falharam na tentativa de chegarem à Câmara.

 

 

 

Sobre o autor

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Focado na cobertura olímpica, produziu o Giro Olímpico para o UOL e reportagens especiais para a revista IstoÉ 2016. Criador do Olimpílulas, foi colunista da Rádio Estadão e blogueiro do Estadão, pelo qual cobriu os Jogos do Rio-2016.

Está disponível para críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas no demetrio.prado@gmail.com.

Sobre o blog

Um espaço que olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. Aqui tem destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa.