Blog Olhar Olímpico

Fora da TV, Wlamir revê felicidade no Corinthians aos 80 anos e critica basquete atual

Demétrio Vecchioli

17/07/2017 04h00

Wlamir recebe homenagem no Corinthians

Quem foi melhor, Wlamir Marques ou Amaury Pasos? Os dois mais vitoriosos jogadores do basquete brasileiro convivem com a mesma questão há pelo menos seis décadas, desde que surgiram com o vice-campeonato mundial de 1954. Em determinado momento, combinaram, cordialmente, que sempre responderiam que foi o outro. Ambos, porém, sempre souberam seus valores e queriam ser reconhecidos por isso. Amaury conseguiu a tão sonhada indicação para o hall da fama, enquanto que Wlamir esperou 53 longos anos até que seu maior palco recebesse seu nome. O Ginásio do Parque São Jorge desde novembro é Ginásio Wlamir Marques. E não há nada que o tenha feito mais feliz.

“Para mim foi a maior honra que recebi em toda minha vida. Tenho título mundial, medalha olímpica, mas pra mim, pessoalmente, essa do Corinthians foi a maior homenagem que recebi em vida. O mais importante é que meu nome foi vencedor num clube de futebol. Ali poderia ter o nome de Sócrates e de grandes jogadores que passaram ali. Mas escolheram o meu”, diz Wlamir, que ontem (16) completou 80 anos.

Dono de duas medalhas olímpicas de bronze (1960 e 1964), bicampeão mundial (1959 e 1963) e outras duas vezes finalista em Mundiais (1954 e 1970), Wlamir só não é de longe o jogador mais vitorioso do basquete brasileiro porque Amaury Pasos, hoje com 82, não foi vice em 1970, mas ganhou o bronze no Mundial de 1967 – competição da qual Wlamir foi cortado por lesão. Juntos, eles fizeram história com a camisa do Corinthians na década de 1960, rivalizando com gigantes como o Real Madrid.

Mais de 40 anos depois de vestir a camisa do Corinthians pela última vez, Wlamir voltou a frequentar o clube. Com a morte da esposa, Cecília, em 2015, ele se mudou para perto da filha, no Parque São Jorge, praticamente ao lado do Corinthians. “Uma das minhas únicas diversões é ir sábado no Corinthians. Fico sentando de frente para o meu ginásio, tomando minha cervejinha e contando história enquanto o pessoal racha (joga rachão)”, conta.

A outra distração é o computador. Ainda que não saiba fazer nele outra coisa que não responder e-mail e usar o Facebook, é na frente dele que Wlamir passa boa parte do dia, contando histórias e desabafando sobre a solidão em seu perfil no Facebook. “Estou com uma saudade danada da Cecília. A gente ficou 60 anos juntos. Ficar sem ela é um sacrifício. O que me salva são esses relacionamentos”, diz, em referência aos amigos virtuais que diariamente movimentam sua página.

Sem espaço na TV

Hoje, esse é o único canal no qual Wlamir pode falar de basquete. Comentarista na tevê durante quase 35 anos, ele não é convidado a trabalhar desde que comentou os Jogos Olímpicos do Rio pela ESPN Brasil. “Se eles continuassem me chamando, eu iria. Mas eles acham que eu não sirvo para comentar a NBA, preferem o Zé Boquinha e o Eduardo Agra. Eu não sirvo para ficar falando um monte de número”, reclama.

Finalmente sentindo na pele as consequências de uma vida toda dedicada ao esporte e de 25 anos no altíssimo rendimento, Wlamir hoje sofre com dores no joelho. Na Olimpíada, trabalhou a partir dos estúdios da ESPN em São Paulo e pediu para não ir ao Rio. “Eu posso estar com problemas físicos, mas minha cabeça continua melhor ainda do que era”, garante.

Wlamir, porém, já não tem mais paciência para o basquete. “O NBB eu não gosto de assistir. É um basquete que não me agrada. Não temos valores, não temos ídolos, não temos mais os grandes clubes, só empresas. Nesse último NBB mostrou a fraqueza da competição. Em São Paulo, o interior ainda resiste, mas a capital… o Paulistano foi um caso atípico, como foi o Pinheiros. Você não tem a participação do povo”, critica.

Mesmo a NBA não o apetece mais. “Não me fascina mais assistir o basquete. A NBA não acrescenta nada ao meu conhecimento. A NBA é um jogo de dois contra dois. É individualidade pura. Não é o basquete Fiba que eu joguei”. Nem os eletrizantes jogos das finais entre Warriors e Cavaliers atraíram a atenção de Wlamir, que diz ter assistido apenas a algumas partes das decisões.

Críticas duras a Magnano

Seleção? Taí outra coisa que também não tem feito Wlamir sorrir. Vide a Olimpíada. “Aquilo foi uma vergonha. Aquilo ali não podia jamais. Trouxeram um técnico argentino que enganou bastante aqui. Pode ter tido sucesso entre aspas com a Argentina com uma geração excepcional. Como que você pode conceber que o basquete brasileiro fique em quinto em uma Copa América? Como que não passa da fase de classificação dentro do seu país? Aquilo foi para liquidar, acabar de vez.”

Magnano, aliás, é um dos alvos preferidos das críticas de Wlamir. “Eu não acho que nenhum jogador foi culpado. O jogador joga na condição moral que o técnico dê. Quem saiu-se melhor de todos eles foi Nenê. Quem mais jogou basquete com o Magnano? Ele usava os 12 jogadores num quarto. Ia para o hotel todo mundo satisfeito porque jogava, mas basquete não é assim. Você tem os titulares, o reserva imediatos e quem entra para jogar em caso de necessidade. O Mangano fazia média”, ataca.

Sobre Oscar: prefere não falar

Wlamir só poupa críticas a um desafeto: Oscar Schmidt. No passado, o veterano nunca escondeu não concordar com a basquete individualista do “Mão Santa”. Assim como Amaury, nunca engoliu o fato de parte da mídia tratar Oscar como o grande nome do basquete brasileiro, ignorando o fato de que enquanto Wlamir e Amaury levaram o Brasil a cinco pódios seguidos em Mundiais, com Oscar a seleção assumiu papel de coadjuvante no cenário internacional.

Agora, ele tenta fugir do assunto. “Eu não gosto de falar do Oscar, porque ele tem um hábito todo dele. Ele se ofende com qualquer coisa que a gente falar. Faz uns 10 anos que a gente não se fala. Ele diz que onde eu ou o Amaury estivermos ele não vai estar. Eu estou fazendo 80 anos, o Amaury 82, você acha que estamos preocupados com essa frescura?”, questiona.

Wlamir usa a homenagem feita por patrocinadores de NBA a Oscar para apontar que o desafeto é “bom de marketing pessoal”. “Só ele e a Hortência que tinham isso de marketing pessoal. Só eles pensam nisso. Se você for olhar, o Marcel nunca fez marketing, a Paula, o Amaury. Nunca passou pela minha cabeça fazer marketing, nunca tive esse tipo de vaidade.”

Na falta de marketing pessoal, Wlamir até hoje não foi incluído no Hall da Fama do Basquete, ainda que seja o maior colecionador de medalhas de Mundiais, empatado com o iugoslavo Kosic. “O Guy (Peixoto, presidente da CBB) e o pessoal da CBB disseram que querem ir atrás, o Amaury disse que vai interceder. Mas eu não quero que me usem. Minha história não precisa ser dita para a Fiba. Eles têm lá todos os registros de quem foi Wlamir Marques”.

 

Sobre o autor

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque, interior de SP, vive na capital paulista desde que começou a estudar jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, onde terminou a graduação em 2007 e a pós-graduação em 2011. Após início na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Focado na cobertura olímpica, produziu o Giro Olímpico para o UOL e reportagens especiais para a revista IstoÉ 2016. Criador do Olimpílulas, foi colunista da Rádio Estadão e blogueiro do Estadão, pelo qual cobriu os Jogos do Rio-2016.

Sobre o blog

Um espaço que olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. Aqui tem destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa.

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