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Olhar Olímpico

Ela foi atleta olímpica na Rio-2016 e agora dirige Uber em BH

Demétrio Vecchioli

21/09/2017 04h00

(Arquivo pessoal)

Mais de 6 mil atletas brasileiros receberam, neste mês de setembro, a última das 12 parcelas referentes à versão 2016 do programa Bolsa Atleta. Como o Ministério do Esporte atrasou em quatro meses e meio a publicação do edital de 2017 na comparação com o ano passado, as primeiras parcelas do benefício não serão pagas antes de novembro. Possivelmente, apenas em janeiro do ano que vem.

Entre as prejudicadas está Pâmela Nogueira, atleta do nado sincronizado que defendeu o Brasil nos Jogos Olímpicos do Rio, em duas edições dos Jogos Pan-Americanos e em cinco Mundiais. Com dificuldades de se manter em um momento de transição de carreira, ela virou motorista de Uber em Belo Horizonte, onde trabalha poucas horas por dia como treinadora.

"Eu resolvi sair da seleção brasileira para poder conseguir trabalhar. Na seleção, eram oito horas de treino, mais o tempo de ida e volta, não dá para trabalhar depois. Só que como a gente é atleta, conseguir um emprego é mais difícil", explicou Pâmela, em entrevista por telefone ao Olhar Olímpico.

No primeiro semestre do ano, ela, que é formada em Educação Física, foi convidada para trabalhar como preparadora física das atletas de nado sincronizado que disputariam o Mundial de Esportes Aquáticos. O trabalho acabou no início de julho e, à espera de uma nova oportunidade, ela resolveu seguir a recomendação de uma amiga e virar motorista de Uber, ainda no Rio.

"Ela já rodava de Uber e perguntou por que eu não rodava também. Disse que era só rodar de dia que não tinha problema. Fiquei um mês rodando de Uber até dar certo o trabalho aqui em BH. Quando vim para cá, comecei a dar treino aqui, mas em período curto, só de tarde para noite. Ficava o dia todo livre, então fiquei rodando no Uber aqui também", contou.

Atleta da seleção brasileira desde 2007, quando disputou os Jogos Pan-Americanos do Rio e conquistou o bronze no conjunto, Pâmela faz parte da mesma geração das gêmeas Bia e Branca Feres, e da dupla Nayara Figueira e Lara Teixeira. Todas resolveram se afastar da seleção depois de o Brasil disputar o conjunto na Rio-2016 como dono da casa. Enquanto as duas primeiras fizeram carreira na televisão (atualmente estão na Fox Sports), a Nayara foi trabalhar com o Cirque du Soleil nos EUA e a Lara seguiu para a Nova Zelândia para realizar o sonho de ser treinadora.

Trocar o nado sincronizado esportivo pelas apresentações circenses é um caminho natural para muitas atletas, como as irmãs Isabela e Carolina de Moraes, finalistas olímpicas em 2004, e que hoje atuam em Las Vegas. Mas a ideia nunca empolgou Pâmela. "Eu não sei se é o meu objetivo. A principio eu queria ser técnica", diz.

O cenário da modalidade no país, porém, é pequeno. Poucos clubes oferecem aulas de nado sincronizado e menos ainda disputam competições. "O Brasil não consegue manter as ex-atletas que gostariam de seguir sendo técnicas, continuar no esporte. Você vê que a gente acaba perdendo os talentos. A Lara, por exemplo, sempre teve o objetivo de atuar na área esportiva, com administração, marketing, e acabou indo para a Nova Zelândia. A Nayara começou como técnica do Paineiras (clube de São Paulo), recebeu proposta dos EUA e foi."

Em Belo Horizonte desde agosto, Pâmela dá treinos no CT da Universidade Federal de Minas Gerais e, desde a semana passada, cobre licença maternidade de uma técnica de ginástica artística da UniBH, o que diminuiu momentaneamente seu tempo livre e, consequentemente, o tempo que passa dirigente Uber pela capital mineira.

Dependendo do passageiro, Pâmela conta sua história – o forte sotaque carioca é facilmente identificável. "A pessoa acaba ficando meio surpresa, pergunta por que eu estou dirigindo. Explico que é um extra e que quando a gente deixa de ser atleta ainda é difícil conseguir emprego", relata Pâmela, que no fim do ano ainda vai disputar o Campeonato Brasileiro como atleta, pelo Tijuca Tênis Clube.

No mês que vem, ela já não receberá mais a Bolsa Atleta. Contemplada com a Bolsa Internacional em 21 de julho de 2016, ela recebeu a última das 12 parcelas do benefício agora em setembro. Inscrita no edital aberto em agosto, ela tem direito pela primeira vez à bolsa da categoria olímpica, de R$ 3,1 mil (desde este ano há descontos em cima deste valor). Mas o governo promete publicar a lista de contemplados só no final de outubro ou começo de novembro. Como todo o processo atrasou quatro meses e meio na comparação com 2016, a expectativa é que esse seja também o período sem bolsas.

 

Sobre o autor

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Focado na cobertura olímpica, produziu o Giro Olímpico para o UOL e reportagens especiais para a revista IstoÉ 2016. Criador do Olimpílulas, foi colunista da Rádio Estadão e blogueiro do Estadão, pelo qual cobriu os Jogos do Rio-2016.

Está disponível para críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas no demetrio.prado@gmail.com.

Sobre o blog

Um espaço que olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. Aqui tem destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa.