Blog Olhar Olímpico

Em crise, Ministério se oferece para levar 90 do jiu-jítsu a Abu Dhabi por R$ 1,5 mi

Demétrio Vecchioli

17/04/2017 04h00

Abu Dhabi Jiu-Jitsu Championship do ano passado (Francois Nel/Getty Images)

Enquanto as confederações olímpicas ouvem do Ministério do Esporte que não há dinheiro disponível, o ministro Leonardo Picciani (PMDB-RJ), faixa-preta de jiu-jítsu, se ofereceu para pagar quase R$ 1,5 milhão como premiação de um torneio da modalidade disputado em Manaus (AM). A disputa ofertou viagem a uma competição nos Emirados Árabes Unidos para 66 campeões, incluindo 10 atletas másteres, dois ‘faixa branca’ (iniciantes) e uma atleta argentina, numa delegação total de 90 pessoas – sem contar o ministro e pelo menos um assessor, que viajam com outro recurso do ministério.

Para piorar, com fortes indícios de superfaturamento no projeto de convênio com a Secretaria Estadual de Juventude, Esporte e Lazer do Amazonas (SELEJ-AM), que também enviará pelo menos mais quatro pessoas.

O torneio em Abu Dhabi começa nesta terça-feira (18) e vai até o sábado (22). Pelo orçamento aprovado pelo Ministério do Esporte, cada uma das 90 passagens São Paulo/Abu Dhabi/São Paulo custaria R$ 9.293. Na última sexta-feira à noite, o Olhar Olímpico cotou quanto ficaria comprar, naquele momento, um voo saindo ontem (16) de São Paulo e voltando na segunda-feira que vem (24). O preço pela Catar Airlines: R$ 5.681, sem taxas. Já a ponte aérea Rio-SP-Rio, que pode ser encontrada por menos de R$ 300, custaria R$ 1.483 no convênio.


Outro exemplo: a estadia no Hotel Alof Abu Dhabi foi aprovada pelo Ministério do Esporte por R$ 871 a diária em quarto duplo, a partir de orçamento apresentado pela Trevo Turismo – as concorrentes levaram preços ainda mais altos. O Olhar Olímpico cotou o mesmo serviço no site do hotel na sexta-feira e encontrou um preço bem inferior: R$ 308. Um superfaturamento de 182%. Isso na compra de uma única diária. O Ministério do Esporte aprovou a aquisição de 297 delas.

Em contato com o blog, o secretário estadual do Amazonas, Fabrício Lima, outro faixa-preta de jiu-jítsu, disse que costuma pedir às empresas que participam da licitação para que elas coloquem “um pouquinho a mais para poder ter margem para trabalhar”, alegando que passagens aéreas e diárias de hotel “mudam de valor”.  Segundo ele, se os preços na compra se mostrarem de fato mais baratos, o dinheiro que sobrar será devolvido. Na verdade, quem deveria se preocupar com essa flutuação é quem fornece o serviço ao ente público por um preço pré-definido.

De qualquer forma , o ministério não precisaria pagar essa conta de R$ 1,5 milhão.

Em crise financeira, ele se ofereceu a arcar com essa conta. “A gente tem um patrocínio, que é a Etihad (Airways), que sempre paga 16 viagens para Abu Dhabi para os campeões por peso. Mas esse ano o ministério disse: ‘Não, nós queremos dar para todos os campeões de Manaus, por faixa e no absoluto’. A gente ficou meio em pânico, mas falamos: ‘Se vocês querem dar, querem apostar, não tem problema nenhum”, conta Elias Eberhardt, representante no Brasil da Federação de Jiu-Jítsu dos Emirados Árabes, a UEAJJF, organizadora do torneio de Abu Dhabi.

A entidade árabe é parceira da Federação Brasileira de Jiu-Jítsu (FBJJ), que organizou o torneio nacional em Manaus, em fevereiro, com o apoio da SEJEL-AM. À época, os organizadores informaram à imprensa que a competição formaria uma “seleção brasileira” que viajaria a Abu Dhabi com tudo pago (aéreo, translado, hotel, alimentação, inscrição e camiseta do torneio) numa “parceria” da FBJJ com o ministério e a SELEJ. Segundo o secretário, naquele momento ele já havia recebido o “OK” do ministro de que o convênio sairia.

Em 15 de março, um mês depois do torneio em Manaus, a SEJEL-AM enfim apresentou o projeto de convênio para o Ministério, que aprovou quase todos os itens – só rejeitou arcar com quatro quimonos por atleta e com o valor do visto de entrada nos Emirados Árabes. Aceitou pagar, por exemplo, nove diárias de hotel por pessoa em Abu Dhabi. Mas a primeira leva de atletas só chegou ao destino no último domingo (16) e o torneio termina no dia 22. “Cada caso é um caso. Tem atletas que vão ficar cinco, alguns que vão ficar seis”, diz o presidente da FBJJ, Walter Mattos, que não soube explicar por que o projeto é para nove dias. Ele não é parte do convênio. Já o secretário diz que percebeu que havia diárias demais e sugeriu cortar.

Tudo isso, porém, até agora não saiu do papel. O convênio, o primeiro do ano no Ministério do Esporte, foi publicado no Diário Oficial da União do último dia 11, terça-feira, mas até sábado nenhum valor havia sido transferido. No Portal de Convênios do governo federal, aparece que a conta bancária apresentada não havia sido aprovada. Mesmo assim, diversos atletas já embarcaram, participando inclusive da competição paralímpica, na sexta. A SEJEL diz que está pagando as contas com a certeza de que será ressarcida pelo Ministério do Esporte.

Em nota enviada ao Olhar Olímpico na última quinta-feira, o Ministério do Esporte confirmou que ainda não havia liberado os recursos e disse que firmou o convênio porque a SEJEL-AM “havia se comprometido em encaminhar os atletas vencedores de etapa de competição realizada no Amazonas como contrapartida para receber uma das etapas do campeonato”. A viagem internacional será a segunda de Picciani para um torneio esportivo. Em ambas, esteve em eventos de jiu-jítsu.

O Ministério também ressaltou que, desde 2014, o governo federal está impossibilitado, por lei, de firmar convênios com entidades privadas sem fins lucrativos (como a FBJJ), sendo liberados apenas convênios com entidades públicas (com a SEJEL-AM).

Já as confederações olímpicas só podem firmar termos de fomento e/ou termos de colaboração com o Ministério do Esporte. Para isso, porém, é necessário que a pasta faça uma chamada pública, o que ainda não aconteceu em 2017. O blog consultou as confederações de ginástica, handebol e vôlei e todas afirmaram que não apresentaram novos projetos ao ME depois dos Jogos do Rio porque não houve abertura de edital.
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Quer fazer alguma denúncia? Vamos conversar: demetrio.prado@gmail.com

Sobre o autor

Demétrio Vecchioli, jornalista nascido em São Roque, interior de SP, vive na capital paulista desde que começou a estudar jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, onde terminou a graduação em 2007 e a pós-graduação em 2011. Após início na Rádio Gazeta, foi repórter na Agência Estado e no Estadão. Focado na cobertura olímpica, produziu o Giro Olímpico para o UOL e reportagens especiais para a revista IstoÉ 2016. Criador do Olimpílulas, foi colunista da Rádio Estadão e blogueiro do Estadão, pelo qual cobriu os Jogos do Rio-2016.

Sobre o blog

Um espaço que olha para os protagonistas e os palcos do esporte olímpico. Aqui tem destaque tanto os grandes atletas quanto as grandes histórias. O olhar também está sobre os agentes públicos e os dirigentes esportivos, fiscalizados com lupa.

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