Topo

Olhar Olímpico

Como isenção de vistos para americanos virou a salvação do polo brasileiro

Demétrio Vecchioli

18/06/2019 12h00

Ricardo Azevedo, o Rochinha, técnico da seleção de polo aquático (Satiro Sodré/SSPress/CBDA)

A seleção brasileira de polo aquático enfim trabalha sob as orientações de um novo técnico. Ricardo Azevedo, de 62 anos, assumiu o comando da equipe na segunda-feira (17), no mesmo dia em que começou a valer a isenção de visto de turista no Brasil para cidadãos dos Estados Unidos, do Canadá, do Japão e da Austrália. Não é coincidência. Mesmo sendo nascido no Brasil e tendo morado por aqui boa parte da vida, Rochinha, como é conhecido, hoje só tem o passaporte dos Estados Unidos.

LEIA MAIS:

+ Ex-técnico da seleção de polo é investigado por assediar jogadora

+ Polo aquático brasileiro recomeça sem gringos e é campeão pan-americano

Na segunda, ele foi uma das primeiras pessoas a se valer da polêmica medida adotada pelo governo de Jair Bolsonaro (PSL). Apontado como técnico em março, Rochinha tinha o planejamento de vir ao Brasil no final de maio para, entre outras coisas, acompanhar a Liga Nacional, que foi disputada durante a semana passada e teve o SESI como campeão.

Mas ele só pôde assistir à competição pela internet, proibido de entrar no Brasil.  Jogador da seleção brasileira de polo aquático de 1974 a 1980, Rochinha fez carreira no exterior, principalmente nos Estados Unidos, onde atuou por 24 anos como coordenador de polo da federação local. Em 1990, durante um período, ele passou a ser o técnico da seleção norte-americana. Para isso, precisou se naturalizar. 

Na época, a lei exigia que ele abrisse mão da cidadania brasileira. As regras mudaram, hoje ele pode ter ambas as cidadanias, mas uma série de mudanças no Itamaraty atrapalharam os planos. O novo passaporte, que deveria sair em 60 dias, agora tem previsão de ficar pronto só no final do mês. 

Só que não há tempo a perder. Rochinha quer criar um "programa" de polo aquático no seu país natal, depois de trabalhos bem sucedidos nos Estados Unidos e na China. O primeiro passo é tentar classificar o Brasil para a Olimpíada de Tóquio. Para isso, é preciso ganhar os Jogos Pan-Americanos, em Lima. Até lá, serão oito semanas com oito horas diárias de treinamento.

Também conhecido por ser o pai do norte-americano (nascido no Rio) Tony Azevedo, um dos maiores jogadores deste século, Ricky (para os americanos) foi inicialmente contratado para ser consultor de polo aquático na Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA). Mas em janeiro o técnico da seleção, André Avallone, foi acusado de assédio sexual por uma jogadora do time feminino. Investigado pelos conselhos de ética do COB e da CBDA, foi afastado do cargo.

"Em três meses seria difícil colocar alguém que não prejudicaria a própria carreira. Como coordenador eu estive bem empenhado, conheço os jogadores, as táticas. A CBDA e o COB me pediram e eu assumi temporariamente, até acabar o ano. Ano que vem a gente vê o que é o melhor para o país", explica Rochinha.

Depois dos treinos no Rio, bancados pelo COB, ele vai levar a seleção para 10 dias de treinos com os Estados Unidos e, depois, mais 10 na China, em locais onde trabalhou anteriormente. "Depois vamos treinar mais 18 dias na Coreia do Sul", conta, citando a passagem por Gwangju, onde o Brasil disputa o Campeonato Mundial. "Não quer dizer que não queremos ter resultado, mas vamos usar o Mundial para treinar nosso time", explica Rochinha, que quer ganhar guerras, não batalhas.

Seu planejamento é para longo prazo. "Não podemos ser turistas olímpicos. Esses times que vão para a Olimpíada por ir, sem qualquer objetivo de ao menos brigar por uma medalha. Vamos fazer todo o possível para ganhar o Pan, mas seria o nosso primeiro passo para conseguir estar onde devemos estar, sempre entre os três primeiros do mundo", afirma ele, sem qualquer sensação de que está pensando longe demais.

Ainda que tenha um português preciso, Rochinha repete constantemente uma palavra que raramente está no vocabulário de técnicos brasileiros, de qualquer modalidade: programa. Ela vem da cultura do esporte universitário norte-americano, que pensa a longo prazo, de forma contínua.

"O programa é desenhado para batalhas, para ganhar certas coisas que no mundo esportivo valem muito. Ninguém se lembra quem ganhou o Brasileiro Sub-14. O goal (objetivo) é pódio em 2024 e disputar o ouro em 2028. Gostamos de arranjar desculpa, dizer que não tem dinheiro, não tem estrutura. A gente não tem dinheiro, mas vamos criar uma estrutura que funciona", promete.

Azevedo pai, pela China, e Azevedo filho, pelos Estados Unidos, na Rio-2016. Os dois são brasileiros.

Recomeço

Parece uma volta na máquina do tempo. Seis anos atrás o Brasil também tinha um técnico de ponta, o croata Ratko Rudic, com quem Rochina dividiu o comando da seleção norte-americana no começo do século. E o discurso também era de transformar o Brasil em potência na modalidade.

Mas aquele programa acabou com a mesma velocidade que começou. Calçado na naturalização de jogadores estrangeiros, ruiu quando esses atletas decidiram que não defenderiam mais o Brasil. Dos seis naturalizados, só um continua: o goleiro sérvio Slobodan Soro, de 40 anos, e sem pedir nada em troca. O croata Egon Jurisic, goleiro do Pinheiros, está em processo de naturalização. 

"O Ratko é maior técnico da história, profissional extremamente capaz. Ele fez um time que tinha muito dinheiro. Se o programa foi bom ou não, não é essa a pergunta. A pergunta é qual foi o legado deixado? Criou mais técnicos? Aumentou o número de jogadores no Brasil?", questiona o novo técnico da seleção. A resposta aparenta ser "não". 

Rochinha reconhece que Rakto deixou como legado a "importância de trabalhar". De fato, os treinamentos intensos sempre foram a marca do treinador, que levou o Brasil a uma inédita medalha de bronze na Liga Mundial, em 2015. Agora, a previsão é de treinos de oito horas por dia, também para ensinar os brasileiros a atuarem em mais de uma posição, uma demanda das novas regras.

Isso porque, em Tóquio (e também já no Pan), cada elenco só poderá contar com 11 atletas. No entender de Rochina, isso é bom para o Brasil. "É melhor para a gente. Os nossos primeiros sete ou oito são tão bons quanto dos outros. Não existe mais os jogadores 12 e 13. As novas regras ajudam a mobilidade, o jogador jovem, rápido, o atacante faz muito mais parte do ataque."

Coordenador da seleção feminina, Rochina avisa que, entre as mulheres, o projeto é em um prazo maior. Praticamente todo o elenco que vai ao Pan tem menos de 20 anos. "Temos uma centro de 15 anos e atacantes de 17, 18. Nosso time sub-19 recentemente ganhou dos EUA e perdeu do Canadá só por dois gols. O problema que só 10% do investimento é no feminino. Vamos dar todo o apoio possível. Acho que 2024 já dá para pegar uma Olimpíada. Para competir mundialmente de igual para igual, 2028 seria uma opinião mais plausível."

No feminino, o Pan também distribui uma vaga, que deve ser da segunda colocada, uma vez que os Estados Unidos ganharam a Liga Mundial, já têm vaga na Olimpíada e são favoritos a mais um ouro. O Canadá é amplo favorito a ficar com essa vaga das Américas e o Brasil corre bem por fora, junto com Cuba, equipe que lhe roubou a vaga no Mundial.

Sobre o autor

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque (SP), é graduado e pós-graduado pela Faculdade Cásper Líbero. Começou na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Focado na cobertura olímpica, produziu o Giro Olímpico para o UOL e reportagens especiais para a revista IstoÉ 2016. Criador do Olimpílulas, foi colunista da Rádio Estadão e blogueiro do Estadão, pelo qual cobriu os Jogos do Rio-2016.

Está disponível para críticas, elogios e principalmente sugestões de pautas no demetrio.prado@gmail.com.

Sobre o blog

Um espaço que olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. Aqui tem destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa.