Blog Olhar Olímpico

Atletas ganham voz e têm chance de ouro para buscar espaço no COB

Demétrio Vecchioli

11/10/2017 19h22

Tiago Camilo, presidente da Comissão de Atletas, fará parte da comissão que elaborará o novo estatuto do COB. Foto: Jonne Roriz/Exemplus/COB

O protesto organizado por dois ex-atletas olímpicos do lado de fora da sede do Comitê Olímpico do Brasil (COB) antes da assembleia extraordinária realizada nesta quarta-feira chamou a atenção de quem passava na rua, conseguiu espaço nas tevês, mas não mudará o futuro do COB. As próximas eleições não serão diretas, mas os atletas deverão ter mais voz. Agora é decidir até onde chegará o grito deles.

Na mesma assembleia na qual foi lida a carta de renúncia de Carlos Arthur Nuzman, que deixa o comando do COB depois de 22 anos, foi também definida a formação de uma comissão que analisará propostas para alterações no estatuto do COB, deixando ele em conformidade com a Lei Pelé e com o que quer o Comitê Olímpico Internacional (COI).

Formam a comissão os presidentes das confederações de vela, Marco Aurélio de Sá Ribeiro, da atletismo, Toninho Fernandes, e de esgrima, Ricardo Machado, além de Thiago Camilo, presidente da Comissão de Atletas. As confederações de atletismo e vela são as mais modernas em espaço para os atletas em suas assembleias, enquanto que a esgrima renovou sua direção este ano, com amplo apoio dos atletas.

Os escolhidos, claro, não foram ao acaso. Existe o interesse da assembleia e do novo presidente, Paulo Wanderley Teixeira, em ampliar o espaço dos atletas no comitê. A dúvida é saber até qual ponto. A Atletas Pelo Brasil, ONG presidida por Raí e que conseguiu a aprovação da alteração na Lei Pelé que limita o mandato dos dirigentes esportivos a apenas uma reeleição, também será chamada a compor a comissão.

Durante entrevista coletiva nesta quarta, Thiago Camilo falou sobre cada modalidade eleger um representante de atletas. Tratava sobre a composição da própria Comissão de Atletas, não da assembleia do COB, mas a impressão dos jornalistas inicialmente foi outra. Paulo Wanderley então foi questionado sobre essa possibilidade, de os atletas terem direito ao mesmo número de votos dos dirigentes nas eleições do COB e deixou claro que é contrário. “Eles também vão colocar o CPF deles?”, perguntou.

O novo presidente do COB deixou claro como pensa: a lei de responsabilidade fiscal pude apenas os dirigentes. É o “CPF” deles que está na reta, enquanto que os atletas não têm “consequência pessoal” se algo dá errado. Para ele, esse jogo de forças não pode equiparar cartolas e atletas, que hoje têm um voto em um universo de 40 votantes. Ainda assim, como está não fica.

A partir de agora, o espaço está aberto para que se discuta qual o modelo a se seguir. O próprio Thiago Camilo, depois, em contato com os jornalistas, deixou claro que a proposta ainda não está formulada. A comissão receberá sugestões nas próximas semanas e Paulo Wanderley quer que o novo estatuto seja votado em até 45 dias. Ou seja: até o fim de novembro, no máximo.

A representatividade dos atletas, porém, não será o único tema a ser discutido nessa reforma do estatuto. O modelo que barrava candidatos de oposição também vai cair, com o apoio, diz ele, do próprio presidente Paulo Wanderley.

Pelo atual estatuto, uma candidatura tem que ser apresentada seis meses antes da eleição (ou seja, em março do ano olímpico) e deve ter o respaldo desde início de 10 confederações. O presidente da confederação de tênis de mesa, Alaor Azevedo, tentou se candidatar contra Nuzman ano passado, mas não conseguiu os apoios antes da eleição. Diz ele, porque os colegas tinham medo de retaliação.

Paulo Wanderley deixou claro que é contra o prazo tão longo, assim como o número alto de assinaturas. Mas caberá à comissão apresentar a proposta exatamente de como seria daqui para frente e, em seguida, à assembleia aprovar as alterações, com necessários 2/3 dos votos.

ENTENDA- Nuzman apresentou sua carta de renúncia nesta quarta-feira, lida pelo advogado e amigo Sérgio Mazzillo, durante assembleia extraordinária realizada na sede do COB, mais cedo. O dirigente assinou o documento horas antes no presídio de Benfica, onde está detido. Na correspondência, Nuzman se defende das acusações e diz que deixará o cargo para se dedicar à sua defesa.

“Venho pela presente, reiterar os termos de minha correspondência, datada de 6 de outubro de 2017, em especial a minha completa exoneração de qualquer responsabilidade pelos atos a mim injustamente imputados, os quais serão devidamente combatidos pelos meios legais adequados”, disse Nuzman no documento, que surpreendeu aos dirigentes que estavam na assembleia. O plano era que, da reunião, saísse um movimento de pressão para Nuzman renunciar. Mas ele se antecipou a isso.

Com a renúncia de Nuzman, Paulo Wanderley naturalmente assumiu o cargo de forma efetiva. O ex-dirigente do judô já estava no comando do COB de forma interina desde quinta-feira, quando o agora ex-presidente foi preso.

Nuzman estava desde 1995 à frente do COB, tendo sido reeleito outras cinco vezes, a última delas no ano passado, quando fez um acordo político para substituir seu vice-presidente. Saiu André Richer, último presidente do COB antes de Nuzman e vice durante 20 anos, para entrar Paulo Wanderley.

A movimentação foi costurada com os presidentes das confederações, que já pensavam na sucessão de Nuzman. Paulo Wanderley, que derrubou o clã “Mamede” para ficar 16 à frente da CBJ, era tido como o mais preparado para assumir a cadeira de Nuzman assim que o veterano saísse dela.

Se tudo desse certo, isso teria acontecido ainda no primeiro semestre deste ano, quando aconteceu a eleição da Organização Desportiva Pan-Americana (ODEPA). Nuzman era candidato desde antes de ser reeleito no COB ano passado, e grande favorito. Mas, por um voto, não passou nem da primeira rodada da eleição.

O plano foi por água abaixo e Nuzman, que desde 2002 se dedicou às candidaturas e à organização do Pan e da Olimpíada, voltou a tocar o dia-a-dia do COB. Paulo Wanderley, que por vontade própria deixou o comando da CBJ, elegendo sucessor com tranquilidade, assumiu que sua hora demoraria um pouco mais a chegar, até 2020.

Mas o cenário sofreu uma reviravolta com a prisão de Nuzman, na quinta-feira passada. Paulo Wanderley não perdeu tempo e fez valer sua interpretação do estatuto e assumiu como presidente interino. Ali começava uma disputa pelo poder do COB, da qual Nuzman foi alijado de participar, uma vez que está preso. Seus antigos aliados também não se mostraram muito dispostos a ajuda-lo.

As somas dos fatos foram levando ao caminho tomado nesta quarta-feira. A começar pela postura dura do Comitê Olímpico Internacional (COI), que na sexta-feira anunciou a suspensão do COB e a suspensão dos repasses feitos à entidade brasileira. Esses repasses são toda a verba sem “carimbo” do orçamento do COB atualmente – o restante é proveniente da Lei Agnelo/Piva.

Também na sexta, depois de ficar sabendo disso e para conseguir um habeas corpus, Nuzman assinou uma carta pedindo afastamento da presidência do COB e do Comitê Organizador. A existência desta carta permitiu que a reunião informal marcada para terça-feira entre os presidentes de confederações fosse transformada em assembleia geral extraordinária, realizada nesta quarta.

Nuzman segue preso, agora por tempo indeterminado. Na segunda, quando venciam os cinco dias de sua prisão provisória, o juiz federal da 7ª Vara Criminal do Rio, Marcelo Bretas, acatou o pedido do Ministério Público Federal do Rio para colocar Nuzman em prisão preventiva.

Sobre o autor

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque, interior de SP, vive na capital paulista desde que começou a estudar jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, onde terminou a graduação em 2007 e a pós-graduação em 2011. Após início na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Focado na cobertura olímpica, produziu o Giro Olímpico para o UOL e reportagens especiais para a revista IstoÉ 2016. Criador do Olimpílulas, foi colunista da Rádio Estadão e blogueiro do Estadão, pelo qual cobriu os Jogos do Rio-2016.

Sobre o blog

Um espaço que olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. Aqui tem destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa.

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