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Olhar Olímpico

Vôlei na neve sonha igualar praia, mas Olimpíada ainda não está nos planos

Demétrio Vecchioli

16/03/2018 04h00

Partida de vôlei na neve na Turquia (divugação/CEV)

No curling, a protagonista é a pedra. No hóquei no gelo, o papel é dividido pelo taco e pelo puck (disco). Nas provas de esqui, o próprio esqui – assim como a prancha no snowboard e o patins na patinação. No bobsled e no luge, a atenção está sobre o trenó. Não é difícil constatar algo claro: não existe bola nos esportes de neve.

Elemento central em boa parte das modalidades outdoor de verão (futebol, tênis, hóquei sobre a grama, rúgbi, golfe, beisebol), a bola vai para dentro do ginásio quando o inverno chega no hemisfério norte. A Federação Internacional de Vôlei (FIVB) e uma agência de marketing esportivo austríaca, porém, querem inverter essa lógica, com o desenvolvimento de uma nova modalidade: o vôlei de neve.

"Ontem de manhã aproveitei o dia para levar meus filhos esquiar em uma estação aqui perto. Eles foram fazer aula de esqui, tinha neve para caramba, e eu fiquei 1 hora, duas horas sem nada para fazer. Se tivesse uma quadra, eu certamente me arriscaria a brincar. Estaria amarradão jogando 'snow volley"', contou ao blog Fábio Azevedo, diretor-geral da FIVB, e um dos sete brasileiros que trabalham na entidade, sediada em Lausanne, na Suíça.

Ele é um dos entusiastas do projeto, que surgiu com a Chaka², uma agência criada por dois ex-funcionários da Red Bull. Foram eles quem levaram a proposta do vôlei de neve para a Confederação Europeia de Volley (CEV), responsável por organizar um evento internacional pela primeira vez no começo de 2016. Até então, a modalidade era praticada na Rússia e, principalmente, na Áustria, mas sem uma padronização.

Por enquanto, as regras são as mesmas do vôlei de praia: dois jogadores para cada lado, rede de 2,24m de altura para as mulheres e 2,43m para os homens. O que muda mesmo é a superfície. "É mais fácil jogar snow do que beach, porque não é tão fofo quanto na areia. Você só tem que jogar de bota, mas as botas que você anda na neve servem para jogar. Quem compete tem usado calçado de futebol, chuteira, mas com o desenvolvimento da modalidade devem surgir calçados específicos", explica Azevedo.

Assim como o futebol se tornou popular dentro da ótica de que com dois pares de chinelo e uma bola já é possível começar a brincar, o vôlei na neve também aposta na maior facilidade de prática na comparação com outros esportes de inverno. "Talvez seja o único que qualquer pessoa possa entrar e jogar. Você quer esquiar, tem que ter equipamento, tem que saber esquiar. Na patinação, tem que saber patinar. Hóquei, então, nem se fala. O vôlei qualquer um pode brincar."

Esporte olímpico?

Em fevereiro, o comitê olímpico austríaco e a Chaka² organizaram, com o apoio da FIVB, um jogo exibição em PyeongChang, durante os Jogos Olímpicos de Inverno. Os brasileiros Giba e Emanuel foram convidados e a exibição, ainda que com cara de pelada de fim de ano, permitiu o início de rumores de que o vôlei de inverno poderia entrar no programa olímpico de 2026.

Mas não é bem assim. "Chegar a ser parte do programa olímpico ainda não é nossa prioridade", assegura Azevedo. "Claro que a gente enxerga potencial na modalidade, que no futuro pode ser olímpica, mas não é nossa prioridade. Hoje a gente está num estágio no qual precisa consolidar número de eventos, qualidade, consolidar a consistência desses eventos, premiação, a apresentação do esporte, entretenimento. É um produto muito legal, mas tem que subir essa escada degrau a degrau. Tem um caminho longo aí."

Fábio Azevedo nega inclusive que a FIVB tenha tratado dessa possibilidade com o COI. "A gente precisa ter um produto legal primeiro. Isso aconteceu com o vôlei de praia. Primeiro foi consolidado como super produto, depois chegou aos Jogos", lembrou.

No Brasil, essa especulação foi reforçada por uma postagem de um blog especializado em vôlei, do Estadão, que escreveu que a "grande possibilidade" de o vôlei de neve chegar aos Jogos de 2026, uma vez que, se a Áustria for escolhida como sede, ela apontaria o vôlei de neve como uma das duas modalidades que ela teria direito de indicar para o programa.

Essa possibilidade – de o país sede escolher uma modalidade -, porém, nunca existiu. "O cronograma para esportes ou eventos serem adicionados (ao programa olímpico) só será anunciada após a conclusão de um estudo-chave sobre a otimização de custos dos Jogo, para minimizar os impactos para futuros comitês organizadores e os planos do local", informou o Comitê Olímpico Internacional (COI) ao Olhar Olímpico. Além disso, o processo de escolha da sede dos Jogos de 2026 ainda está engatinhando. Por enquanto, as cidades interessadas estão "em estágio de diálogo" para o processo de candidatura.

Planos ambiciosos

Não sonhar ainda com estar no programa olímpico não significa não sonhar grande. E o vôlei na neve quer ir longe. Por enquanto, já são 17 países fazendo parte do circuito europeu, organizado pela CEV, que já destina no seu site espaço idêntico para o vôlei indoor, de neve e de praia. Na semana que vem começa em Wagrain, na Áustria, o primeiro Campeonato Europeu, que vai pagar 10 mil euros em premiação em cada naipe.

Ainda é pouco, 10% da premiação do Campeonato Europeu de Vôlei de Praia, por exemplo. Mas a tendência, no entender da FIVB, é essa diferença se reduzir aos poucos. "É o primeiro campeonato de vôlei de neve e no ano que vem queremos fazer o primeiro Circuito Mundial, com entre cinco e 10 etapas. Depois, em 2020, organizar o primeiro Campeonato Mundial", detalha o diretor-geral da FIVB.

A aposta pessoal dele é que em dez anos os circuitos de vôlei de praia e de vôlei de neve já estejam próximos da equiparação em termos de premiação. Além disso, seria uma oportunidade de países sem tradição na neve terem espaço nos chamados esportes de inverno. "Vamos ver alguns países de temperatura quente jogando na neve. A Argentina é uma que tem grande potencial, já nos procurou. A China também. Queremos a temporada começando em dezembro e indo até agosto do ano seguinte, para pegar o inverno do hemisfério sul também", detalha.

 

Sobre o autor

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Focado na cobertura olímpica, produziu o Giro Olímpico para o UOL e reportagens especiais para a revista IstoÉ 2016. Criador do Olimpílulas, foi colunista da Rádio Estadão e blogueiro do Estadão, pelo qual cobriu os Jogos do Rio-2016.

Está disponível para críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas no demetrio.prado@gmail.com.

Sobre o blog

Um espaço que olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. Aqui tem destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa.