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Olhar Olímpico

Referência do triatlo admite doping: 'Por vaidade, pus minha carreira no lixo'

Demétrio Vecchioli

12/06/2017 04h00

(Fábio Falconi / Latin Sports)

Referência no triatlo brasileiro e segunda competidora do país a ganhar uma prova do Ironman, Ariane Monticeli foi flagrada por EPO em exame antidoping realizado no dia 4 de abril, após uma prova na África do Sul. Atleta do Esporte Clube Pinheiros, de São Paulo, ela enviou uma carta a um site especializado, o Mundo Tri, admitindo que se dopou.

"Sucumbindo à pressão e não admitindo voltar a ter um novo ano ruim, resolvi fazer uso de EPO para a minha primeira competição de meio Ironman do ano. Como isso se deu: dentro da minha cabeça, eu repetia 'Eu preciso vencer', mas eu sou testada constantemente, tenho passaporte biológico, o que fazer? Fui à internet, pesquisei a compra de EPO. Pesquisei como aplicar, em quanto tempo sai do organismo e por aí vai… Quando se toma uma decisão dessas você não conta à ninguém. Eu assumi o risco, mesmo sabendo o que poderia acontecer", admitiu.

A revelação veio um dia depois de um canal alemão exibir um documentário denunciando um esquema de doping no Brasil, principalmente por EPO, um hormônio sintético que estimula a medula óssea a elevar a produção de células vermelhas do sangue. Ele entra no corpo por meio de transfusão de sangue, de forma que não é algo que se compra na farmácia. Na carta, Ariane não explica como ela teve acesso ao EPO.

Ariane venceu o Ironman de Florianópolis em 2015, tornando-se a segunda triatleta brasileira a ganhar uma prova, depois de Fernanda Keller. Na carta, ela admitiu que se não tivesse sido pega não teria revelado o que fez, e afirmou que acreditava que a substância sairia rapidamente do seu organismo.

"Quando recebi a notícia, meu técnico e pessoas que treinam comigo tiveram a mesma reação: 'Não se preocupe, está errado, vamos te defender até o fim'. Daí minha vergonha. Como falar que o resultado estava correto para as pessoas que gostam de mim, que acreditam em mim? Fiquei mergulhada numa dor tão profunda que tentei tirar minha vida", revelou.

No relato publicado pelo Mundo Tri, Ariane conta que seu pai a criticou – "Não foi essa educação que eu te dei" -, que o técnico ficou em estado de choque, o diretor do Pinheiros, seu clube, sentiu-se traído e até o namorado a largou. Mesmo assim, disse ter recebido o apoio de todos e que agora não pensa mais em voltar ao esporte.

"Mergulhada na minha vaidade, coloquei minha carreira no lixo. Eu precisei passar por isso para vir aqui e falar que não é a vitória, não é o vencer uma prova que é o que realmente importa. O que importa é todo o caminho que te fez chegar lá", encerrou. Vale a pena ler o relato completo aqui.

Sobre o autor

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Focado na cobertura olímpica, produziu o Giro Olímpico para o UOL e reportagens especiais para a revista IstoÉ 2016. Criador do Olimpílulas, foi colunista da Rádio Estadão e blogueiro do Estadão, pelo qual cobriu os Jogos do Rio-2016.

Está disponível para críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas no demetrio.prado@gmail.com.

Sobre o blog

Um espaço que olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. Aqui tem destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa.