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Aos 42, Jaque Mourão recomeça do zero no ciclismo e mira 8ª Olimpíada

Demétrio Vecchioli

26/07/2018 04h00

Jaqueline Mourão vence o Brasileiro de MTB (Fabio Piva/PivaPhoto.com)

Após pedalar por mais de duas horas e encerrar o mountain bike de Pequim-2008 na 19ª colocação, Jaqueline Mourão desceu da bicicleta e prometeu para si mesmo nunca mais participar de uma prova de ciclismo. Dez anos depois, em maio, a promessa foi quebrada. Aos 42 anos, a mais longeva atleta olímpica brasileira não só voltou ao MTB como já se tornou campeã nacional. Se tudo der certo, ela ainda irá às suas sétima e oitava Olimpíadas, em Tóquio-2020 e, depois, Pequim-2022.

A decisão de parar em 2008 e passar a se dedicar integralmente ao esqui cross-country foi causada por uma mágoa com a Confederação Brasileira de Ciclismo (CBC), que fez ela, responsável por garantir uma vaga olímpica ao país naquele ano, ter que participar de seletivas nacionais para ir a Pequim, atrapalhando sua evolução nas provas internacionais. "Foi bem estressante e frustrante", lembra.

Naquele momento, Jaqueline já era casada com o também ciclista Guido Visser. Morando no país dele, o Canadá, e tendo-o como treinador, a brasileira começou a se dedicar ao esqui cross country em 2005 e, desde então, foi a quatro edições dos Jogos Olímpicos de Inverno: Turim-2006, Vancouver-2010, Sochi-2014 e PyengChang-2018. Na Rússia, há quatro anos, competiu também no biatlo.

 

"Eu sempre tive aquela dúvida do 'e se?'. E se eu tivesse continuado no ciclismo? O esqui me supriu a necessidade de competir. Melhorei fisicamente com o esqui, consegui pódios em competições na América do Norte, e hoje me sinto mais forte. Depois da Olimpíada de Inverno, fiz um mês de transição física e usei uma bike que você pode pedalar na neve. E todo meu amor pela bike voltou. Percebi que eu adoro isso aqui, eu gosto demais disso aqui", conta.

 

Inicialmente, diz Jaqueline, os planos estavam ligados ao esqui. A brasileira pretende encerrar sua carreira na neve na prova de 30km em Pequim-2022, mas para isso precisa de mais resistência. Voltar ao mountain bike foi uma saída. Para isso, a bike novinha, modelo 2017, que estava parada há um ano, enfim rodou pela primeira vez. Em maio, Jaquline disputou duas provas locais no Canadá, fez um sétimo e um quarto lugares, e somou pontos no ranking mundial. Com isso, também garantiu a possibilidade de disputar etapas da Copa do Mundo, contra as melhores do mundo. Pagando do bolso, foi à Itália e a Andorra no início do mês.

Da Europa, veio ao Brasil. No domingo, disputou o Campeonato Brasileiro, em São Paulo, e se sagrou campeã, título que havia sido dela pela última vez há mais de uma década. Após dois meses de uma carreira que começou do zero, já deve aparecer entre as 180 primeiras do ranking mundial.

Novos planos

Jaqueline foi por dez anos uma ex-ciclista, mas não se afastou da comunidade do mountain bike. Durante um período, teve um projeto no qual recebeu jovens talentos brasileiros no Canadá. Pela casa dela – literalmente – passaram Raiza Goulão, hoje 15ª colocada do ranking mundial, e Letícia Cândido, segunda melhor brasileira na lista, entre outras atletas. Uma delas, que também foi ao pódio do Brasileiro, na base, por pouco não foi literalmente adotada pela veterana.

"Essas meninas passaram pelo meu projeto e hoje eu vejo que a gente tem chances reais de classificar duas brasileiras para Tóquio. Se a gente tiver apoio, pela primeira vez é um sonho possível, real", diz Jaqueline, empolgada, levando em consideração que no Brasileiro deixou para trás Raiza, que recentemente era Top10 do mundo.

O nível técnico para terminar o ranking olímpico de nações entre os sete primeiros colocados existe e faz Jaqueline pensar em mudar de planos. A ideia inicial era voltar ao ciclismo para ver o que ia dar, mas manter o foco no esqui, até porque ela é apoiada pela Confederação Brasileira de Desportos na Neve (CBDN) e tem um planejamento já desenhado para 2022. Mas o amor por andar de bicicleta e a o espírito competitivo já fazem a veterana sonhar em fazer de Tóquio-2020 sua sétima Olimpíada.

Para isso, são necessários recursos. Ela pagou do bolso para ir à Europa para as Copas do Mundo, ficou até de madrugada consertando a bicicleta e não tinham quem lhe entregasse água durante a prova – em Andorra, teve que pedir favor a uns brasileiros que também estavam por lá. Dez anos depois de sua última prova desse nível, largando na última fila, deixou 17 rivais para trás numa prova (terminou em 40º) e 18 na outra (em 51º).

"Antes do Brasileiro das Copas do Mundo eu não pensava em Tóquio. Agora eu sei que posso ficar entre as três melhores do Brasil. Eu estou ainda em ascensão. Não tive base na temporada, está tudo muito recente. Se conseguir fechar com uma equipe, ter uma estrutura mínima de brigar pelo alto rendimento, acho que dá", diz Jaqueline, empolgada.

Em um momento único na história do MTB no Brasil, com Henrique Avancini no segundo lugar do ranking mundial masculino, há bastante investimento privado na modalidade. Tanto que o campeonato nacional foi no domingo e, nesta quarta-feira, Jaqueline revelou ao Olhar Olímpico que já está estudando propostas. "Se o COB pegar essas três meninas e investir para que a gente possa fazer provas importantes, Copas do Mundo, a gente tem grande chance. Mas precisa primeiro ter estrutura", conclui.

 

 

 

 

Sobre o autor

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Focado na cobertura olímpica, produziu o Giro Olímpico para o UOL e reportagens especiais para a revista IstoÉ 2016. Criador do Olimpílulas, foi colunista da Rádio Estadão e blogueiro do Estadão, pelo qual cobriu os Jogos do Rio-2016.

Está disponível para críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas no demetrio.prado@gmail.com.

Sobre o blog

Um espaço que olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. Aqui tem destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa.