Blog Olhar Olímpico

Quem é o maratonista amador que surpreendeu o planeta ao vencer em Boston?

Demétrio Vecchioli

17/04/2018 04h00

(Keith Bedford/The Boston Globe via Getty Images)

Pegue a maior parte do que ensinam as principais publicações de corrida do mundo e jogue fora. Se existe uma fórmula para um corredor chegar ao ápice da carreira, Yuki Kawauchi fez tudo ao contrário. Olhando seu programa de treinos, ele tinha tudo para se encaixar em algum lugar entre os quase 30 mil amadores que disputaram a Maratona de Boston, segunda-feira de manhã, sonhando quando muito em completar a prova abaixo de 3 horas. Mas o japonês de 31 anos foi muito, muito além. Venceu uma das seis maratonas mais importantes da temporada e colocou seu nome na história, como primeiro japonês a ganhar em Boston desde 1987.

Fazendo uma comparação com o futebol, maior paixão dos brasileiros, é como se um bom jogador de time de várzea, que nunca sequer teve um técnico, desses que joga três partidas por fim de semana, por pura diversão, fosse decisivo em uma final de uma Copa do Mundo. E não pelo Brasil, mas pelo Japão.

É que o Japão, ainda que tenha alguma tradição nas maratonas, não é exatamente uma potência neste tipo de prova. Na temporada passada, das 100 melhores marcas do mundo, 97 foram de africanos – e três de japoneses. Até é comum que um queniano, por seu porte físico, surpreenda e consiga um bom resultado em um dia especial, mesmo sem um treinamento adequado. Mas para um japonês isso é mais difícil.

Tudo isso para explicar um pouco o feito de Kawauchi, um atleta único no esporte. Não exatamente por ser amador. Milhões de outros corredores conciliam o trabalho com os treinos. No caso do japonês, o expediente como inspetor em uma escola de Saitama, onde mora. O que faz de Kawauchi é o que ele consegue tirar desses treinos. Não à toa, a imprensa especializada há tempos o chama de “corredor amador mais famoso do mundo”. Até porque ele adora uma mídia – recentemente bateu o recorde mundial de meia-maratona entre pessoas vestindo terno.

Correr, para ele, é uma diversão. Kawauchi não tem, nem de longe, a estrutura básica de um treinador profissional. Isso significa que ele não tem treinador, não frequenta um clube ou academia, e nem tem um grupo de corrida. Ainda que seja bastante famoso, não é patrocinado. Já recebeu inúmeras propostas, mas não aceita qualquer tipo de dinheiro porque, no Japão, funcionário público só pode ter um emprego. Comparativamente, é como se ele estivesse na NCAA, liga universitária norte-americana. Com a diferença de que não planeja sair de lá.

Sem dinheiro, ele, claro, também não faz treinamentos em altitude, regra presente em qualquer cartilha de um grande maratonista. Essa mesma cartilha prega que não se deve correr muitas maratonas em alto nível em um mesmo ano. Quando muito, um corredor faz três maratonas na temporada – o comum são duas. No ano passado, Kawauchi correu 12, além de outras várias meias-maratonas. Em média, corre mais de 35 vezes por ano. E fez isso sem baixar o nível de resultado: em todas as maratonas completou abaixo de 2h20min – ou seja, no pelotão de elite.

A revista Dead Spin publicou um levantamento sobre ele em janeiro. Apesar de ser amador, Kawauchi não só foi melhor do que qualquer corredor norte-americano no ano passado como, desde 2011, tem mais sub-2h10 (ou seja, provas abaixo de 2h10min) do que os Estados Unidos inteiros. Não à toa, ele é o recordista mundial em sub-2h20min: agora já são 79 na carreira.

A mesma reportagem da Dead Spin apontou outras regras da cartilha básica do maratonista, que Kawauchi faz o contrário. Não apenas o óbvio, como não ter acesso a equipamentos modernos (ele malha em casa), uma nutrição balanceada e recursos de ciência do esporte. Mas também, por exemplo, correr uma vez só por dia.

Via de regra, um corredor de alto rendimento vai para a pista duas vezes ao dia. Normalmente, uma no começo da manhã e outra à tarde/noite. Kawauchi, que trabalha 8 horas por dia, faz isso apenas à tarde. Pelos seus cálculos, isso significa correr cerca de 400km a menos por mês, o que abre a brecha para ele participar de mais provas. Além disso, os próprios treinamentos do japonês são diferentes, com em um ritmo mais lento – mais jogging, menos sprint. Se a regra é fazer distâncias gradativas antes de uma maratona – usando uma meia-maratona para “aquecer” -, o campeão de Boston faz ao contrário, participando com regularidade de ultras-maratonas.

Também os objetivos de Kawauchi são descritos como pouco usuais. A um site japonês, ele explicou que não coloca como meta correr uma maratona abaixo de 2h06min – o que o colocaria dentro de um grupo de candidatos a uma medalha olímpica. Mais do que velocidade, importa a ele a ele a regularidade. Assim, correr muitas vezes abaixo de 2h12 significa estar sempre no Top10 de uma maratona, mesmo das mais importantes. Enquanto isso, quem treina para bater um recorde tem grande chance de ou se machucar ou falhar.

Não à toa, Kawauchi descreveu a condição climática da prova em Boston – frio e chuva torrencial – como ideal para ele. Afinal, acostumado a correr provas entre 2h10min e 2h20min, ele estava confortável com o ritmo imposto. Nos últimos cinco quilômetros, não só tirou a vantagem do então líder, o queniano Geoffrey Kirui, como abriu mais de 2 minutos de frente sobre o atual campeão mundial.

A vitória foi a 28ª de Kawauchi em maratonas. Nono colocado no Mundial de Londres do ano passado, ele é famoso desde que foi terceiro em Tóquio, em 2011, com um resultado que o deixaria em quinto no ranking brasileiro de todos os tempos. Depois, conseguiu vitórias em Sydney, Perth (Austrália) e Oslo (Noruega), além de provas locais no Japão.

 

 

 

 

 

 

 

Sobre o autor

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Focado na cobertura olímpica, produziu o Giro Olímpico para o UOL e reportagens especiais para a revista IstoÉ 2016. Criador do Olimpílulas, foi colunista da Rádio Estadão e blogueiro do Estadão, pelo qual cobriu os Jogos do Rio-2016.

Está disponível para críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas no demetrio.prado@gmail.com.

Sobre o blog

Um espaço que olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. Aqui tem destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa.

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