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Olhar Olímpico

O que os Jogos Sul-Americanos deixam de bom para Tóquio-2020

Demétrio Vecchioli

09/06/2018 04h00

Nubia Soares salta em Cochabamba

Em 2014, o Brasil foi o campeão geral dos Jogos Sul-Americanos de Santiago, no Chile, num título inédito fora de casa. Naquele momento, a competição foi vista como um primeiro teste pensando na Olimpíada do Rio. Quatro anos e um ciclo completo depois, os Jogos Sul-Americanos de Cochabamba, na Bolívia, encerrados nesta sexta-feira, tiveram outra função. O evento regional perdeu o caráter de teste para a delegação e ganhou o perfil de porta de entrada para Tóquio-2020.

Com um mapeamento cada vez mais abrangente e detalhado dos atletas brasileiros de alto-rendimento, o Comitê Olímpico do Brasil (COB) levou a Cochabamba muito mais esportistas que estão chegando ao nível internacional, de até 23 anos, do que competidores que podem ser considerados prontos – como Arthur Zanetti e Isaquias Queiroz, que foram à Bolívia e ganharam suas provas. Ambos foram exceção na enxuta delegação brasileira (apenas a sétima maior dos Jogos), cada um por seu motivo. A ginástica levou uma equipe forte para testar os aparelhos de um novo fabricante. A canoagem velocidade pouco compete internacionalmente e Jesus Morlán não quis perder essa oportunidade.

Na ginástica, o Brasil sobrou. Em outras, nem tanto. Mesmo assim, muita gente deixou boa impressão, ainda que competindo contra rivais que não estão na elite mundial. Abaixo, o Olhar Olímpico mostra 13 motivos para sorrir.

Núbia Soares (foto)

Grande destaque da delegação brasileira. Ainda abalada pelo seu técnico e mentor, Tide Junqueira, fez sua primeira competição da temporada e bateu o novo recorde brasileiro do salto triplo. Marcou 14,59m, apesar de ter saltado apenas duas das seis vezes permitidas – a altitude de Cochabamba não permitiu mais que isso. O outro salto, ela disse, foi "muuuuito bom" (acima de 14,80m), mas Núbia pisou na tábua.

O resultado válido (14,59m) a deixaria em sétimo na Olimpíada passada, em prova vencida pela colombiana Caterine Ibargüen e que teve a venezuelana Yulimar Rojas com a prata. Nenhuma das duas foi à Bolívia. Estão em outro nível da carreira. Nível esse que Núbia, aos 22 anos, também tem tudo para entrar.

Giovana Cavaleti vence no heptatlo

Velocidade na altitude

Em provas que demandam resistência, a altitude de Cochabamba atrapalha bastante. Mas, nas provas de velocidade e saltos horizontais, ajuda. Isso deve ser levado em conta não apenas no que tange ao resultado de Núbia, também aos seguintes:

Giovana Cavaleti, no heptatlo, fez o terceiro melhor resultado da história do país, apenas atrás de Vanessa Chefer e Lucimara Silvestre. Apesar dos 29 anos, Giovana pode ser considerado nome novo na elite do atletismo brasileiro. Outro nome novo é Eduardo dos Santos Rodrigues de Deus, de 23 anos, que ganhou os 110m com barreiras com 13s44. A marca é a segunda melhor do país em quase uma década, ficando apenas atrás dos 13s38 que Gabriel Constantino conseguiu recentemente nos EUA.

Eliane Martins, do salto em distância, por sua vez, foi prata, mas com 6,66m. Finalista no Mundial de Londres, ano passado, ela teria sido sétima com esse salto. Nos 200m, Vitória Rosa foi ouro com 22s87, melhor resultado de brasileiras desde 2015 e que deixa em sexto no ranking nacional de todos os tempo.

Triatlo

Na primeira viagem de Marco La Porta como vice-presidente do COB – e também chefe de equipe -, o triatlo brilhou. A equipe que já o teve como técnico e presidente ganhou quatro medalhas de cinco possíveis. Manoel Messias, de 21 anos, ganhou no masculino e Luiza Batista, de 23, foi prata no feminino. Ambos têm boas chances de estarem em Tóquio.

Isaac Souza (foto acima)

Isaac Souza, de 18 anos, teve bom desempenho nos saltos ornamentais. Ainda que tenha sido prata na plataforma, sua nota de 391 pontos representa uma evolução de 32 pontos na comparação com a etapa do Canadá do Grand Prix. Ingrid Oliveira, por sua vez, manteve a regularidade e foi ouro numa apresentação de 293 pontos. Os dois já começam a demonstrar nível para serem semifinalistas de Mundiais e Olimpíada. Em Cochabamba, o Brasil não competiu nas provas de plataforma (3m).

