Blog Olhar Olímpico

Frustrações de Bolt e Mo Farah nos lembram que heróis também são de carne e osso

Demétrio Vecchioli

13/08/2017 04h00

(Dylan Martinez/Reuters)

Usain Bolt ainda não havia sequer chegado ao centro médico do Estádio Olímpico de Londres e a BBC já levantava o debate no Twitter: o astro jamaicano deveria ter parado enquanto ainda estava ganhando, na Rio-2016? A discussão pode até acontecer nas redes sociais, nas rodas de conversas nos pubs londrinos, mas é infrutífera. Bolt tomou a decisão de correr mais um Mundial e arcou com as consequências da decisão. A mais importante delas: mostrou ao mundo que até mesmo ele, a lenda, é feito de carne e osso.

Foram necessários nove longos anos, desde as três medalhas de ouro ganhas na Olimpíada de Pequim, até que essa ficha caísse no último dia da mais vitoriosa carreira da história do mais tradicional dos esportes. E não foram por falta de exames. No seu auge, em 2009, o jamaicano foi revirado do avesso para que especialistas pudessem descobrir qual o limite do corpo humano. “Quão rápido um homem pode correr?”, era a grande pergunta.

Quando falava-se de Bolt e de limite, o assunto era sempre o máximo de velocidade que ele poderia alcançar, como se quiséssemos saber qual era a linha que impedia que ele se tornasse um sobrenatural. Esquecemos, porém, que para todo teto há um piso. Bolt tinha outros limites, que precisava superar para continuar competindo.

O problema no músculo posterior da coxa esquerda está longe de ser novo e o quase tirou da Olimpíada do ano passado, impedindo-o de participar da seletiva jamaicana. As vitórias nos 100m, 200m e revezamento no Engenhão, assim como havia feito nas duas Olimpíadas anteriores, deram a falsa sensação de que nada poderia detê-lo. Nem Justin Gatlin, que se tornou seu inimigo no imaginário popular, como se o Batman precisasse de um Coringa.

O esporte, contudo, não é feito de mocinhos e vilões. Não há dicotomia, da mesma forma que não há atleta perfeito. Muhammad Ali perdeu cinco lutas, Senna venceu só metade de seus campeonatos com a McLaren, Michael Jordan fez duas temporadas abaixo da média pelo Washington Wizards e até Michael Phelps perdeu a última prova de sua carreira. Mesmo no atletismo, Sergey Bubka e Javier Sotomayor, dois dos atletas mais dominantes em suas provas, disseram adeus fora do lugar mais alto do pódio.

No caso de Bolt, o sentimento de frustração foi compartilhado. Horas antes da fatídica final do revezamento 4x100m livre do Mundial, que já entrou para a história do esporte, Mo Farah se despediu dos fãs perdendo a final dos 5.000m. Porque, para o britânico, tudo que não seja ouro é derrota. Desde 2011, haviam sido 10 medalhas de ouro consecutivas entre os 5 e os 10 mil metros em grandes competições.

Mas, justamente diante de seus fãs britânicos, com a festa armada para sua despedida das pistas antes de migrar para as maratonas, Mo Farah foi superado por um etíope. O corredor que sempre soube cozinhar as provas para dar seu máximo nas voltas finais errou a estratégia e acabou encaixotado. Quando conseguiu escapar, já era tarde e não tinha mais fôlego.

Ainda é cedo para dizer o tamanho do prejuízo à imagem dos dois maiores nomes do atletismo após esses revezes. Possivelmente, será muito baixo. Ambos continuarão sendo exemplos de atletas, como sempre foram. Agora, mais humanos, também ainda mais parecidos com suas enorme legião de fãs. Afinal, todos nós estamos sujeitos a sermos, um dia, um Usain Bolt.

Sobre o autor

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque, interior de SP, vive na capital paulista desde que começou a estudar jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, onde terminou a graduação em 2007 e a pós-graduação em 2011. Após início na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Focado na cobertura olímpica, produziu o Giro Olímpico para o UOL e reportagens especiais para a revista IstoÉ 2016. Criador do Olimpílulas, foi colunista da Rádio Estadão e blogueiro do Estadão, pelo qual cobriu os Jogos do Rio-2016.

Sobre o blog

Um espaço que olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. Aqui tem destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa.

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