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Armadora trans joga contra homens enquanto sonha em ser reconhecida mulher

Demétrio Vecchioli

03/08/2018 04h00

Se pudesse escolher, Danny carregaria na bolsa um RG com o nome "Daniella", não teria resquícios do corpo masculino e jogaria basquete em um time formado apenas por mulheres. Só que, aos 22 anos, a armadora do time da cidade de Itumbiara (GO) não pode escolher. Sonhos como o dela custam caro e são quase inacessíveis no interior do país. Só lhe resta o desconforto de fazer jogos oficiais contra homens com força muito superior à dela e a vergonha de ter que apresentar um documento com outro nome.

"Eu só queria poder jogar basquete em um time feminino, como qualquer outra menina, e cursar uma faculdade. Mas me assusta saber que vou ter que chegar na faculdade e todo semestre conversar com seis, sete professores, para pedir para me chamarem pelo meu nome, sabendo que nem todos vão ser legais", diz Danny, que joga como armadora e tem a craque Adrianinha como referência.

Nascida em um corpo masculino, Danny diz que nunca se reconheceu como outra coisa que não uma mulher. Adotada aos 3 meses, enfrentou ainda na pré-adolescência o medo da rejeição dos pais adotivos, que inicialmente relutaram em aceitá-la mulher. "No início eles puseram pressão, que é normal, porque ninguém quer o sofrimento dos filhos. Sabe que você vai passar por situações desagradáveis. Dentro de mim eu me sentia presa, pensava que nada ia dar certo, sofria com aquilo. Hoje todo mundo me apoia."

O apoio, porém, esbarra no limite financeiro. Danny adotou esse nome ainda aos 14 ou 15 anos, tendo como espelho uma amiga de nome Daniela, também negra de cabelos longos. Também foi naquela época que ela começou a juntar o pouco dinheiro que ganhava e a comprar medicamentos que ajudassem no tratamento hormonal. "Fazer o tratamento correto custa pelo menos de R$ 300 a R$ 400 por mês e eu não tenho esse dinheiro. Então eu tomo quando dá", conta.

A história de Danny exemplifica a dificuldade passada por jovens atletas transexuais. Uma das críticas ao fato de Tifanny jogar no vôlei feminino está relacionada ao fato de ela ter tido uma puberdade masculina. Evitá-la, porém, é trabalho árduo. "É muito complicado, porque uma pessoa com 15 anos não tem renda nenhuma. Eu pedia dinheiro e juntava dinheiro meio escondido para tomar os anticoncepcionais. Eu creio que tive muita sorte porque não desenvolvi muito corpo masculino", avalia a jogadora de basquete.

A falta de orientação e de apoio financeiro em Tupaciguara (MG), porém, impedem que outras duas barreiras sejam superadas: o início do processo legal tanto para a cirurgia de mudança de sexo quanto para a mudança de gênero no RG. "Ainda não sei quando isso vai acontecer".

Times masculinos

O basquete veio antes do nome Danny e o processo de mudança de gênero social. Ou seja: as primeiras cestas foram na escolinha para os meninos de Tupaciguara. E também as cestas seguintes, por anos a fio. Mesmo com os traços femininos, Danny continuou jogando na equipe masculina. Não por escolha própria.

"Eu não posso por causa da documentação. Eu cheguei a ficar um tempo parada, também um pouco por ser trans. Tinha medo de enfrentar os meninos, medo de preconceito. Voltei depois de uns dois anos e as meninas me chamaram para jogar um campeonato. A gente tentou inscrever, mas ia ter que falsificar os documentos, o que é ilegal, eu poderia ser presa. Aí nunca joguei com mulheres", relata.

A convivência com os jogadores da região de Tupaciguara, porém, atenuou preconceitos. Como cresceu junto com os amigos, Danny diz que não sofre rejeição por parte deles. Tanto que foi convidada a jogar os Jogos Abertos de Goiás pelo time da cidade de Itumbiara, que fica próxima à divisa com Minas Gerais. Topou, ainda que a competição seja desleal.

"Sempre me senti em desvantagem. Por causa do tratamento, minha testosterona é muito mais baixa, tenho mudança de humor. Sou armadora, mas não consigo ter contato direto. Se eu for em direção à cesta e bater de frente com o marcador, vou voar para longe. Com qualquer contato, por eu ser mais fraca, eu já perco o equilíbrio."

Mesmo assim, Danny diz não se acanhar. Não fez muitos pontos, diz, mas participou com regularidade das partidas, entrando inclusive como titular. O sonho, porém, é jogar contra mulheres, como ela. "Quero mudar de sexo e fazer faculdade, quem sabe jogar no time da faculdade. Sempre vai ter gente para colocar defeito, falar coisa, mas crítica é igual vento, só deixar passar."

Sobre o autor

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Focado na cobertura olímpica, produziu o Giro Olímpico para o UOL e reportagens especiais para a revista IstoÉ 2016. Criador do Olimpílulas, foi colunista da Rádio Estadão e blogueiro do Estadão, pelo qual cobriu os Jogos do Rio-2016.

Está disponível para críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas no demetrio.prado@gmail.com.

Sobre o blog

Um espaço que olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. Aqui tem destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa.

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