Blog Olhar Olímpico

Bolsa Atleta tem de suspensas por doping a aposentada; Governo vai corrigir

Demétrio Vecchioli

11/01/2018 04h00

Milene Wolf (Fabio Canhete/CBCa)

Milene Wolf, da canoagem slalom, cumpre suspensão por doping desde maio do ano passado. Fabiana Diniz, a Dara, ex-capitã da seleção brasileira feminina de handebol, anunciou antes da Rio-2016 que se aposentaria após os Jogos. Apesar disso, as duas estão entre os 5.830 que foram contempladas com a Bolsa Atleta, em lista divulgada pelo Ministério do Esporte no último dia 29 de dezembro. Agora, porém, o governo diz que nenhuma das duas receberá o benefício.

O Ministério do Esporte se apega ao fato de que a lista publicada em Diário Oficial não é definitiva. Depois da divulgação, os atletas precisam assinar seus contratos, o que dá brecha para o governo realizar cortes pontuais após ser questionado a respeito de incompatibilidades. Desde o início do programa, em 2005, porém, o Ministério nunca divulgou a lista de quem efetivamente é beneficiário.

No caso de Wolf, veterana da canoagem slalom, a suspensão foi aplicada por outro órgão ligado ao Ministério do Esporte, o Tribunal de Justiça Desportiva Antidopagem (TJDA), que começou a funcionar no ano passado. A data do julgamento não foi divulgada pelo órgão, apenas que a suspensão é definitiva: de maio de 2017 a junho de 2021.

Procurada pelo blog, Milena inicialmente alegou que a bolsa é relativa aos resultados de 2015 (na verdade, são os de 2016) e que ela só foi suspensa em 2017. Por isso, teria direito ao benefício. Só depois que a reportagem explicou a situação é que ela disse que procuraria o Ministério, argumentando que sua presença na lista deve ter sido causada por “falta de comunicação” dentro do governo.

Mais tarde, ela voltou a entrar em contato com o blog, alegando que seu nome apareceu na lista porque ela poderia recorrer da suspensão (à Corte Arbitral do Esporte) e, caso saísse vitoriosa, teria direito ao benefício. Já o governo assegurou que checa todos os casos antes de divulgar a lista e que a publicada no Diário Oficial já considera casos de atletas com o pleito “cancelado e/ou suspenso” por doping. Questionado, o Ministério do Esporte não respondeu quantos.

Também citou que o procedimento ocorre “quando há decisão definitiva sobre os casos, que são sigilosos e têm instâncias de recursos”. No caso de Milene, a suspensão já era definitiva. O governo ainda lembrou que os atletas que tiveram listados tiveram os nomes ratificados pelas Confederações, conforme prevê os normativos vigentes.

Atleta paraolímpica

Em outro caso polêmico, Mônica da Silva Santos, da esgrima paraolímpica, foi contemplada com a bolsa máxima, de R$ 3,1 mil, por ter participado dos Jogos Paraolímpicos do Rio. Só que ela só se classificou à competição porque, na seletiva, competiu sob efeito de doping. Ainda assim, o resultado dela na Rio-2016 não foi retirado pelo Comitê Paraolímpico Internacional (IPC, na sigla em inglês).

Em agosto passado, a Folha chegou a publicar uma reportagem sobre Mônica, que participou do Campeonato Brasileiro mesmo estando suspensa por doping. À época, o Comitê Paraolímpico Brasileiro (CPB), que também cumpre o papel de confederação de esgrima, alegou que não havia sido informado da punição a tempo e que já retirara o resultado do Brasileiro.

Suspensa por 10 meses pela Federação Internacional de Esportes para Cadeirantes e Amputados (IWAS), que organizava a seletiva, ela só precisou começar a cumprir a pena em outubro de 2016, ainda que o doping datasse de maio. Isso permitiu a Mônica manter o resultado da Rio-2016 e, consequentemente, garantir por quatro anos uma bolsa mensal de R$ 4,1 mil do governo federal.

Dara

Capitã da seleção brasileira feminina de handebol na Olimpíada, Dara chegou à Rio-2016 já tendo informado: pararia depois dos Jogos. E foi assim que aconteceu. Mesmo assim, o nome dela apareceu na lista de contemplados pelo Bolsa Atleta em dezembro passado, quase um ano e meio depois.

Após a reportagem procurar a assessoria do Ministério do Esporte, ela contactou o governo para esclarecer a situação e pedir o cancelamento do benefício – na prática, ela não vai assinar o termo de adesão. Em agosto do ano passado, dois meses depois de dar à luz, ela enviou ao Ministério uma declaração da Confederação Brasileira de Handebol (CBHb) de que estava inscrita na entidade, treinando na Alemanha e à disposição da seleção. Um clube alemão, o Bietigheim, atestou que Dara estava, em agosto, “em pausa por licença-maternidade, retornando às atividades de treinamentos para futuras competições oficiais nacionais ou internacionais em breve”.

Dara, porém, nunca retornou para treinar ou jogar. Ao blog, ela explicou que fez a inscrição porque recebeu uma proposta para continuar atuando, por um clube brasileiro. Diante da possibilidade de voltar ao Brasil e desistir da aposentadoria, solicitou a declaração de seu ex-time. No fim, um retorno ao handebol brasileiro se mostrou inviável e Dara manteve a aposentadoria. “Realmente não tenho direito a receber, porque não estou e nem estarei mais em atividade por nenhum clube. Cogitei a possibilidade mas não deu certo”, afirmou.

“Jeitinho brasileiro”

O Bolsa Pódio tem três categorias principais, que pagam bolsas diferentes. A olímpica/paraolímpica é concedida a quem participou da última edição dos Jogos (de Verão ou Inverno). A Internacional, para quem foi ao pódio em competições de nível mundial, pan-americano ou sul-americano em eventos de modalidades olímpicas/paraolímpicas. E a nacional, para quem foi ao pódio de competições nacionais ou terminou entre os três primeiros do ranking nacional de modalidades olímpicas/paraolímpicas.

Os critérios, porém, são dobrados pelas confederações, com o aval do Ministério do Esporte. É o caso da Confederação Brasileira de Golfe (CBG), que indicou como “competição de nível mundial” não um evento da elite do golfe, mas o Campeonato Mundial Militar. Jogando com atletas profissionais, o Brasil ganhou o título por equipes. Dos cinco campeões, cinco vão ganhar uma bolsa criada para quem se destaca em eventos de ponta: Lucas Lee, André Wink Tourinho, Rafael Chaves Barcellos, Ronaldo Francisco e Daniel Bochnia Stapff.

A indicação de competições por equipes que não existem no programa olímpico, aliás, também tem sido uma forma de premiar diversos atletas de uma vez só. No badminton, 20 atletas fizeram parte da equipe vice-campeã pan-americana por equipes em 2016, ainda que só oito deles tenham jogado. Todos foram indicados pela Confederação Brasileira de Badminton (CBBd) e não apenas os medalhistas das provas individuais.

 

Sobre o autor

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque, interior de SP, vive na capital paulista desde que começou a estudar jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, onde terminou a graduação em 2007 e a pós-graduação em 2011. Após início na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Focado na cobertura olímpica, produziu o Giro Olímpico para o UOL e reportagens especiais para a revista IstoÉ 2016. Criador do Olimpílulas, foi colunista da Rádio Estadão e blogueiro do Estadão, pelo qual cobriu os Jogos do Rio-2016.

Sobre o blog

Um espaço que olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. Aqui tem destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa.

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