Beatriz Ferreira

Dos oito boxeadores brasileiros em Cochabamba, só seis ganharam medalhas, e três delas foram de bronze. De forma geral, o resultado foi ruim para a modalidade, que vive momento de forte renovação. Como comparação, em 2014, haviam sido seis ouros e todas as 11 medalhas possíveis. Dessa vez, só vieram dois ouros, um deles com Beatriz Ferreira, na categoria até 60kg. Mostrou, mais uma vez, que é forte candidata ao pódio em Tóquio. De resto, a equipe deve ser preparada para Paris-2024.

Natália Gaudio (foto, à esquerda)

Os números impressionam: foram oito medalhas de ouro em oito possíveis, ainda que nos Jogos Olímpicos e Pan-Americanos só duas estariam em jogo. Mas, muito mais importante, foram as notas alcançadas por Natália Gaudio. Seu resultado na casa de 63 pontos a coloca dentro do grupo das 15 melhores do mundo. Uma evolução histórica para quem foi 35ª no Mundial do ano passado, competindo na casa de 55 pontos. A ver se as notas não foram infladas. Por equipes, o Brasil, 13º do mundo em 2017, ganhou tudo em Cochabamba mas não se apresentou bem.

Ginástica artística

Com 10 medalhas de ouro e sete de prata, o Brasil sobrou em Cochabamba. A equipe tinha nomes como Arthur Zanetti, Caio Souza, Jade Barbosa e Flávia Saraiva, num misto com jovens promissores. Em aparelhos desconhecidos, nos quais os brasileiros nunca haviam treinado, o Brasil só não ganhou medalhas no solo masculino – medalhistas olímpicos, Arthur Nory e Diego Hypolito estão machucados. No individual geral não veio ouro, mas duas pratas e dois bronzes. Nesse momento, o importante parece ser ter equipes homogêneas, e o Brasil tem isso.

Judô

O Brasil enviou uma equipe jovem de judô, com lutadores nascidos a partir de 1996. E os melhores resultados vieram com os mais velhos: Larissa Pimenta (52kg) e Leonardo Gonçalves (100kg), ambos campeões. Michael Marcelino também foi ouro, na até 66kg, enquanto David Lima foi prata na até 73kg e Giovani Ferreira na até 90kg. Esses quatro resultados masculinos são importantes porque vieram nas categorias que o Brasil mais precisa de renovação atualmente. A tendência, porém, é no máximo dois dos judocas que estiveram em Cochabamba briguem por vaga em Tóquio. O olhar deve estar em 2024.

Laís Lunes

O wrestling brasileiro continua dependente do feminino. Mas o grande nome do país não é mais Aline Silva e, sim, Laís Nunes. Em Cochabamba, ela faturou o ouro na categoria até 62kg, vencendo no caminho a colombiana Jackeline Rentería, bronze no Mundial do ano passado (única medalha de um sul-americano na competição). Guilia Penalber e o jovem Joilson Junior, de 21 anos, também foram ouro. Aline Silva faturou prata.

Jovens do peso

No levantamento de peso, o Brasil só levou cinco jovens. Luana Madeira (167kg) e Emily Rosa (162kg) foram respetivamente prata e bronze na categoria até 48kg. No último ano de juniores, estão as duas entre as 40 melhores do mundo. Estão também entre as favoritas a representarem o Brasil na Olimpíada de Tóquio.

Tênis de Mesa

Há algum tempo o Brasil é soberano no tênis de mesa regional. Foi assim de novo, com seis medalhas de ouro de sete possíveis. A boa novidade é que o título masculino veio mesmo com uma equipe B. Vitor Ishy foi campeão do individual. Essa renovação pode fazer a diferença num cenário em que o Brasil está a um passo de entrar no hall dos times mais fortes do mundo. No feminino, ouro para Bruno Takahashi, de só 18 anos.

Índia Yaci

Graziela Paulino dos Santos, de 22 anos, tentou se tornar a primeira índia a representar o Brasil numa Olimpíada. Não foi no Rio, mas pode ser em Tóquio. No Sul-Americano, ela ganhou o ouro no tiro com arco, numa final nacional contra Ana Clara Machado, de 18. A equipe também foi campeã no feminino. O irmão dela, Gustavo, ajudou o time masculino a ser prata. Um bom resultado para quem foi a Cochabamba com o time B.

Natação

Com 17 medalhas de ouro e 31 no total, o Brasil fez a obrigação ao liderar o quadro de medalhas, mesmo levando a Cochabamba um time sub-21. Num momento de intensa transição na seleção principal, com a chegada da "geração 2020", destaque para Guilherme Costa (um ouro e uma prata), Fernando Scheffer (ouro nos 200m livre), Gabriel Fantoni (dois ouros nas provas de costas) e Breno Correia (ouro nos 100m livre). Mas ninguém brilhou mais que Gabrielle Roncatto, que ganhou quatro provas. Aos 19 anos, ela, que sempre foi apontada como grande promessa da natação feminina, pode aproveitar o momento de moral em alta para entregar o que sempre se esperou dela.

De forma geral, os tempos feitos em Cochabamba não podem ser comparadas com marcas feitas em outros eventos. Isso tanto pela altitude, que deixa as provas mais lentas, quanto pelo fato de a competição ter ocorrido no meio da temporada.

🙁 Decepção

🙁 Remo

É a modalidade olímpica na qual o Brasil mais regride. Em Cochabamba, foram só quatro medalhas de bronze, sempre atrás de Chile e Argentina em provas de duplas. Nas disputas individuais, os brasileiros ainda ficaram atrás dos uruguaios, também.

🙁  Nado artístico

Luisa Borges e Maria Clara Lobo ficaram apenas com a prata no dueto, na natação artística (ex-nado sincronizado), atrás da Colômbia. Acostumado a ser terceira força pan-americana, o Brasil perdeu esse posto em Toronto-2015 e agora parece cair mais uma posição.

🙁  Canoagem

Não dá para dizer que a canoagem, que viu Isaquias Queiroz ganhar duas provas em Cochabamba, decepcionou completamente. Mas o desempenho em 2018, com quatro ouros, foi pior do que em 2014, quando o Brasil levou cinco medalhas douradas. Isso apesar de um pesado investimento do BNDES na modalidade. Os resultados na canoa feminina e no caiaque, se não são ruins, estão aquém da expectativa.

🙁 Ciclismo

Anderson Ezequiel e Julia Alves dos Santos são os expoentes da "geração 2020" do BMX brasileiro, mas não conseguiram subir ao pódio nos Jogos Sul-Americanos. Ao que tudo indica, não serão eles os representes dos Brasil em Tóquio, mas os mesmos do Rio: Renato Rezende e Priscila Carnaval. No mountain bike, Luiz Cocuzzi mostrou que é o segundo nome do país e foi prata. Na estrada, todo mundo sentiu o efeito da altitude.

🙁 Esgrima

Outra modalidade em que o Brasil liderou o quadro de medalhas em 2014, sem força máxima, e desta vez foi só terceiro colocado. Novamente sem força máxima, mas com poucos desfalques. Fica claro que a arma mais forte do país é o florete, que deu dois ouros por equipes e um com Guilherme Toldo. Na espada foram duas pratas no individual. Toldo, além de Alexandre Camargo e Nathalie Moellhausen (que não foram a Cochabamba) parecem ser as poucas esperanças de algum resultado expressivo internacionalmente.

🙁 Hóquei sobre a Grama

Modalidade que teve a oportunidade de disputar sua primeira (e possivelmente única em muito tempo) Olimpíada, o hóquei sobre a grama não aproveitou a chance para evoluir. Até ganhou um bronze no masculino, vencendo a Venezuela, depois de perder nos pênaltis o mesmo duelo em 2014. A evolução é mínima. No feminino, ficou em quarto, como há quatro anos.

🙁 Karatê

Na primeira vez que o Karatê fez parte do Time Brasil como modalidade olímpica, decepção. Em Cochabamba, o Brasil foi só terceiro no quadro de medalhas, com apenas um ouro, de Valéria Kumizaki, cotada para pódio em Tóquio. Outro brasileiro desse nível, Douglas Brose se machucou na Bolívia. Todo o restante da equipe não conseguiu ir ao lugar mais alto do pódio.

Sobre o autor

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Focado na cobertura olímpica, produziu o Giro Olímpico para o UOL e reportagens especiais para a revista IstoÉ 2016. Criador do Olimpílulas, foi colunista da Rádio Estadão e blogueiro do Estadão, pelo qual cobriu os Jogos do Rio-2016.

Está disponível para críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas no demetrio.prado@gmail.com.

Sobre o blog

Um espaço que olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. Aqui tem destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa.